A década do meio ambiente


Al Gore

EUA, junho de 2.000 - Devemos conseguir que os próximos dez anos sejam a Década do Meio Ambiente, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo. Temos apenas uma Terra, e senão a mantivermos saudável e segura, qualquer outro presente que deixarmos para nossos filhos não terá sentido.

Podemos e devemos fazer retroceder a maré da poluição e do aquecimento global. Está cada vez mais claro que a poluição coloca em perigo não apenas nossa qualidade de vida, mas também o próprio tecido da vida em nosso planeta. Ainda existem poderosos apologistas da poluição, que insistem sempre com o argumento de que ela é o preço inevitável que devemos pagar por nossa prosperidade. Isso é falso e, pior ainda, um convite a que se continue com políticas de irresponsabilidade ambiental e com desculpas.

Se fizermos os investimentos corretos, se fizermos as escolhas responsáveis, não teremos de optar entre a economia e o meio ambiente. O meio ambiente nos Estados Unidos hoje está mais limpo do que estava há uma geração. Ao mesmo tempo, entramos no mais longo período de crescimento econômico de toda nossa história.

Passaram-se sete anos desde que, pela primeira vez, nos reunimos com os principais fabricantes de veículos para criar uma Associação para uma Nova Geração de Veículos. Nossa meta era a de trabalhar com os melhores fabricantes para obter veículos três vezes mais eficientes do que os que tínhamos na época, sem sacrificar nem o rendimento, nem a segurança, nem o custo. Podemos, agora, olhar `frente, para uma data dentro de três ou quatro anos, quando serão produzidos em massa automóveis com muito mais eficiência quanto ao emprego de combustível. Também podemos olhar para o dia em que as famílias poderão comprar carros com uma singular nova tecnologia. Seus motores utilizarão água e aumentarão em 4.000% a eficiência em relação ao consumo de combustível.

Esta nova associação persegue uma estratégia contra a poluição que deve passar pela nossa economia, e a de todo mundo, nos próximos anos. Uma estratégia que vê as pessoas como aliadas, não adversárias, quando se deve enfrentar os desafios ambientais. Um enfoque que desenvolve nossa responsabilidade para com os demais, para com o ar, a água e a terra que temos em comum, através das fronteiras e das gerações. Na Década do Meio Ambiente, devemos formar associações com toda indústria que queira produzir caminhões mais eficientes quanto ao consumo de combustível, embora os críticos digam que isso nunca poderá ser feito.

Temos de fazer com que o livre mercado seja um amigo do meio ambiente, não seu inimigo, e investir mais na conservação dos recursos naturais, na energia renovável e nas tecnologias de rápido crescimento que combatem a poluição. Necessitamos fazer com que sejam cumpridas normas rigorosas, realistas e factíveis para reduzir o smog e a fumaça negra, bem como estender o direito a saber o que acontece em toda área onde a poluição de qualquer tipo ameace a saúde pública. Temos de proteger nossas florestas, nossos rios e nossas terras públicas.

Devemos enfrentar os persistentes desafios que se apresentam em matéria ambiental. Devemos continuar com a proibição dos produtos químicos que corróem nossa camada de ozônio e nos expõem aos perigosos e cancerígenos raios ultravioletas. Se enfrentarmos decididamente este desafio, temos a possibilidade de fechar por completo o buraco na camada de ozônio existente sobre a Antártida dentro das próximas duas gerações.

É preciso darmos passos decisivos - não apenas nos Estados Unidos, mas em todos os países - contra o aquecimento global. Embora ainda não exista um consenso neste assunto, creio que Washington tem de ratificar o Protocolo de Kyoto, o que nos comprometeria a realizar significativas reduções nas emissões de gases causadores do efeito estufa. Temos de assegurar que todas as nações desenvolvidas e em desenvolvimento se comprometam a cumprir com a parte que lhes toca. Podemos combater o aquecimento global de um modo que contemple a criação de postos de trabalho, ao fomentar a existência de um mercado global para as novas tecnologias no setor energético, que, se espera, possa alcançar os US$ 10 bilhões nas próximas duas décadas.

Estes desafios não são fáceis. E, para mim, nunca existiram sem controvérsias. Há mais de uma década, quando me propus a escrever um livro sobre ecologia (Eearth in the Balance), percebi que era politicamente tolo manifestar de forma tão clara um compromisso com a proteção ambiental, posto por escrito em forma aberta e sem restrições. Mas, para mim, o compromisso com o meio ambiente sempre foi além do político, é uma profunda obrigação moral.

É necessário que façamos o correto para nosso meio ambiente, porque este compreende tudo o que tem a ver com nossas vidas, desde a simples segurança de que a água que bebemos seja potável até a mais sinistra e ameaçadora redução das camadas de gelo nos extremos da Terra. A Terra está por um fio. Podemos e devemos salvá-la, e isso representa uma grande responsabilidade para nossa geração. Devemos nos colocar já a executar e concluir esta urgente tarefa.