A celulose da morte

* Horácio Martins de Carvalho



Nem sempre os camponeses e os trabalhadores rurais do Brasil conseguem manter a sua histórica conformidade com o curso dos acontecimentos econômicos, sociais e políticos que se sucedem na sociedade da qual fazem parte. Nem sempre mantém a silenciosa resignação perante a exploração, a subalternidade e a exclusão social que latifundiários, grandes empresas capitalistas, madeireiros, mineradoras e grileiros lhes impõem. Nem sempre eles toleram as políticas públicas compensatórias que os amoldam aos valores e práticas sociais do neoliberalismo e que disseminam idéias socialmente discriminatórias contra os próprios trabalhadores do campo. Nem sempre a complacência dos camponeses com as variações de comportamentos da natureza os induzem a aceitar qualquer tipo de mudança que as empresas capitalistas do agronegócio desejam realizar com a biodiversidade.

Há sempre disposição por parte dos camponeses para o diálogo, as conversas sem fim, as reivindicações, os acordos, as crenças nas promessas, as certezas de que no tempo muitas coisas poderão mudar. Há resistências aqui e acolá quando lhes tentam impingir o inusitado, o deboche, a violação dos seus pactos de convivência com a natureza. Fazem da família seu refúgio, e do seu local de trabalho a sua fortaleza. Pacatos e hospitaleiros, sabem estabelecer sempre um limite para tudo isso, apesar da constante cordialidade camponesa.

A violação sistemática pelos outros de seu modo de ser e de viver quer parecer aos olhos de muitos como pressões para mudanças rumo a novas modernidades, para um suposto progresso que caminharia para tornar todos melhores e mais felizes. No entanto, esses progressos não são socialmente neutros nem todas as modernidades tornam melhor o vir-a-ser camponês.

Dizem alguns que o desenvolvimento das forças produtivas é inevitável, que o avanço da ciência e da tecnologia seguirá seu rumo para o infinito, queiramos ou não; que as forças intrínsecas à reprodução histórica da sociedade capitalista a tornam sempre inovadora, deixando para trás as dores do passado; que a concorrência predatória, a visão estratégica geopolítica mundial, a abertura indiscriminada dos mercados nacionais e a submissão dos povos sempre comuns e deslumbrados perante o novo, torna a iniciativa capitalista a única expressão da grande vontade de vencer que se supõe existir em todos nós.

Então, quando milhares de mulheres camponesas ocupam um horto florestal de uma grande empresa capitalista, quando elas se opõem à homogeneização florestal com eucaliptos pela inutilização de mudas clonadas dessa planta exótica, quando interrompem os experimentos agrícolas facilitadores da negação da biodiversidade, quando dizem não à violência social, econômica e ambiental promovida conscientemente pelas empresas de reflorestamentos dirigidos para a produção de celulose, percebemos que os meios de comunicação de massa, os governos e algumas organizações sindicais de trabalhadores se sentem constrangidas e surpresas pela presença ativa dessas mulheres que desejam afirmar a vida camponesa no seu convívio criativo e harmonioso com a natureza. Acentuam que a defesa da vida e da biodiversidade pressupõe valores éticos que não são regidos pelo lucro.

Alguns intelectuais, homens e mulheres da cultura, vêem nessa iniciativa de enfrentamento do arbítrio econômico, social e ambiental das empresas a serviços da produção de celulose uma postura política similar àquela dos ludistas, daqueles homens e mulheres, velhos e crianças, todos eles operários das indústrias inglesas que durante muitas décadas, a partir do meado do séc. XVIII, destruíam as máquinas que frações da burguesia instalavam nas suas indústrias para aumentar não somente a produtividade como a mais-valia que extraiam do proletariado.

Essa similaridade de ações políticas não é de todo surpreendente, nem impertinente. O que se faz inusitado na postura política desses intelectuais é a omissão das razões históricas que conduziram o proletariado, em fase incipiente de organização política e de desenvolvimento da sua consciência de classe nos meados do séc. XVIII, a tripudiar sobre as novas máquinas, assim como aqueles motivos que determinaram política e socialmente as mulheres camponesas no limiar do séc. XXI a violarem negócios privados e a tentarem anular as novas formas de exploração do trabalho e de degradação da natureza.

Ao compararem superficialmente a ação dos ludistas com a ação direta das mulheres camponesas de inutilização de mudas de eucalipto para a produção de celulose de empresa multinacional do agronegócio deixam de salientar um aspecto de fundamental relevância. Enquanto os ludistas se surpreendiam com a inovação tecnológica representada pela mecanização industrial movida, então, a vapor, as mulheres camponesas, diferentemente, estavam plenamente conscientes de que o deserto verde que vem sendo criado pelas multinacionais da celulose deve ser barrado e superado. Num caso uma ação de resistência contra o desemprego; noutro uma ação ofensiva de negação da degradação ambiental e social. Em ambos os casos, e com graus distintos entre os níveis de consciência política, estava explícita a luta de classes.

