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A contaminação insidiosa da moderna tecnologia agroquímica
 

# Engº José Lutzenberger

 

 

Cada vez mais freqüentes têm-se tornado ultimamente os incidentes desagradáveis que têm origem nos métodos da moderna tecnologia agroquímica. Já se verificaram consideráveis mortandades de gado e é cada dia mais substancial a destruição da fauna terrestre e aquática. Sabemos também, apesar das tentativas de encobrimento, que já são centenas as intoxicações agudas e mesmo mortes em nosso Estado (RS). Mas os casos que vêm à tona são apenas a ponta do iceberg. São poucos os que suspeitam e conseguem compreender a verdadeira extensão dos estragos.

Quando alguém é levado ao hospital após o manejo descuidado de “defensivos” agrícolas, ou quando o campo está semeado de animais mortos após a passagem de avião pulverizador de inseticidas, não restam dúvidas sobre a origem da calamidade, mas quando estamos morrendo de câncer, quando fígado ou rins se entregam ou quando entram em colapso as defesas do organismo, após anos ou décadas de contaminação insidiosa, a vítima e o próprio médico não saberão jamais onde procurar o culpado. A medicina moderna controla muito bem as enfermidades infecciosas, mas verificamos hoje um avanço vertiginoso das enfermidades degenerativas.

Saúde do solo, da planta, do animal e do homem são uma coisa só. Se aumentam as enfermidades degenerativas é porque decai a qualidade do ambiente. O camponês tradicional sabia disso e agia de acordo, mas o agrônomo moderno teima em subtrair-se às leis da Natureza. A agricultura moderna, com seu enfoque mercantil e tecnocrático, alienou-se de tal modo do mundo vivo, que vive de sua violação e destruição.

Em nosso país, temos uma situação especialmente infeliz. Aqui nunca tivemos a civilização camponesa de sabedoria milenar que caracterizou a maior parte do Velho Mundo. Iniciamos com a rapina da coivara, que ainda predomina, e dali saltamos diretamente para a rapina ainda mais violenta da hipermonocultura mecanizada e quimificada. Coexistem agora dois extremos e não há quase nada no meio. Se o caboclo, com o fogo generalizado e a erosão descontrolada, destrói em meses ou anos o que levou milênios para formar-se, a grande agricultura empresarial, com sua maquinaria pesada e seu arsenal de venenos fulminantes ou persistentes, solapa os próprios alicerces da Ecosfera. Enquanto que os danos causados pelo caboclo, por graves que sejam, são relativamente localizados, os danos da agroquímica são globais. Toda a Biosfera está hoje contaminada, não mais escapa o coral do Atol do Pacífico, e não escapa o pingüim do Antártico ou o condor do pico andico.

As técnicas agroquímicas são tecnologias brutais e imediatistas, resultantes de um enfoque simplório e setorial. O agricultor que quer livrar-se de um organismo que considera inimigo, compra um veneno de espectro amplo e o aplica uniformemente em todo o seu cultivo. Obtido o resultado almejado, que é a morte da praga , ele está contente e não lhe ocorre pensar nos demais organismos, direta ou indiretamente atingidos. Algo assim como se a polícia se contentasse com a liquidação de um grupinho de bandidos em uma grande cidade pela aplicação, por avião, sobre toda a cidade, de gases tóxicos, sem preocupar-se pelo destino dos demais habitantes.

Uma vez que a visão deste tipo de agricultor é tão estreita, que ele não vê em sua lavoura mais que cultivo e praga, é claro que não se pode esperar que olhe além da plantação. Mas para que o veneno que aplica seja eficiente naquilo que o agricultor se propõe, a natureza do veneno terá que ser tal que seu efeito não se limite à área ou momento de aplicação. Venenos como o Aldrin, Dieldrin, Chlordano e DDT, por exemplo, são eficientes justamente porque são persistentes, porque permanecem muito tempo no ambiente sem decompor-se. Outros venenos, menos persistentes como o Parathion, Metasystox, Dimethoate, são eficientes porque são fulminantes. Os problemas ambientais dos métodos de combate agroquímico, portanto, são decorrentes não somente, como se quer crer, do “mau uso” dos produtos, mas da própria natureza desse tipo de tecnologia.

