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Amazônia feridaAmplo estudo publicado na revista Nature mostra que o processo de savanização está muito acelerado na parte oriental da floresta. Agressões podem resultar em mais eventos climáticos drásticos, como secas e cheias, e no aumento do aquecimento global
Brasília, 19 de janeiro de
2.012 - O alerta vem sendo dado aos poucos. Pesquisas preveem secas cada vez
mais frequentes e intensas, incêndios proliferam, em algumas áreas o
desmatamento ficou descontrolado. O resultado é o processo de savanização das
porções sul e leste da Amazônia. De forma acelerada, a maior floresta tropical
do mundo ganha contorno de cerrado, perdendo parte da sua capacidade de
armazenar carbono, um importante processo para contenção do aquecimento global.
Um artigo publicado com destaque na edição de hoje da Nature, com ampla
participação de pesquisadores e instituições brasileiras, incluindo a
Universidade de Brasília (UnB), reúne as mais recentes descobertas sobre o
fenômeno, que se tornou preocupante, de acordo com os especialistas.
Segundo a análise, resultante
do Programa de Grande Escala da Atmosfera-Biosfera da Amazônia(LBA), uma série
de fatores, humanos e naturais, estão sobrecarregando a borda oriental da
floresta, nos estados do Pará, do Tocantins e de Mato Grosso. Embora a Amazônia
tenha uma alta capacidade de se recuperar dos fenômenos que a agridem, a soma de
várias ações simultâneas limita esse poder de autocura. Como é na região de
limite com o cerrado que há maior pressão humana, é por lá que se inicia o
processo de savanização.
Na longa lista de agressões
que o rico ecossistema sofre, uma das mais antigas é o desmatamento. Embora nos
últimos anos o índice de retirada da vegetação tenha despencado de 28.000km², em
2004, para 7.000km², em 2011, o artigo classifica essa queda como "frágil". "No
ano passado, especialmente no primeiro semestre, houve um aumento no
desmatamento. A reversão dessa tendência no segundo semestre fez com que a média
do ano ficasse ligeiramente abaixo da de 2010", explica a pesquisadora do
Instituto de Biologia da UnB Mercedes Bustamante, que participou do estudo.
"Isso revela que, em algumas regiões, o desmatamento ainda é problemático e
precisa ser resolvido", completa.
Com a persistência da
retirada da camada vegetal e as queimadas ainda longe de serem controladas, os
cientistas avisam que, de certo modo, o mal já está feito. "Claro que é muito
boa a redução da retirada de árvores, mas dependendo da largura da área já
desmatada, há uma alteração importante no clima da própria região", conta Marcos
Longo, pesquisador brasileiro da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos,
que também integra o time de autores do artigo. "Nos lugares onde a largura
desmatada é de pelo menos 150km², há uma alteração na formação das nuvens e no
ciclo de chuvas", explica.
As árvores, os arbustos e as
demais espécies de plantas executam um processo de evotranspiração, quando
liberam água para a atmosfera. Esse líquido está entre os principais formadores
das nuvens de chuva. Ou seja, onde não há mais plantas, a frequência das
precipitações diminui. "Ao mesmo tempo, nas bordas da mata remanescente, devido
ao alto contraste entre a floresta e a área desmatada, aumenta a chuva", conta o
pesquisador brasileiro nos Estados Unidos. "Da mesma forma, dependendo do
tamanho da área desmatada, o interior da floresta naquela região também sofre
diminuição da pluviosidade. Um exemplo de onde ocorre isso atualmente é a região
de Rondônia, mas o problema pode surgir em qualquer lugar", completa.
Clima
A bagunça climática chegou a
tal ponto que, dependendo da época do ano, ocorre o fenômeno inverso: a ausência
quase total de chuva. "Em apenas cinco anos, houve duas grandes estiagens na
região: em 2005 e em 2010. Secas que normalmente ocorrem apenas uma vez a cada
100 anos", explica o norte-americano. "Se essa é uma tendência que deve
continuar, é muito cedo para dizer com confiança, mas um clima com mais secas
extremas é algo inteiramente consistente de acordo com projeções de mudanças
climáticas atuais", alerta o pesquisador.
O grande legado das secas,
mesmo após uma aparente recuperação da mata, é a limitação da capacidade das
plantas de exercerem seus serviços ambientais. O artigo conta que, quando a água
da chuva em uma determinada região diminui de 35% a 60% durante três anos, a
umidade do solo se esgota, a produção de madeira cai entre 30% e 60%, a
mortalidade de árvores quase dobra e a biomassa viva acima do solo diminui de
18% a 25%. Quando o período de seca cresce para entre quatro e sete anos, as
taxas de mortalidade quase triplicam. Os especialistas lembram que o fenômeno de
2005 trouxe efeitos semelhantes (o nível do Rio Solimões ficou apenas entre 33%
e 65% da média histórica).
Carbono
Enquanto o mundo tenta
reduzir o efeito estufa por meio da captura do excesso de carbono — liberado
principalmente pela queima de combustíveis fósseis —, a floresta guarda em suas
folhas, troncos e galhos cerca de 100 bilhões de toneladas de carbono, o mesmo
que os 7 bilhões de habitantes do planeta demoram 10 anos para emitir.
Dessa forma, o
enfraquecimento da floresta não seria apenas um problema das comunidades locais,
ou dos países da América do Sul por onde ela se estende. "As plantas utilizam o
carbono presente na atmosfera para se desenvolver. É como se elas "comessem"
esse carbono", explica Marcos Longo. "Quando não há vegetação, não há quem
utilize esse carbono. Da mesma forma, quando há derrubada da floresta, o carbono
armazenado nas árvores vai para algum lugar, no caso, para a atmosfera." Assim,
a balança de carbono mundial ficaria ainda mais desequilibrada, com menos seres
consumindo o elemento e uma gigantesca quantidade da substância despejada na
natureza.
Conhecimento
ampliado
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