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Lutas contra o aquecimento e a pobreza caminham juntas, diz vice do IPCC Rio de Janeiro, outubro de 2.007 - O vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), Mohan Munasinghe, alerta que países pobres sentirão os principais impactos do aquecimento global e que as nações industrializadas devem ter mais maior responsabilidade na mitigação de gases do efeito estufa. Afirma, também, que existem boas experiências de avanço simultâneo no desenvolvimento socioeconômico e na contenção das mudanças climáticas. Apesar de não defender o estabelecimento de metas de redução para países em desenvolvimento, o vice-presidente do IPCC aponta uma solução alternativa: a criação de um grupo intermediário, com responsabilidades mais próximas às dos países ricos. O Brasil, segundo Munasinghe, poderia ser incluído nesse grupo. Ele concedeu entrevista à Agência Brasil durante a semana, quando esteve na capital fluminense para o primeiro encontro do painel da América Latina, organizado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Rio de Janeiro e pela Companhia Vale do Rio Doce. Agência Brasil: Quais os pontos mais relevantes das conclusões do IPCC? Mohan Munasinghe: O ponto principal é que o aquecimento global é inequívoco. O segundo, é que é muito provável que ele tenha sido causado pela ação humana, principalmente após a Revolução Industrial, nos últimos 100 anos. E a causa é o acúmulo de carbono na atmosfera. O terceiro ponto é que os impactos serão sentidos com mais intensidade nos países pobres e pelos grupos mais pobres – isso é relevante para nós. O relatório fez previsões sobre o aumento de temperatura e do nível do mar, e também apontou as soluções. Nós propusemos, por exemplo, ações de adaptação. E também de mitigação, para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O Protocolo de Quioto é só um pequeno passo para essa mitigação, e nem ele mesmo foi propriamente implementado. Os resultados do IPCC mostraram que nos últimos 30 anos as emissões aumentaram mais de 70%. Mesmo nos últimos dez anos, depois do Protocolo de Quioto, as emissões aumentaram, e isso é inaceitável. O ponto mais importante para países em desenvolvimento, como Brasil e o Sri Lanka – meu país – é que o melhor método para resolver o aquecimento global, para adaptação e mitigação, é integrar as soluções em uma estratégia de ação: é o caminho para continuar o desenvolvimento, com melhoria da vida das pessoas pobres e combate ao problema das mudanças climáticas ao mesmo tempo. ABr: Como isso é possível? Munasinghe: A questão é tornar esse desenvolvimento mais sustentável. Temos histórias de sucesso de adaptação, mitigação e desenvolvimento ao mesmo tempo. Temos metodologias e tecnologias para isso. Desenvolvimento e clima não devem ser opostos, são complementares. A idéia é continuar a desenvolver, mas de forma mais sustentável, para resolver não só o problema do aquecimento, mas também a pobreza e segurança alimentar, por exemplo. O mais importante de tudo é que esses países não podem copiar ou repetir os resultados ruins dos países desenvolvidos. A solução é que países industrializados reduzam suas emissões e países em desenvolvimento tenham outro caminho de desenvolvimento, em que as emissões não cresçam tão rápido. ABr: É hora de estabelecer metas de redução de emissões para em desenvolvimento? Munasinghe: A Convenção de Mudanças Climáticas [da Organização das Nações Unidas] fala em responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Comum porque eu, você e todo mundo temos o objetivo conjunto de salvar o planeta; diferenciadas porque nós temos diferentes habilidades e capacidades para isso. O Protocolo de Quioto reconheceu esse princípio: mais de 80% dos gases de efeito estufa presentes na atmosfera hoje foram emitidos pelos países ricos. Além disso, eles têm mais recursos econômicos e financeiros. O protocolo diz: vocês, países ricos devem começar a mitigação e mostrar para o resto do mundo como isso está sendo feito. Nos países em desenvolvimento, os níveis de emissões per capita ainda são pequenos, e para crescer eles precisam aumentar essas emissões; isso é reconhecido ao não se estabelecer metas no protocolo para essas nações em desenvolvimento. No entanto, à medida que a tecnologia vai se desenvolvendo nos países industrializados, podemos começar a adotar algumas tecnologias de mitigação e reduzir o crescimento global das emissões e de utilização de energia. Em vez de separar países no Anexo 1 [do Protocolo de Quioto] ou fora do Anexo 1, ricos e pobres, é possível ter um grupo intermediário. Por exemplo, a Coréia, ela poderia entrar no grupo de países do Anexo 1, porque agora ela é rica; teríamos países se preparando para entrar no grupo dos países com metas. Acredito que as negociações pós-Quioto, que vão começar agora em Bali [em dezembro] vão tentar incluir algumas dessas idéias.