O veneno mais conhecido do público, todos os dias mencionado em quase todos os jornais do Mundo, o DDT, é um hidrocarbonato clorado, uma substância sintética que não tem semelhante entre os milhões e milhões de substâncias até hoje inventadas pela Natureza. A Natureza – infelizmente o homem moderno insiste em querer ignorá-la – sempre foi e continua sendo muito sábia. Para cada uma da infinidade de substâncias que inventou, ela sempre inventou também, concomitantemente, a enzima capaz de decompô-la. Todas as substâncias que até hoje o Mundo produziu são biodegradáveis, a própria vida sabe como destruí-las e sempre as retira de circulação logo que cumpriram a sua função. O homem tecnológico, no entanto, com sua habilidade e “racionalidade”, não gosta de olhar muito além da ponta de seu nariz, inventa centenas de milhares de substâncias, muitas delas potentíssimas, as emprega despreocupadamente, mas, uma vez cumprida a missão imediata a que se destinavam, se desinteressa por elas e as abandona simplesmente no ambiente. Mas a Natureza não está preparada para estas loucuras, muitas vezes não consegue inativar o que lhe entregamos inadvertidamente. Estas substâncias escapam ao controle humano e continuam agindo na Natureza, nada mais consegue detê-las.

Vejamos o que acontece com o DDT. Sua meia vida no ambiente está em torno de 10 anos. Isso quer dizer que se aplicamos, hoje, 100 kg de DDT, em 10 anos estarão circulando ainda 50 kg, em 20 anos serão 25 kg, em 30 anos 12,5kg e assim por diante. Durante todo esse tempo, o material está agindo nos seres vivos. Sabemos que este e outros pesticidas clorados são carcinogênicos. A indústria, é claro, nega categoricamente de que haja prova de efeito carcinogênico no homem. O que foi provado é que o DDT pode causar câncer nos animais de laboratório. Para que fosse carcinogênico no homem, seria necessário que se fizessem experimentos controlados em humanos. Obviamente, este tipo experimento não se faz. Mas, se uma substância causa câncer em animais, é irresponsabilidade introduzí-la indiscretamente na Biosfera.

Uma vez solto na ambiente, o DDT circula por toda a Ecosfera, atingindo os lugares mais remotos do Globo. Em suas andanças pode concentrar-se através das cadeias alimentares. Uma concentração considerada insignificante num lugar, num corpo d’água por exemplo, pode tornar-se fatal para certos organismos no mesmo ou em outro lugar, e isto pode acontecer meses ou anos depois. O DDT é concentrado inicialmente pelos seres microscópicos, pelas algas e bactérias. Estas são consumidas por animaizinhos também microscópicos, os protozoários, que, por sua vez, são consumidos por pequenos crustáceos, pelos alevinos, girinos, por larvas de insetos e moluscos ou vermes. Todas estas criaturas são também consumidas por animais maiores, peixes pequenos que são consumidos por peixes maiores e assim por diante, até a ave palustre ou marinha, ou até o homem. Em cada um destes passos da cadeia alimentar verifica-se uma concentração. O animal maior, durante sua vida, consome grande número dos seres menores e vai acumulando o DDT neles contido. A concentração é enormemente amplificada. Para o último elo da cadeia os estragos poderão ser irreversíveis. Através deste efeito concentrado já desapareceram muitas aves de rapina ou aquáticas. È por isso, também, que hoje, em muitos lugares, o leite materno humano está tão contaminado com DDT que ultrapassa de longe as concentrações permitidas para leite de vaca.

No organismo individual as pequenas doses diariamente ingeridas ou mesmo absorvidas através da pele, se adicionam, depositando-se nas graxas e no fígado. Inicialmente não há estrago aparente. Mas, uma vez alcançadas certas concentrações, podem surgir complicações inexplicáveis para médico e paciente. Ao adoecer, por outras causas, o organismo consome as graxas que são suas reservas, o DDT ali depositado entra então maciçamente em circulação, complicando o caso e podendo transformar em caso fatal o que, sem esta contaminação, talvez tivesse sido facilmente superado.

