Eucalipto: o deserto verde

Três Lagoas: "a capital da celulose": o não dito

O intuito deste artigo é evidenciar para a sociedade que não há consenso, pelo menos de parte da academia, quando o assunto é a eucaliptização da região leste do Mato Grosso do Sul

# Rosemeire A. de Almeida

Três Lagoas (MS), dezembro de 2.010 - Impressiona a forma voraz como a mídia vem construindo o consenso em torno da formação do “vale da celulose” na região Leste de Mato Grosso do Sul.

Mais um capítulo desta blindagem que visa anular ou colocar no limbo questionamentos, foi veiculada na edição de outubro da Revista Época, cujo título é: “Três Lagoas – Capital Mundial da Celulose”.

Impondo uma visão de desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico, a reportagem dedica extensa matéria às transformações territoriais em curso no município, oriundas do “complexo celulose-papel”. Ao leitor desavisado fica a ideia do progresso, fartura de empregos, gente sorrindo à toa, a ignorar os impactos do plantio do eucalipto; como diz a reportagem “... a população de Três Lagoas não fez do impacto ambiental um assunto prioritário, como ocorreu recentemente no Rio Grande do Sul ...”.

Porém, é preciso complementar que esta relativa inércia da população se deve à velocidade do negócio, incompatível com o processo de conscientização e organização da sociedade. Uma pesquisa autônoma leva, no mínimo, dois anos para obter resultados.

Esta velocidade ocorre porque o Estado tem ordenado o território por meio de incentivos, isenções, flexibilização ambiental, o que permite uma acumulação de capital acelerada.

Em três anos, a Fibria dobrou a área plantada e montou um complexo celulose-papel, em torno de 280 mil ha, que faz com que, do total produzido pela empresa, Três Lagoas responda por ¼ da produção de celulose (1,3 milhão Ton/Ano).

Por outro lado, o Plano Estadual de Florestas/MS apresenta números no mínimo espantosos, projetando uma área plantada de eucalipto, em Mato Grosso do Sul, de 1 milhão de ha (SEPROTUR, 2009).

O céu é o limite!

Alguns probleminhas, como o caos no trânsito, são citados aqui e ali, sem realce, para que pareçam coisa normal, conseqüência inevitável do progresso. O que não se revela são os números do “probleminha” que se materializam em seres humanos a lotar os leitos do único hospital público da cidade.

Como de praxe, não há na matéria o contradito. Ouviram apenas os que ganham muito, em especial os especuladores imobiliários, pois, como diz a reportagem, se pode viver na cidade da renda dos aluguéis; já o outro lado há muito não dorme pela sangria do aluguel.

Poderíamos enumerar vários não ditos que merecem investigação da academia, por exemplo: camponeses têm relatado constantes e intensos ataques de papagaios e maritacas em suas roças de milho; frutas do pomar são disputadas, cada vez mais, com araras e tucanos; há registro de pulverização aérea em plantios de eucalipto próximo a área de assentamento; nascentes e córregos em desequilíbrio.

A geração de empregos é discutível, uma vez que a empresa já mecanizou o corte do eucalipto e anuncia mecanizar o plantio. Além disso, o cruzamento dos investimentos com os financiamentos do setor nos dá pistas de que o erário público é o grande financiador do negócio.

No caso do financiamento do BNDES, o setor celulose-papel nos últimos dez anos obteve mais de 9 bilhões de reais em financiamento – R$ 2,3 bilhões somente em 2006. Para Três Lagoas, em 2009, a Fibria recebeu R$ 661.285.900,00.

Certamente este debate é uma versão tupiniquim de Davi e Golias, pois se trata de uma gigante do setor, líder mundial na produção de celulose de mercado, com produção em 2009 de 5.400 milhões/ton/ano, capital estimado em 7 bilhões e um aumento de lucro de 116% em relação ao ano anterior. E não fica nisso. Outra do setor, a recente Eldorado, já é realidade na região Leste a tecer a rede deste agronegócio.

Ao contrário do que se ventila, a região Leste possui outras formas sociais de existência, fora a grande propriedade. Como exemplo, há 32 projetos de assentamento, 5.811 famílias. Porém, a dinâmica da concentração da terra em poucas e privilegiadas mãos é também a marca desta região.

Nela os estabelecimentos com menos de 200 ha representam 60,19% detendo 4,58% da área, já aqueles acima de 1000 ha representam 14,30% e dominam 73,45% da área. Apesar disso, 42,68% do leite produzido na região provém dos estabelecimentos de menos de 100 ha.

Um dos impasses fundamentais é que a expansão do eucalipto não visa democratizar esta estrutura fundiária, ao contrário. Além de colocar bloqueios a aquisição de terras para a Reforma Agrária em curso na região, responsável pela socialização de inúmeras famílias que vivem à margem do sistema.

A ineficiência da política pública voltada ao estímulo da produção familiar coloca impasse eminente na região Leste, obra, em especial, da dinâmica de monopolização do território, pois a produção de alimentos básicos, segundo o Censo 2006 (IBGE), está em decréscimo contínuo em Três Lagoas.

A utilização de terras para a produção dos alimentos básicos é insignificante. A área colhida de cana, feijão, mandioca e milho totaliza 123ha, ou 0,01% da área total (932.678ha). Também decresce produção de leite e o rebanho bovino em comparação ao Censo 1995/96. Urge pensar numa escala de alternativas pautada no limite e na diversidade socioambiental.

O intuito deste artigo é evidenciar para a sociedade que não há consenso, pelo menos de parte da academia, quando o assunto é a eucaliptização da região Leste do MS. Estão em curso pesquisas que poderão auxiliar no debate junto à sociedade, no sentido de pensar quem está sendo impactado no tempo e no espaço: monitorarmos a área plantada por município, os impactos sobre fauna, flora e recursos hídricos, os conflitos gerados; discutirmos a constitucionalidade da flexibilização das leis ambientais em Mato Grosso do Sul, que dispensa de licenciamento ambiental as atividades de plantio e a condução de espécies florestais nativas ou exóticas.

Para aqueles que, às vezes, esmorecem ante o peso e o preço impostos pelo bloco hegemônico, lembro que a sina dos que discordam do consenso, como escreveu Frei Betto, é manter a esperança porque “A esperança é um pássaro em voo permanente. Segue adiante e acima de nossos olhos, flutua sob o céu azul, não se lhe opõe nenhuma barreira.” Nem mesmo a do eucalipto!

# Rosemeire A. de Almeida é professora doutora da UFMS/Campus de Três Lagoas.

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Fonte: Comissão Pastoral da Terra, Regional Mato Grosso do Sul (CPT/MS)