ABr: Qual seria a posição do Brasil nesse contexto? Munasinghe: Acredito que o Brasil estaria mais próximo do grupo intermediário.
ABr: Com metas? Munasinghe: Não necessariamente. Caberia ao governo tomar a decisão. O mais importante não é estabelecer metas para os países em desenvolvimento, mas garantir que os países ricos implementem, cumpram suas metas. É muito mais importante, porque eles já concordaram, ratificaram o protocolo, mas estão longe de cumpri-lo.
ABr: A participação do IPCC na reunião das partes (COP) não indica que o painel tem influência política sobre as nações representadas na convenção? Munasinghe: Não fazemos recomendações. O IPCC vai apresentar resultados, como está fazendo aqui, então ficará óbvio para os formuladores de políticas o que precisa ser feito. Não temos que dizer: faça isso, faça aquilo. Não é nosso trabalho. Mas quando eles vêem os resultados, eles sabem o que têm que fazer. E cada país tem que tomar atitudes diferentes; não conseguiríamos dar instruções a 160 países.
Munasinghe sugere uso de dinheiro do Nobel em fundo contra mudança no clima
No segundo trecho da entrevista à Agência Brasil, o vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), Mohan Munasinghe, diz que o recebimento do Prêmio Nobel da Paz elevará a confiança dos governantes nas pesquisas do órgão, ligado às Nações Unidas.
A premiação será dividida com o ex-presidente dos Estados Unidos Al Gore, pelo trabalho sobre o aquecimento global.
Munasinghe diz que ainda não foi definida a partilha dos cerca de R$ 1,5 milhão que cabem ao corpo de pesquisadores, e sugere que o dinheiro seja destinado a um fundo para capacitação e disseminação de informações sobre clima nos países em desenvolvimento.
Agência Brasil: Qual a importância do Prêmio Nobel da Paz para o trabalho do IPCC? Mohan Munasinghe: O Nobel agrega valor ao trabalho do IPCC. Primeiro, pelo reconhecimento: há muitos cientistas de muitos países – entre eles o Brasil, que contribuiu muito para esse relatório – e esse trabalho foi reconhecido. O trabalho dos cientistas do IPCC não é remunerado, então eles trabalham vários anos para um relatório, e é ótimo, agora, ver o trabalho dos meus colegas reconhecido dessa maneira.
O segundo ponto é a credibilidade: no passado, fomos alvo de algumas críticas, dúvidas sobre aquecimento global, sobre a contribuição humana para o fenômeno etc. Agora, com o Nobel, a credibilidade foi incrivelmente elevada e, portanto, os governantes e os tomadores de decisão vão confiar mais nos resultados do IPCC. O terceiro ponto é o futuro, a influência que teremos. O IPCC não faz recomendações, apenas tornamos os fatos conhecidos: nossos resultados têm implicações políticas, mas não recomendações políticas. O prêmio mostra que a ciência é tão importante como política para o futuro da humanidade. Portanto: reconhecimento, credibilidade e reconhecimento.
ABr: Como o IPCC vai utilizar o dinheiro do prêmio? Munasinghe: Posso lhe dar uma posição pessoal, porque o IPCC ainda não decidiu o que vai fazer; mas eu recomendo que o dinheiro seja colocado em um fundo para utilizar em capacitação e disseminação de informações sobre mudanças climáticas nos países em desenvolvimento. O dinheiro deveria ser utilizado em um bom propósito e para promover o trabalho do IPCC, não necessariamente distribuído entre os membros; essa é minha opinião pessoal e tomara que a maioria dos meus colegas prefira essa solução.
Fonte: Luana Lourenço, Repórter da Agência Brasil
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