Ministério Público Federal quer
que União seja responsabilizada por conflito entre fazendeiros e índios de Mato
Grosso do Sul
Procurador da República irá
ajuizar ações individualizadas para cada comunidade contra o Estado

Campo Grande (MS), dezembro de 2.011 - O Ministério Público Federal (MPF) vai
pedir que a Justiça Federal responsabilize o Estado brasileiro pela atual
situação dos cerca de 50 mil índios Guarani Kaiowá que vivem em Mato Grosso do
Sul.
O procurador da República em Dourados (MS), Marco Antonio Delfino de Almeida,
planeja entrar com ações civis públicas na Justiça Federal. Almeida adiantou
à Agência Brasil que deve impetrar as duas primeiras ações em janeiro de 2012.
Segundo ele, poderão ser as primeiras de uma série de ações individualizadas
ajuizadas - uma para cada comunidade ou denúncia de violência contra os índios
no estado. Se for condenada, a União pode, entre outras coisas, ser obrigada a
acelerar o processo de demarcação de novas reservas.
"Isso vai demandar tempo porque, para não sermos levianos, vamos precisar de
laudos técnicos que comprovem os prejuízos em cada um dos caso. E também porque
apenas dizer que os índios foram prejudicados é muito pouco", declarou Almeida,
revelando que o levantamento de informações para comprovar a exata dimensão dos
prejuízos causados aos Guarani Kaiowá já foi iniciado.
Entidades ligadas à causa indígena e órgãos governamentais apontam Mato Grosso
do Sul como o estado mais perigoso para os índios viverem. Segundo o Conselho
Indigenista Missionário (Cimi), 250 indígenas foram mortos no estado de 2003 a
2010. Embora muitas dessas mortes sejam resultado de crimes comuns, como brigas
entre os próprios moradores de uma comunidade, a maioria está ligada à luta pela
terra que índios e fazendeiros travam há décadas.
Para especialistas, muitos dos crimes entre
índios são conseqüência da situação de confinamento em reservas cuja área se
tornou insuficiente para abrigar a todos, da falta de perspectivas ou da perda
da identidade cultural, que, entre coisas, ocasiona a derrocada dos tradicionais
mecanismos de mediação de conflitos internos.
"Cada comunidade tem um histórico de violência e
de mazelas decorrentes desse processo de confinamento, como a desnutrição
infantil e a violência. É importante caracterizar como a União contribuiu para
isso em cada um dos casos", afirmou o procurador. Para Almeida, a União não
apenas tem sido omissa em relação ao conflito fundiário causado pelo estímulo à
produção agropecuária no Centro-Oeste, como, inicialmente, contribuiu para que a
situação chegasse ao ponto que chegou.
Segundo o procurador, durante as primeiras décadas do século 20, a pedido de
fazendeiros recém-chegados ao estado, onde adquiriam, legalmente ou não, terras,
a União passou a remover os índios de seus territórios tradicionais. Eles foram
concentrados em reservas, liberando as demais áreas para a agropecuária. "Um
processo semelhante à formação de guetos de judeus" que, segundo o promotor,
resultou na disputa fundiária que já se arrasta há décadas, provocando não só
prejuízos aos índios, mas também um clima de insegurança jurídica que prejudica
o próprio setor produtivo.
De acordo com a Funai, os Guarani Kaiowá são, atualmente, o mais numeroso povo
indígena do país, com cerca de 50 mil pessoas vivendo em Mato Grosso do Sul. A
maioria delas vive em situação de miséria, ocupando 42 mil hectares (o
equivalente a 420 milhões de metros quadrados ou 42 mil campos de futebol).
Em 2009, a Agência Brasil já havia publicado uma série de matérias sobre os
conflitos fundiários na região. O especial Duas realidades sobre o mesmo
chão mostra as contradições em uma área onde indígenas em condições precárias
vivem ao lado de latifúndios prósperos.
Fonte: Brasil de Fato