A Seca


Curitiba, agosto de 2.006 -
Semana passada, em algumas regiões do Estado de São Paulo, a umidade relativa do ar girava em torno de 13%. Clima de deserto.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, umidade relativa menor que 20% é risco certo à saúde humana.

Na mesma semana, a umidade relativa do ar do Estado do Paraná, situava-se ao redor de 30%. Clima saudável.

Os dois estados são vizinhos. A natureza desconhece divisões político-geográficas. O que acontece, então?

São Paulo, tal qual o Paraná, teve uma ocupação territorial rápida e predatória. O Paraná, há mais de 20 anos, no entanto, insiste em técnicas de manejo do solo tais como terraceamentos, curvas de nível, readequação de estradas e o plantio direto. Estas técnicas, embora não resolvam de todo os problemas de super-aquecimento e perda dos solos, minimizam o drama.

Nos últimos 3 anos, o Paraná plantou 45 milhões de mudas de árvores nativas ao longo de rios e nascentes, no maior programa de recuperação de matas ciliares do mundo. Além disso, construindo 2.950 Km de cerca, isolou mais 43 mil hectares de áreas de preservação permanente onde, hoje, a mata ciliar tem a chance de se recompor.

E, com rígida fiscalização e orientação, chega a um percentual de 7% de reserva legal (o maior do país). O estado já tem um terço dos 20% de reserva legal de que as propriedades rurais necessitam manter em obediência à lei.

Some-se a isso as RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) que, no Paraná, são quase metade do número existente em todo o Brasil; mais o início da construção dos Corredores de Biodiversidade em área superior a 2 milhões de hectares (12% da área do estado) e teremos o diferencial.

Pode-se argumentar: não houve tempo para que estas ações façam a diferença. É possível. Entretanto, umidade relativa do ar de 13% contra 30% entre estados vizinhos, não pode ser desprezada.

Uma outra coisa é que esta seca (a maior dos últimos 70 anos) pode ser só um fenômeno climático transitório, sazonal. Algo que pertença a assuntos pouco comezinhos tais como a imersão da Terra neste confim de universo. Portanto, desta vez, nada a ver com as ações nefastas dos humanos que orbitam a superfície deste planeta.

Mas, também, pode ser outra coisa. Tal qual a resultante do aquecimento global provocado pela daninha espécie mencionada.

É coisa que aconteceria por si ou resultado da nossa comprovada estupidez?

Se for a primeira hipótese, danou-se! No hay lo que hacer.

Caso seja a segunda, já existem exemplos que provam ser possível a reversão desta curva ascendente da burrice nacional.

Questão de opção.

Enquanto opta-se, um forte abraço e até sexta que vem.

Luiz Eduardo Cheida é Médico. Foi Prefeito de Londrina de 1993 a 1996, Secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e Membro titular do CONAMA até março de 2006