União Européia
propõe metas para países emergentes
Brasil teria de
reduzir em até 30% as emissões de CO2; novo documento pode substituir Protocolo
de Kyoto
São Paulo, janeiro de 2.009 - O Brasil e outros países
emergentes terão de se comprometer a cumprir metas detalhadas de redução de
emissões de dióxido de carbono (CO2) para ter acesso a bilhões de euros que
financiariam a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento de florestas.
Essa é a proposta que a União Europeia apresentará amanhã, em Bruxelas, como
base para o novo tratado climático que substituirá o Protocolo de Kyoto.
O Estado obteve uma cópia do rascunho do documento. Pelos cálculos da UE, os
países emergentes terão de reduzir entre 15% e 30% suas emissões de CO2 até 2020
para que mundo consiga atingir seus objetivos. O desmatamento no mundo também
precisará cair em 50% até 2020 e, até 2030, a perda de florestas tropicais
deverá ser totalmente interrompida.
O corte nas emissões de CO2 e a luta contra o desmatamento nos países emergentes
precisarão de investimentos anuais de quase 100 bilhões por ano até 2020,
segundo o documento. A UE admite que parte do dinheiro viria dos países ricos.
Mas só se houvesse um compromisso dos emergentes de que vão tomar ações e seguir
metas.
Pelas regras atuais de Kyoto, que expira em 2012, apenas os países desenvolvidos
são obrigados a reduzir suas emissões. Um novo acordo climático está sendo
negociado e deverá ser finalizado até o fim deste ano, na Conferência das Partes
da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Copenhague. A
proposta da UE é a primeira de uma série que países terão de apresentar em
fevereiro. Um dos pontos defendidos pela Europa é de que todos os países ricos
adotem metas de corte de emissões.
A Europa quer limitar a alta nas temperaturas globais a menos de 2°C e propõe um
corte de mais de 50% nas emissões de CO2 até 2050, em comparação aos níveis de
1990. Mas admite que isso apenas ocorrerá por meio de uma cooperação tecnológica
e financeira. Para ter acesso à ajuda, os países emergentes teriam de se
comprometer a adotar estratégias de redução de emissões até 2011.
O documento fala ainda sobre a criação de um organismo internacional
independente para monitorar a aplicação das estratégias de corte de emissões nos
países emergentes.
RECURSOS
Para Bruxelas, as recompensas aos países emergentes serão altas. A UE pede que
os investimentos globais em ações para mitigar a situação devam crescer e chegar
a 175 bilhões por ano até 2020. Mais da metade - entre 95 bilhões de euros e 100
bilhões - iria para os países emergentes. "Todos os países desenvolvidos devem
contribuir para mobilizar recursos financeiros para adaptar e mitigar os efeitos
em países em desenvolvimento", diz o rascunho da proposta.
O financiamento viria de várias formas. A primeira exigiria que cada empresa de
país rico pagasse um valor fixo para cada tonelada de CO2 emitido. A taxa
começaria em 1 por tonelada e subiria para 3. Isso produziria 28 bilhões por ano
até 2020. Outra seria a criação de um fundo de adaptação para permitir uma
mudança nos padrões industriais dos países emergentes. Isso custaria entre 23
bilhões e 54 bilhões.
NEGOCIAÇÃO
O ministro Luiz Alberto Figueiredo Machado, responsável pelo tema de mudanças
climáticas no Itamaraty, disse ao Estado que todas as propostas para o período
pós-Kyoto ainda terão de ser negociadas amplamente entre os membros da Convenção
do Clima. E ressaltou que o corte proposto pela Europa para os países emergentes
se aplicaria à curva de emissões futuras no cenário "business as usual" (se nada
fosse feito), e não sobre as emissões brutas.
Isso quer dizer que os países teriam de reduzir a taxa de crescimento de suas
emissões futuras, e não suas emissões atuais. "As emissões dos países em
desenvolvimento continuarão a crescer, porém a uma taxa menor do que cresceriam
no cenário business as usual ", disse Figueiredo. "Isso é o que o Brasil
defende, porque é o que a ciência diz", completou o diplomata, citando como
referência o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).
AGENDA DO NOVO
ACORDO
Indonésia, 2007: Representantes de 190 países acordaram diretrizes contra o
aquecimento global, conhecido como "mapa do caminho de Bali"
Polônia, 2008: Começou a ser delineado o próximo acordo, com instrumentos como
um fundo de adaptação e o plano de Redução de Emissões por Desmatamento e
Degradação (REDD), mas falhou em definir metas de emissões
Dinamarca, 2009: Prazo limite para o estabelecimento de um novo acordo que
substituirá Kyoto a partir de 2013. Negociações ao longo do ano tentarão
garantir o sucesso do acordo final
Fonte: Estadão