A crítica intelectual por vezes isola, pelo reducionismo de conveniência, essa iniciativa das mulheres camponesas de outras ações de resistência social e política dos camponeses e assalariados rurais que se verificam em todo o país. É oportuno relembrar que somente no ano de 2005 ocorreram 1.304 conflitos de terras, envolvendo 11.487.072 hectares e 803.850 pessoas . Há de se convir que essa iniciativa das mulheres camponesas faz parte de um movimento de resistência à exclusão social no campo e de negação do modelo agrícola dominante de maior e mais ampla envergadura.

Muitos desses intelectuais se desobrigam, talvez pela omissão consentida perante o arbítrio e a impunidade do capital, de levar em conta aquelas iniciativas violentas da empresa Aracruz Celulose contra os povos e a natureza, como uns poucos exemplos adiante ilustram. Perante a ação direta das mulheres camponesas, quer parecer que se torna, então, pouco relevante que:

- a Aracruz Celulose tenha se apropriado de cerca de 40 mil hectares de terras no Espírito Santo. Estudos da Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmam que a empresa se apropriou de 18.070 hectares de terras dos índios capixabas. Desses, os índios retomaram no ano passado 11.009 hectares apropriados ilegalmente pela empresa, e lutam por sua demarcação oficial;

- o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul tenha instaurado inquérito contra as três grandes indústrias de celulose que estão ali se instalando - a Votorantin, a Aracruz Celulose e a Stora Enso, porque elas estão plantando sem o licenciamento ambiental;

- a Aracruz Celulose responda a vários processos na Justiça Estadual e Federal por seus crimes ambientais. Em um deles, na Justiça Federal, a empresa foi obrigada a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Não cumpriu o TAC, e ainda mentiu ao Ministério Público Federal (MPF) informando o ter cumprido. A fraude foi descoberta por denúncia dos ambientalistas e o MPF reconsiderou sua decisão de arquivar o processo, como foi pedido pela empresa;

- milhões de hectares de solos aptos para a produção de alimentos estão sendo transformados pela Aracruz Celulose em desertos verdes pelo plantio de espécies vegetais madeireiras homogêneas, em especial o eucalipto;

- as plantas industriais de produção de celulose e papel estão entre as mais poluidoras entre todas as indústrias, motivo esse que reforça as estratégias dessas grandes corporações multinacionais de transferir essas fábricas de poluição de seus paises de origem para o Brasil;

- no norte do Estado do Espírito Santo a Aracruz Celulose, após adquirir 90% das terras em torno das fontes de recursos hídricos, consome por dia, sem pagar nada por isso, o equivalente ao consumo de 2,5 milhões de pessoas, deixando vilas e aldeias indígenas sem água.

A condescendência dos camponeses não significa necessariamente que eles irão suportar a perda da sua identidade social, da sua dignidade como pessoas e, passivamente, aguardarem a sua exclusão social, porque as empresas do agronegócio e os intelectuais mandarins que as cultuam supõe que tanto as ações do tipo ludista de dois séculos atrás como aquelas de enfrentamento direto e singular das empresas capitalistas pelas mulheres camponesas há dois meses são iniciativas que podem prejudicar o lucro privado dos negócios burgueses.

Supor que o progresso técnico é socialmente neutro é fazer de conta que o desenvolvimento das forças produtivas burguesas conduzirá inevitavelmente à formação de um proletariado com consciência de classe, combativo e capaz de transformar o mundo. As grandes empresas capitalistas contemporâneas mostram que outras formas de relações sociais de produção burguesa se estabelecem, diluindo a formação da consciência de classe e recriando novas maneiras de extração da mais-valia pela associação econômica e cooptação do proletariado.

A perspectiva mecanicista da transformação da realidade, que supõem um desenvolvimento sempre crescente das forças produtivas que por si só seria capaz de permitir ao proletariado e aos camponeses uma socialização pela divisão técnica e social do trabalho, num processo de acumulação de forças para mudar a ordem estrutural de classes vigente, incorre num viés reformista que defende um proletariado e campesinato atrelados à burguesia. O que a história contemporânea revela é que mais burguesia, mais capital, sempre levará à acumulação crescente de novos capitais e a novas e mais acentuadas formas de exploração do trabalho.

A ação das mulheres camponesas contra a celulose da morte não portava o estandarte dos trabalhadores rurais ingleses destruidores de granjas e de moinhos que afirmava “Pão ou sangue”. A ação das mulheres camponesas neste nosso tempo declara que a natureza não é um negócio e que a vida não é uma mercadoria.

* Professor Horácio Martins de Carvalho, engenheiro agrônomo e especialista em ciências sociais, atualmente membro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA) e assessor da Via Campesina.