No caso de venenos menos persistentes e não cumulativos, porém mais tóxicos, o que se torna cumulativo são os estragos advindos ou o confronto diário do organismo com doses mais do que homeopáticas. Fígado, rins, baço, sistema endócrino e os mecanismos de defesa acabam seriamente avariados. Além disso, muitos dos milhares de pesticidas e aditivos, hoje empregados com total abandono na agricultura e na indústria alimentar, são comprovadamente carcinogênicos, mutagênicos ou teratogênicos, mas sobre a grande maioria das mais de quinhentas mil substâncias que o homem moderno introduz no ambiente, pouco ou nada sabemos quanto a seus efeitos.

No caso de agentes carcinogênicos, uma só molécula, um só fóton, um só vírus, pode desencadear o câncer que eclodirá até 15 ou 20 anos depois. Maiores concentrações apenas aumentam a chance. Para que o leigo compreenda a natureza da probabilidade, basta contemplar a seguinte analogia: Um soldado, se tiver sorte, pode atravessar uma chuva de balas em um campo de batalha e sair ileso, enquanto que aquele pedestre, que se encontrava conversando com o amigo na esquina, cai mortalmente ferido por uma única bala perdida disparada por um irresponsável que brincava com armas e a muitas quadras de distância. Por isso, como não se deve atirar à toa, também não deveríamos introduzir no ambiente substâncias carcinogênicas. Não tem sentido falar de tolerância, ou seja, de concentrações permissíveis de resíduos de substâncias biocidas em nossos alimentos e no ambiente.

Um recente levantamento da situação da poluição do estado de Baden-Wuertenberg, Alemanha, demonstrou que a agricultura moderna é responsável de tanta ou mais poluição ambiental que indústria e transporte reunidos. Com a irresponsabilidade que campeia em nossa agricultura, a situação talvez seja muito pior.

Por que desabalou a agricultura moderna para as tecnologias brutais, imediatistas e irresponsáveis? Acontece que a agronomia moderna é apenas um aspecto parcial da sociedade de consumo. Hoje, o único critério válido em toda consideração tecnológica é o “aspecto econômico”. Por aspecto econômico se entende apenas o fluxo de dinheiro. Uma determinada tecnologia é mais econômica que outra se produz um maior fluxo de dinheiro em direção aquele que a emprega. Nossa atual ideologia econômica conhece somente os custos monetários, não leva em conta os custos sociais e, muito menos, os custos ambientais. Se a grande monocultura antiecológica e a agroquímica dominam a agricultura e a criação confinada a pecuária atual, é somente porque estes métodos possibilitam maior movimento de dinheiro. Está ausente toda preocupação com a qualidade biológica dos produtos e com a qualidade de vida. Só interessa produção máxima, ninguém se interessa com produção ótima.

As técnicas agrícolas e pecuárias são hoje ditadas pela indústria de maquinaria agrícola e pela indústria química. Já não mais é a indústria que se ajusta às necessidades de uma agricultura sã, mas é a agricultura que deve ajustar-se às necessidades de uma indústria próspera.

As grandes indústrias químicas, quase sempre imensos complexos multinacionais, podem dar-se ao luxo de investir dezenas de milhões de dólares na pesquisa e preparo para o mercado de um só produto, porque, se este produto tiver aceitação no mercado, o lucro, em poucos anos, será muitas vezes superior ao investimento. Mas os métodos biológicos, que são métodos ecológicos, precisos e discriminados e que levam em conta a complexidade da Natureza, também exigem, para seu aperfeiçoamento, grandes investimentos em dinheiro e esforço humano, mas, quando estes métodos estão a ponto de serem aplicados na prática, não permitem, em geral, negócios para terceiros. Só lucram com ele o agricultor, o ambiente e a saúde pública. É evidente que os grandes capitais não são atraídos para onde não há perspectivas de grandes negócios.

A pesquisa, na procura de soluções fitossanitárias, portanto, teria que ser levada a cabo, não pelas grandes indústrias, mas pelo Estado, pelas universidades cooperativas e mesmo pelas grandes empresas agrícolas. Acontece que a indústria química tem hoje tal força e dispõe de meios publicitários e persuasivos tais que manipula, direta ou indiretamente, Estado e particulares, inclusive muitas universidades.

