
A dor que nunca passa
Brasília, dezembro de
2.008 - Nos anos 1970, quando abriam a BR-364 no Acre, ela cortou ao meio o
Seringal Bagaço, onde eu morava com minha família. À derrubada da mata seguiu-se
uma epidemia violenta e incontrolável de sarampo e malária.
Era gente doente ou
morrendo em quase todas as casas. Perdi um primo e meu tio Pedro Ney, que foi
uma das pessoas mais importantes da minha infância. Morreu minha irmã de quase
dois anos e, quinze dias depois, outra irmã, de seis meses. Seis meses depois,
morreu minha mãe.
Tudo era avassalador,
assustador. Uma dor enorme, extrema, que nunca passou. Para sair disso, tivemos
que reconstruir, praticamente, o sentido inteiro do mundo.
Aceitar o inaceitável, mas
carregá-lo para sempre dentro de si. Ir em frente, enfrentar a dureza do
cotidiano, sobreviver, cuidar dos outros. Viver, enfim, e dar muito valor à vida
e às pessoas.
Em 1985, numa das maiores enchentes do rio Acre em Rio Branco, eu morava no
bairro Cidade Nova, na periferia da cidade, numa pequena casa de onde tivemos
que sair às pressas, levando o que foi possível numa canoa. O resto foi levado
pelas águas, inclusive o único retrato que tínhamos de minha mãe.
Penso agora nisso tudo e acho que consigo entender o que sentem os catarinenses,
mas ainda estou longe de alcançar o significado estarrecedor de uma perda tão
total e instantânea como a que sofreram.
Na escuridão, o morro descendo, destruindo tudo, a busca desesperada pelos
filhos, a impotência. E, depois, descobrir-se só em meio ao caos: acabou a casa,
foram-se as pessoas amadas, o lugar no mundo. Não há mais nada, só a vida física
e a força do espírito.
Meus filhos andam pela casa com todo vigor, com toda a beleza da juventude, e
sequer consigo imaginar o que seria, de uma hora para outra, vê-los engolidos
pela terra, debaixo de toneladas de escombros ou mutilados para o resto da vida.
É algo terrível demais até no plano da imaginação. Fere a própria alma tão fundo
que chega a ser impossível entender plenamente a profunda tristeza de quem
enfrenta essa realidade.
Na Londres de 1624, os sinos da catedral de São Paulo, onde o poeta John Donne
era o Deão, tocavam quase ininterruptamente anunciando as milhares de mortes
causadas pela peste.
Atingido por grave enfermidade (que chegou a ser confundida com a peste) Donne
escreveu então um de seus textos mais conhecidos, a Meditação XVII:
"Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente,
parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se
fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de teus amigos ou mesmo tua;
a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por
isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."
Hoje, no mundo, os sinos dobram por todos nós e para nos acordar. Grandes
desastres podem virar acontecimentos corriqueiros. Não se pode afirmar
peremptoriamente que a tragédia de Santa Catarina deriva, em linha direta, das
mudanças climáticas identificadas no relatório do IPCC, o Painel Internacional
de Mudanças Climáticas da ONU. Mas em tudo se assemelha às previsões de
possíveis impactos da mudança no clima do sul do Brasil, até o final do século
21.
A natureza, numa pedagogia sinistra, parece exemplificar o que significam esses
fenômenos extremos que, em várias regiões do planeta, tenderão a provocar
períodos de seca muito mais severos e outros com precipitações intensas.
As ações de mitigação necessárias e as adaptações para enfrentar esses efeitos e
reduzir nossa vulnerabilidade diante deles ainda são precárias e estão
atrasadas. Os países ricos, detentores de recursos, conhecimento e tecnologia,
já avançam em medidas para se proteger.
As piores conseqüências deverão recair sobre os países pobres e os em
desenvolvimento. A urgência é auto-explicável. Não é um cientista quem o diz e
nem um livro. É a natureza, cujos avisos e alertas têm sido insanamente
ignorados.
O Brasil, que ontem lançou o seu Plano Nacional de Mudanças Climáticas, não tem
como deixar de fazer a sua parte, mesmo sem os meios disponíveis nos países
ricos. O acontecido em Santa Catarina é um sintoma e deve ser seguido de um
esforço de grandes proporções, de início imediato, para tentar evitar que se
repita.
É preciso que cada um de nós, autoridades públicas, empresas e cidadãos,
pensemos nos mortos, nas famílias inteiras soterradas, nas vidas destroçadas
debaixo do barro, antes de sermos tolerantes com ocupação em encostas, com
destruição de matas ciliares, com o adensamento de áreas de risco, com mudanças
de conveniência nas legislações. Não há mais espaço para empurrar os problemas
ambientais com a barriga, como tentam fazer alguns, e deixar para "o próximo" o
ônus de medidas ditas antipáticas. A omissão que ceifa vidas humanas tem que
acabar, mesmo à custa de incompreensões.
Nos tempos atuais, há mais um componente na agenda ética: não se deixar
corromper diante das pressões para ignorar a proteção ambiental e as medidas de
precaução exigidas pela intensificação dos fenômenos naturais. Quem detém algum
tipo de representação pública deve se convencer de que é preciso mudar profunda,
rápida e estruturalmente os usos e costumes, de modo a preparar o País para um
futuro de sérios desafios ambientais. Cada vez mais, não é só uma questão de
errar, corrigir o erro e aprender com ele. Agora a palavra de ordem é prevenir o
erro, para que não se repitam os olhares perdidos, os rostos esvaziados, o choro
inconsolável, a desesperança e as mortes que vimos nesses últimos dias em Santa
Catarina.
Marina Silva é Senadora da República e ex-Ministra do Ambiente.
Fonte: Portal Terra