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São Paulo, março de 2.009 - Quem aprecia uma picanha malpassada e principalmente a camada branca de gordura que a envolve talvez se inquiete. Um tipo de gordura – os ácidos graxos saturados de cadeia longa, encontrados principalmente em carnes vermelhas – pode ser uma das causas da obesidade. De acordo com experimentos realizados em camundongos, essas moléculas acionam uma inflamação no hipotálamo, na base do cérebro, que leva à destruição dos neurônios que controlam o apetite e a queima de calorias.
“Talvez tenhamos encontrado uma explicação para a
dificuldade de as pessoas obesas controlarem a fome
e perderem peso, mesmo que adotem dietas severas
para emagrecer”, diz Lício Velloso, pesquisador da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que
coordenou esse estudo, publicado em janeiro na
revista científica Journal of Neuroscience. Esse excesso gerava resistência ao hormônio insulina, que carrega a glicose para as células, onde é transformada em energia, e induz ao consumo contínuo de alimentos (Pesquisa FAPESP nº 140). Testes com animais já haviam mostrado que dietas ricas em gordura em geral danificavam o hipotálamo mais intensamente que as ricas em açúcares. Para ver qual tipo de gordura era mais danoso, os pesquisadores da Unicamp injetaram diferentes tipos de ácidos graxos de origem animal ou vegetal no hipotálamo de camundongos.
Os
encontrados no óleo de soja mostraram um efeito
tênue sobre o cérebro, enquanto os encontrados em
gorduras animais e em proporção menor no óleo de
amendoim apresentaram ação mais danosa. Uma vez acionadas, a TLR-2 e, em maior intensidade, a TLR-4 estimulam a produção de outras proteínas, conhecidas como citocinas. Normalmente, em outras partes do corpo, as citocinas estimulam a produção de anticorpos e de células especializados em combater vírus, bactérias e tumores. No hipotálamo, as citocinas produzidas desse modo destroem neurônios que controlam o apetite e a queima de calorias. “O que não se sabia era o que poderia disparar essa inflamação que leva à morte de neurônios”, diz Velloso. Juliana Contin Moraes deve apresentar este mês uma tese de doutorado orientada por Velloso mostrando, por meio de seis técnicas de análise distintas, a morte de neurônios induzida pela inflamação acionada por esses tipos específicos de gordura. A TLR-4 era um alvo antigo. Em experimentos anteriores, camundongos dotados de uma mutação genética que desliga essa proteína engordaram menos, sem desenvolver resistência à insulina, mesmo quando submetidos a uma dieta com excesso de lipídeos (gorduras). O acionamento da TLR-4 explica também um fenômeno observado há anos nos laboratórios de Velloso e Mario Saad na Unicamp: a produção mais intensa que o normal de enzimas que impedem o funcionamento da insulina.
Essa
proteína representa agora a conexão entre dietas
ricas em gorduras e o desenvolvimento da resistência
à insulina, que pode facilitar o desenvolvimento de
obesidade, diabetes, hipertensão, doenças
cardiovasculares. Até mesmo câncer pode se
desenvolver mais facilmente em pessoas com peso
acima do considerado saudável.
De
acordo com um levantamento do IBGE com base na
população de 2003, 41,1% dos homens e 40% das
mulheres apresentam sobrepeso e 8,9% dos homens e
13,1% das mulheres são obesos no Brasil. A saída ainda distante seria encontrar medicamentos anti-inflamatórios capazes de agir somente no hipotálamo e em resposta a estímulos gerados apenas por ácidos graxos saturados de cadeia longa, para evitar que as células de defesa deixem de reagir quando apareça algum vírus ou bactéria. |
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