
A psicologia do fumante
São Paulo, março de 2.008 -
Fumantes tendem a ser mais extrovertidos, característica que se relaciona com
outras, como sociabilidade, afetuosidade, espontaneidade e facilidade de
comunicação. Por outro lado, quando comparados com ex-fumantes e não fumantes,
eles se mostram mais propensos a serem mais ansiosos, tensos e impulsivos. Essas
características, por sua vez, do ponto de vista psicológico, têm forte relação
com transtornos mentais como esquizofrenia e depressão.
Esse diagnóstico foi descrito em estudo realizado na Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), que acaba de ser
publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia. O trabalho apresenta uma revisão
da literatura científica sobre a psicologia do tabagismo, a fim de eleger
características da personalidade consideradas como obstáculos ao abandono do
tabagismo.
Segundo os autores, a justificativa do estudo, cujos resultados tiveram como
base a análise de dados de mais de 60 trabalhos de grupos de pesquisa nacionais
e estrangeiros, é que a compreensão dos fatores de natureza psicológica
associados ao consumo de cigarros pode contribuir para a criação de novas
estratégias terapêuticas para o tratamento da dependência.
“Os programas de intervenção-padrão que têm como foco a terapia cognitivo
comportamental, como por exemplo os indicados pelo Inca [Instituto Nacional de
Câncer], basicamente vão orientar uma diminuição progressiva do uso do cigarro e
uma maior atenção ao ambiente controlador, que são as situações do cotidiano que
estimulam o consumo, seja após um cafezinho ou no happy hour com os amigos em um
bar”, disse à Agência FAPESP o coordenador do trabalho, Ricardo Gorayeb,
professor do Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica da FMRP.
“Conhecendo a personalidade dos usuários, após um atendimento individual, ou com
base em dados de literatura, o terapeuta pode direcionar um aconselhamento
clínico específico para cada indivíduo”, apontou Gorayeb, indicando que, apesar
de a prevalência de consumo variar de continente para continente, a literatura
indica que hoje, em média, 20% da população mundial é tabagista.
Seguindo essa linha de raciocínio, para aumentar o número de pacientes que de
fato abandonarão o tabaco no fim do tratamento, o pesquisador aponta ser
fundamental, antes de iniciá-lo, que a personalidade dos indivíduos e a presença
de algum distúrbio psiquiátrico sejam cuidadosamente avaliadas pelos
profissionais de saúde.
“Muitos casos no Hospital das Clínicas da FMRP, em que os pacientes eram
ansiosos ou tinham depressão, foram solucionados com programas paralelos de
relaxamento muscular e com o uso de medicamentos antidepressivos
concomitantemente ao programa. Essa avaliação prévia deve ser feita para evitar
a síndrome de abstinência”, explicou.
Motivação
grande, resultados modestos
De acordo com o estudo feito na FMRP, apesar de a literatura mostrar que cerca
de 70% dos fumantes afirmam querer parar de fumar, poucos conseguem: a maior
parte precisa de cinco a sete tentativas antes de definitivamente largar o
cigarro.
“Em outro trabalho, que conduzi nos Estados Unidos com um grupo de fumantes
atendidos no Hospital John Hopkins, 35% dos pacientes deixaram de fumar no
primeiro ano de tratamento. Esse índice de sucesso cai para cerca de 20% no
segundo ano”, afirmou Gorayeb.
Isso ocorre, segundo ele, entre diversos outros motivos, pela tão conhecida
síndrome de abstinência causada pela falta da nicotina, uma das principais, se
não a maior, causas da manutenção do vício. De acordo com a literatura, seus
sintomas variam em intensidade entre os usuários e se iniciam dentro de algumas
horas após a interrupção, atingindo o auge no terceiro dia sem o cigarro.
“Esse desconforto piora ao anoitecer e as maiores queixas se referem à compulsão
aumentada, à irritabilidade e à dificuldade de concentração. Tais alterações
podem ser observadas por 30 dias ou mais, mas os sintomas de compulsão podem
durar muitos meses ou anos”, aponta o artigo publicado.
Outro fator que dificulta o abandono é o ganho de peso, uma vez que estudos
clínicos e epidemiológicos consultados pelos pesquisadores relatam que,
normalmente, os fumantes pesam menos que os não fumantes e ganham peso quando
param de fumar. O trabalho da FMRP aponta ainda a maior prevalência de tabagismo
em pacientes portadores de transtornos psiquiátricos, em comparação com a
população em geral.
“A hipótese é que a nicotina interfere no funcionamento dos sistemas
neurotransmissores e exerce ações neuroendócrinas no organismo humano, o que
pode influenciar no quadro psicopatológico dos usuários”, explica.
O trabalho foi realizado em parceria com Regina de Cássia Rondina, professora da
Faculdade de Ciências da Saúde da Associação Cultural e Educacional de Garça (ACEG),
e Clóvis Botelho, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Para ler o artigo Características psicológicas associadas ao comportamento de
fumar tabaco, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP),
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Por Thiago Romero, da Agência FAPESP