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Campanha massiva na TV esconde agressões da Aracruz
Quilombolas, indígenas e
camponeses do Espírito Santo escrevem nota de repúdio a Pelé, Gilberto Gil e
Daine dos Santos por participarem do comercial da transnacional
Brasília, junho de 2.006 - Quilombolas, indígenas e pequenos agricultores do
Espírito Santo, vítimas da Aracruz Celulose no Estado, estão redigindo uma nota
de repúdio à peça publicitária que a transnacional do "eucalipto" tem veiculado
entre os jogos da Copa do Mundo. O texto será mandado às sete personalidades que
participam da propaganda e ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, que cedeu os
direitos de sua música "Balé de Berlim" à agência W/Brasil, responsável pela
criação.
No comercial, Pelé, a ginasta Daiane dos Santos, o cantor Seu Jorge, o
astronauta Marcos Pontes, o boxeador Popó, o técnico Bernardinho e o iatista
Robert Scheidt mostram sua intimidade com a bola, sob o slogan "Fazendo um
bonito papel no mundo inteiro". De acordo com as lideranças sociais, a
propaganda, enganosa, visa esconder as agressões que a empresa pratica contra
comunidades tradicionais, assim como contra o meio-ambiente.
O manifesto, redigido em conjunto pelos quilombolas, indígenas e camponeses,
virá acompanhado de fotos que mostram indígenas capixabas feridos, expulsos de
sua terra, em ação de despejo efetuada pela Polícia Federal e tratores da
Aracruz, no início do ano. O documento, que deve ter como porta-vozes artistas e
esportistas de renome, conta com o apoio da Rede Alerta Contra o Deserto Verde –
grupo formado por cerca de 100 entidades com o objetivo de frear a expansão da
monocultura do eucalipto no Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio de
Janeiro.
REI DOS NEGROS
"É inaceitável que negros com fama internacional ajudem a vender a imagem da
Aracruz Celulose, empresa que tomou os territórios dos descendentes de escravos
no norte capixaba", diz Domingos Firmiano dos Santos, liderança quilombola de
Sapê do Norte, que denuncia que até mesmo os cemitérios onde os escravos estavam
enterrados foram cobertos de eucalipto pela Aracruz. "O que mais assusta é que o
mesmo ministério que reconhece as comunidades quilombolas, através da Fundação
Palmares, também tem um papel indireto, com Gilberto Gil, no comercial".
Outra liderança quilombola, Kátia Santos Penha, comenta a participação do "rei
do futebol" no comercial, que se utiliza de três personalidades negras: "O Pelé
nunca se declarou como negro. Ele não nos representa. O título que ele ostenta
foi dado pelos brancos e pela mídia. Ele pode ser o rei do futebol, mas nunca
será o rei dos negros".
Em tempo, Pelé foi homenageado pelo rei da Noruega recentemente. Coincidências à
parte, o rei nórdico é cunhado do maior acionista da Aracruz, proprietário de
28% da empresa, vindo logo seguido pelo Banco Safra, também com 28% e pela
Votorantim, com outros 28%. O restante fica com um órgão ligado ao governo
federal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com
12,5% e com a Souza Cruz, detentora de um percentual menor.
NO BANCO DOS RÉUS
A imagem da Aracruz Celulose anda arranhada na Europa. Em maio, a empresa foi
condenada por ações violentas contra quilombolas, indígenas e sem-terra, durante
o Tribunal Permanente dos Povos, realizado na Áustria. Além disso, a
transnacional também tem tido de lidar com a repercussão negativa gerada pela
presença de indígenas brasileiros que têm denunciado a Aracruz em vários fóruns
europeus.
As lideranças indígenas informaram ao público do velho continente que a empresa
não só já destruiu cerca de 50 mil hectares de Mata Atlântica para plantar
eucalipto, como tem tomado as suas terras, a dos quilombolas e a dos camponeses.
Só no Espírito Santo, cerca de 50 mil hectares de território quilombola estão
nas mãos da empresa.
Uma juíza federal determinou que a Caixa Estadual, o Estado do Rio Grande do Sul
e o BNDES (por coincidência, também acionista da Aracruz Celulose) suspendam
qualquer propaganda que dê um enfoque estritamente positivo do plantio de
monoculturas de árvores. A decisão foi motivada por ação civil pública de
entidades ambientalistas, com o argumento de que a publicidade do governo firma
a convicção de que somente existem vantagens nas monoculturas de eucalipto. O
governo tem divulgado o seu programa de crédito para o plantio de eucalipto sem
abordar qualquer desvantagem ou perigo sócio-ambiental causado pelo plantio.
Fonte: Marcelo Netto Rodrigues da Redação (Jornal Brasil de Fato)

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