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Nossas cidades: para escapar à barbárie urbana Washington Novaes * São Paulo, 10 de setembro de 2.008 - Às vésperas de eleições municipais, deveríamos meditar no significado dos números da contagem divulgada há duas semanas, que apontam uma população nacional de 189,6 milhões, quando se acreditava que ela já estaria próxima de 200 milhões. Mais ainda, a contagem mostra que o índice de fecundidade das mulheres já baixou para 1,8 filho, abaixo da taxa de reposição populacional, que é de 2 filhos por mulher (que substituirão mãe e pai, sem aumentar a população), e que se esperava só fosse atingido em meados do século, com uma população em torno de 245 milhões. Isso quer dizer que ultrapassamos o crescimento populacional “explosivo”.
A população só continuará aumentando nas próximas
décadas porque ainda é alto o número de mulheres em idade fértil (por causa das
altas taxas de natalidade nas décadas de 60 a 90 do século passado). A
persistirem as atuais taxas de fecundidade, a população poderá até reduzir-se em
poucas décadas. Os números expostos pelo caderno especial Megacidades (Estado, agosto de 2008) são assustadores, com a megarregião São Paulo-Campinas concentrando em 11.698 km2 (0,27% do território nacional) nada menos que 22 milhões de moradores, 22,1% do PIB brasileiro e 65% do PIB paulista.
Para agravar, pouco mais de um quarto dos paulistanos, 3,2
milhões de pessoas, vive em 1.565 favelas e 1.128 loteamentos irregulares (4/8),
além de 36,5 km2 de áreas de mananciais (500 mil pessoas). Mas se esbarra aí em outra questão, tratada com muita competência pelo sociólogo José de Souza Martins neste jornal (24/8), ao dizer que a utopia urbana é bloqueada “pelas irracionalidades e absurdos que, infiltrando-se pelas eleições, chegam à política e dominam as cidades”. Explica ele: “Pessoas que foram secularmente mantidas à margem dos direitos políticos, e ainda estão à margem dos direitos econômicos e sociais, tiveram um crescimento político mutilado por essa deformação, que, inevitavelmente, se reflete nas eleições por meio da transformação das carências não-políticas em demandas políticas.”
Ou seja, os marginalizados transformam a satisfação de suas
carências econômico-sociais em demanda eleitoral - e, por esse caminho, em
política clientelista por parte dos candidatos. Não se concebem políticas
urbanas adequadas, e sim formatos de atendimento de necessidades específicas
(asfalto, ônibus, escola, postos de saúde) em locais específicos. Não se
consegue conceber macropolíticas que mudem os rumos das grandes cidades.
Embora o Bolsa-Família seja importante, não se pode esperar daí
nenhuma transformação profunda do quadro. Ainda mais sabendo que, pelo outro
lado, prossegue a concentração, com o pagamento de juros absorvendo 15 vezes
mais recursos que o Bolsa-Família. Sem falar em isenções de impostos, perdão de
dívidas, crédito privilegiado, sonegação tolerada, etc., etc.
Ter coragem no
enfrentamento das questões do trânsito: vai-se continuar permitindo, sem nenhuma
outra exigência (como a retirada de veículos muito antigos), o licenciamento de
mil veículos novos a cada dia numa cidade que está parando? Não se estabelecerá
nenhuma exigência quanto ao tipo de veículo e seu volume de emissões de gases,
nem se implantará o programa de aferição de emissões, aprovado há mais de 20
anos? Não se tornarão obrigatórias novas regras para construções, que substituam
e economizem materiais, além de estimular a iluminação e aeração naturais? Não
haverá obrigatoriedade de todo gerador de resíduos pagar pela sua coleta e
destinação?
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