
A catástrofe ambiental
no Golfo do México e o esgotamento da era das energias
fósseis ou sujas
A catástrofe ambiental do Golfo do México, de dimensões
ainda subestimadas, nos oferece um bom momento de reflexão sobre o esgotamento
da era das energias fósseis ou sujas
Larissa Ramina
junho de 2.010
O economista
Ignacy Sachs, em evento na recém-criada Unila - Universidade da Integração
Latino-Americana - alertava para a ocorrência de várias crises conjugadas nessa
mudança de século. Enumerava a crise financeira e especulativa nos EUA, a crise
sócio-econômica de âmbito mundial, a crise epistemológica, da forma como pensar
o desenvolvimento, e a crise ambiental, que remete à co-evolução da espécie
humana com a biosfera.
Dizia ele que a solução para a crise ambiental estaria justamente em efetuar uma
saída ordenada da era das energias fósseis, que teve início no século XVII com o
carvão, o gás e o petróleo. Não se trataria de uma volta às civilizações
tradicionais do vegetal, e sim de uma nova transição em direção ao que chamou de
“biocivilizações do futuro”, com o uso inteligente e múltiplo das biomassas –
bioprodutos produzidos por biorefinarias.
O grande desafio do século XXI, entretanto, estaria em encontrar uma fórmula
para mitigar as mudanças climáticas e ao mesmo tempo gerar progresso social.
Trata-se de fazer convergir o ambiental e o social, criando “empregos verdes”.
Justamente aqui estaria a grande tarefa: encontrar o equilíbrio entre os
objetivos sociais e os ambientais.
As respostas estariam na transição para a
economia de matriz energética limpa, subordinada a um triplo critério, quais
sejam, uma economia socialmente includente, ambientalmente sustentável e
economicamente viável. Por óbvio a segurança energética não pode atropelar a
segurança alimentar.
A sociedade tecnológica atual, com alto uso das energias fósseis que provocam o
aquecimento global, levou a globalização a extremos que não se justificam.
Porque temos que comer frutas que amadurecem no verão durante o inverno,
trazendo as frutas de avião? O padrão de trocas internacionais é totalmente
irracional.
Deveríamos inserir no centro do debate sobre a crise ambiental a redução do
padrão da demanda energética. O consumo aumenta a um ritmo maior do que a
descoberta de novas jazidas, e estas, por sua vez, são de mais difícil acesso, e
logo com custos de produção mais elevados e maiores riscos ambientais.
Inevitável estabelecermos um paralelo entre a plataforma do Golfo do México e o
pré-sal brasileiro, situado a 7000 metros abaixo do sal. A questão ética está em
decidir explorar ou não essas novas jazidas. Se a resposta for positiva, devemos
dar um bom destino a essas riquezas. A riqueza gerada deve ser usada para
construir a transição a um mundo pós-petróleo. Assim, buscaríamos uma resposta
simultânea aos dois desafios do século: mudanças climáticas e passivo social. Os
estômagos vazios não decorrem de um déficit de produção, mas de um déficit do
poder de compra. O ambiental deve estar sempre junto com o social, e a crise
ambiental recoloca no centro do debate a crise social.
Quanto aos riscos ambientais, como o de um vazamento no mar, ou o impacto
negativo do aquecimento global, caberá a nós fazermos a reflexão. Estamos
iniciando a substituição da matriz energética suja, e o sucesso dependerá de
todo o planeta. Cooperação internacional, certamente, é um dos ingredientes que
não poderá faltar.
LARISSA RAMINA é Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da
UniBrasil e da UniCuritiba.