O crescente aumento do número de automóveis está levando as médias e grandes cidades a uma rápida asfixia

A pior asfixia

Artigo do Senador Cristovam Buarque *

Brasília, maio de 2.008 - Todos sabiam que o descuido com a fiscalização levaria à dengue; e todos sabem que a cidade de São Paulo vai parar, daqui 5 a 10 anos, porque todas suas ruas estarão cobertas por automóveis, impedindo cada um de mover-se. As outras grandes cidades têm datas diferentes, mas todas elas serão, em breve, asfixiadas. Até Brasília, planejada para nem sequer precisar sinal de trânsito, é uma cidade engarrafada nos horários de pico.

O mais grave: para criar as condições necessárias para essa dinâmica asfixiante, foi preciso endividar a população, que hoje deve bilhões de reais, dos quais uma parte considerável foi para financiar a compra de carros.

Da mesma forma que há data prevista para a asfixia das ruas, em breve, haverá uma asfixia financeira da nossa população, provocada pelo endividamento. Hoje, são 25 milhões de automóveis, sendo 11 milhões só em 5 cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília.

Todas elas com enormes gastos de infra-estrutura voltados exclusivamente para servir aos automóveis. São dezenas de bilhões de reais gastos para a construção de viadutos, de alargamentos de vias, que poderiam ter sido aplicados em redes de água e esgoto, saneamento básico, escola, saúde. Mesmo assim, não resolvem o problema do trânsito e deixam margem à dengue, à insalubridade, às filas nos hospitais, à violência e a todos os problemas surgidos da falta de investimentos. 

Ao longo de décadas, o Brasil desviou recursos públicos da construção de seu futuro social, para apoiar o fluxo de automóveis e assim apoiar o emprego e a renda que vêm da dinâmica da indústria automobilística. Graças a isso, houve crescimento econômico e asfixia do futuro.

As populações das grandes cidades brasileiras sabem que em breve estarão duplamente asfixiadas: nos engarrafamentos e nas dívidas da compra de carros, mas todos agimos rigorosamente para sermos asfixiados. Como se fossemos atores de um drama, que cumprem seus papéis para que a tragédia ocorra conforme traçada pelo dramaturgo, mesmo quando

todos discordam do final. A insensatez desse rumo é agravada pelo fato de que o combustível fóssil utilizado para mover os veículos se esgotará em alguns anos. A solução está no combustível renovável do etanol. Se algumas precauções não forem tomadas, além das asfixias urbana e financeira, o etanol poderá forçar uma mudança no destino do solo, da produção de alimentos para combustível.

Há terra suficiente para manter as florestas, os mangues, os cerrados e para produzir alimentos e combustível, desde que a escolha do uso da terra não fique definida apenas pelo mercado. Se a produção for orientada só pela demanda, o tanque dos automóveis ganhará do estômago das pessoas. Porque os tanques têm dinheiro; os estômagos, nem sempre.

O problema não está no etanol, mas nas regras usadas: apenas o desejo de cada um, conforme o dinheiro de que dispõe, levará a uma nova asfixia: agrícola-alimentar.

Além das asfixias urbano-territorial e financeiro-familiar, o Brasil pode ser asfixiado também pela demanda por biocombustível, se os tanques do bilhão de automóveis que circulam no mundo forem enchidos com etanol.

Mas se forem definidas regras, combinando o curto prazo do mercado com o longo prazo dos interesses ecológicos e sociais, o biocombustível poderá ser uma grande chance. Como teria sido o automóvel, se algumas regras tivessem sido utilizadas no passado para evitar a maior das asfixias: a da falta de sensatez.

* Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador (PDT-DF)