A quase totalidade do assessoramento técnico-fitossanitário está em mãos da própria indústria química ou do comércio a ela associado. Algo assim como se o farmacêutico fosse quem escrevesse as receitas. Uma situação perfeitamente imoral. Mas a imoralidade não termina nisto. A indústria não hesita diante do emprego da corrupção. Para ela alguns ridículos milhares de dólares para um funcionário-chave, quando está em jogo um grande pedido para uma campanha sanitária ou de erradicação de determinada praga agrícola, nada significam. Ela não hesita sequer diante da pressão para que sejam removidos de seus postos, em grandes cooperativas, por exemplo, agrônomos que não estão dispostos a dobrar-se diante dela.

A indústria química aproveita-se ainda da tendência muito natural do burocrata em preferir sempre a solução mais simples, de efeito mais imediato. É muito fácil convencer um burocrata da necessidade de aplicações em grande escala, em programa governamental e de preferência por avião, de um determinado pesticida. O enfoque simplório, a simplicidade do processo e a vultosa soma em questão, prestam-se muito bem à demagogia tão necessária à sobrevivência do burocrata. Muito mais difícil seria convencer o burocrata e o público da necessidade de um esquema complexo e profundo, ao mesmo tempo que sistemático de pesquisa biológica, com fomento intensivo junto ao pequeno e grande agricultor. Quem não gosta de respostas simples a perguntas simples?

A indústria se aproveita perfeitamente deste estado de coisas e luta ferozmente contra qualquer tentativa de regulamentação. Ela vende livremente a quem quiser comprar, sem receitas, os venenos mais fulminantes que o homem já inventou, sem interessar-se por como e onde serão aplicados. Em um dos nosso matutinos repetem- se, nos fins de semana, anúncios que oferecem “arsênico sueco aos melhores preços”. No mesmo jornal, em artigo destinado ao ensino da agricultura na página infantil, um agrônomo recomenda o uso de Aldrin para sementeiras de horta e manda crianças docificarem o produto, um poderoso veneno absorvível pela pele, em caixinhas de fósforos. Delineia-se agora uma campanha para induzir o orizicultor a usar herbicidas quando não há nenhuma necessidade para isto.

A problemática da agroquímica é complexa e campeia à ignorância entre os próprios técnicos. Quando burocratas e políticos discutem o problema, o fazem, em geral, em total desconhecimento de causa e a indústria faz questão de não esclarecê-los adequadamente. Ela não esclarece sequer o comércio do qual se serve. Este fato ficou muito bem documentado pela recente mortandade de gado em Pelotas, RS, e ocorreu logo na fazenda de uma firma que tradicionalmente comercia com pesticidas químicos. A maneira como vem sendo conduzido o negócio da química agrícola, em termos ecológicos, é algo assim como se fosse permitido o comércio livre de bombas atômicas baratas e acessíveis ao público.

Neste aspecto, como em grande parte da tecnologia moderna, nós estamos nos comportando como aprendiz de feiticeiros. No caso do DDT e seus congêneres clorados, foram necessários 20 anos para que nos déssemos conta do alcance dos estragos causados à Biosfera e recém e agora começam a aparecer os perigos dos herbicidas seletivos, como o 2, 4-D e o 2, 4, 5-T, que já vêm sendo aplicados há 30 anos. O índice americano de produtos fitossanitários inclui mais de 10 000 marcas e a cada ano a lista aumenta de algumas centenas de nomes. Enquanto os legisladores trabalham em passos de lesma e só reagem após os desastres, a indústria química é extremamente eficiente na procura de sempre novas saídas para sempre novas substâncias. Não mais há precaução possível diante de tal avalanche. A solução está na simples insistência pela aplicação “adequada” dos produtos. Devemos frear e conter a própria avalanche. Mas isto só será possível a partir de enfoques radicalmente novos, enfoques globais, ecológicos.

(Publicado no jornal JSC, de Blumenau, SC, pág. 4, em 02 de março de 1975, com o título “Alimentos, ambiente e a invisível poluição química”.)
 


 

# O Engenheiro Agrônomo José Lutzenberger é um dos mais renomados cientistas do país e do mundo, fundador da Fundação Gaia da qual é Presidente vitalício. Detalhes aqui >>