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O declínio da
carne: produtores se debatem para manter a produção e o consumo, insustentáveis
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São Paulo, setembro de 2.007 - Comer uma costela de boi bastante espessa,
regularmente? Este prazer talvez se torne proibido para as gerações futuras, de
tanto que a produção e o consumo de carne vêm fazendo a unanimidade contra eles.
A tal ponto que um número crescente de pessoas, nos países ocidentais, já
decidiu excluí-la de uma vez por todas do seu cardápio.
É extensa a lista dos malefícios gerados pela carne.
Entre eles estão:
os riscos à saúde, uma vez que o seu
consumo excessivo favorece as doenças cardiovasculares, a obesidade ou a
diabete.
Além disso, destaca-se, sobretudo, em nível
mundial, o risco de desenvolvimento das epizootias (doenças virais ou
infecciosas epidêmicas de origem animal) e o perigo que isso representa para a
salvaguarda do planeta.
Com efeito, as produções de origem animal -
carne, ovos, laticínios - são extremamente poluentes.
Os bilhões de toneladas de excreções que
delas se originam engendram resíduos nitrogenados nos solos e nos rios.
Além disso, a pecuária, por si
só, representa 18% das emissões mundiais de gases de efeito-estufa. Ou seja, uma
contribuição para o aquecimento climático que é mais elevada do que aquela dos
transportes.
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NÚMEROS |
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POLUIÇÃO: Na escala
mundial, a criação é responsável por 65% das emissões de hemióxido
de nitrogênio (azoto, essencialmente imputáveis ao esterco),
enquanto o gado engendra 37% das emissões de metano.
CONSUMO: É preciso 4 kg de cereais para produzir 1 kg de
frango, e 6 kg de grãos para 1 kg de porco. Este último necessita,
além disso, de 4.600 litros de água. Esta quantidade aumenta para
13.500 litros para 1 kg de boi, enquanto apenas 1.000 litros de água
são necessários para produzir 1 kg de trigo.
Um outro ponto
negativo desta produção é constituído pelo seu próprio consumo. Os
pastos ocupam 30% das superfícies emersas, enquanto mais de 40% dos
cereais que são colhidos servem para alimentar não diretamente os
homens, e sim o gado.
Uma vez que as áreas
disponíveis são insuficientes para atender à demanda, a criação de
gado pode provocar o desmatamento de florestas. Além disso, a
pecuária é grande consumidora de matéria-prima e de água... |
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Resumindo, a produção animal vem sendo objeto de muitos questionamentos. Tanto
mais que a Terra, daqui até 2050, terá 9 bilhões de bocas para alimentar.
Neste contexto, será o caso de se prever o fim da carne para este século, ou
pelo menos o seu declínio? Muitos são os fatores que conduzem a acreditar nisso.
Contudo, esta projeção é contestada por todos os especialistas em previsões. Ao
contrário, o que se deve prever é um crescimento do consumo mundial. Com efeito,
em todas as épocas, e em todos os países, o aumento da renda sempre foi
acompanhado pela progressão do consumo de carne. E não há razão alguma para que
esta tendência seja diferente nos países emergentes, dos quais virá o
crescimento da população.
Com isso, entre 2007 e 2016, segundo as perspectivas apresentadas em conjunto
pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e a
OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos), a produção
mundial de carne deverá aumentar em 9,7% para o boi, em 18,5% para o porco e em
15,3% para o frango. Principalmente na Índia, na China e no Brasil. Daqui até
2050, a produção de carne poderia até mesmo duplicar, passando de 229 milhões de
toneladas no início dos anos 2000 para 465 milhões. O mesmo ocorre para a
produção de leite. Isso por conta da demografia, é claro, mas também por causa
do aumento das necessidades em função da evolução da população (mais jovem, mais
urbana, mais numerosa) e da modificação do regime alimentar.
"Nos países do Sul, a dificuldade é fazer com que as pessoas possam se
alimentar. Neles, no decorrer dos últimos trinta anos, o consumo de carne
diminuiu drasticamente, principalmente na África, e essa carência de proteínas
animais faz com que as pessoas estejam em estado de desnutrição", lembra Renaud
Lancelot, um encarregado de missão para questões de saúde animal no Centro de
Cooperação Internacional no campo da pesquisa agronômica para o Desenvolvimento
(Cirad).
Bruno Parmentier, que é o diretor de uma escola de engenharia em agricultura,
estima por sua vez que a evolução do consumo de produtos de origem animal
depende de três grandes questões, que mostram o vínculo estreito que existe
entre o consumo de carne e as práticas culturais.
Será que a religião hindu, da
mesma forma que a religião católica, vai entrar em declínio, e, neste caso, será
que a Índia vai passar a consumir muita carne?
Será que os chineses vão começar
a tomar leite, caso lhes for oferecido um produto que eles consigam digerir?
Será que os ocidentais vão continuar a comer carne de porco, no caso de este
animal se tornar uma matriz para os transplantes de órgãos?
Em todo caso, uma nova distribuição geográfica do consumo deverá acabar se
implantando. Esta consistirá num duplo movimento de balança. Haverá uma
diminuição da dieta em carnes nos países ricos, onde elas são consumidas em
excesso, e um aumento nos países pobres, onde existe uma carência. Isso serviria
para diminuir em parte a disparidade atual. Enquanto são consumidos no mundo,
segundo um estudo que foi publicado pela revista médica britânica "The Lancet"
(com data de 13 de setembro), 100 gramas de carne por dia e por pessoa, esta
taxa média alcança de 200 a 250 gramas nos países desenvolvidos, e bate num teto
situado entre 20 e 25 gramas nos países pobres.
"Se considerarmos que a população global vai aumentar em 40% daqui até 2050; e
se não ocorrer nenhuma redução das emissões de gases de efeito-estufa vinculada
à pecuária, o consumo de carne deverá diminuir até se estabilizar em 90 gramas
por dia e por pessoa para que as emissões geradas por este setor possam se
estabilizar", afirmam no artigo da revista "The Lancet" os autores do estudo.
Seria preciso, portanto, incentivar desde já os consumidores dos países ricos a
se conscientizarem dos estragos que o seu consumo abusivo acarreta. Além disso,
seria necessário encontrar meios, em nível mundial, não para produzir menos, e
sim para produzir de modos diferentes, com o objetivo de reduzir os efeitos
negativos da pecuária sobre o meio-ambiente.
Como fazer, então, para acatar as recomendações da FAO, segundo a qual os custos
ambientais por unidade de produção animal deveriam "ser reduzidos pela metade,
nem que seja apenas para evitar agravar o nível dos estragos causados"?
Será que o jeito seria incluir,
conforme sugere o encarregado desta organização para as questões animais,
Grégoire Tallard, "o custo ambiental no preço das carnes", conforme o princípio
segundo o qual é o poluidor quem deve pagar pela poluição que ele gera?
Ou será que se deveria
privilegiar o consumo de aves, cuja produção é ecologicamente menos agressiva do
que outras?
A FAO preconiza também o
aprimoramento das práticas de criação. Uma das evoluções mais aguardadas diz
respeito ao seqüenciamento dos genomas completos das principais espécies
(pesquisas estas que se encontram na sua maioria, em fase de elaboração), que
deveria permitir acelerar os processos de seleção e fazer coincidirem, por
exemplo, rusticidade (e, portanto, a resistência às doenças) e produtividade.
Além do mais, as pesquisas concentram-se na elaboração de rações alimentícias
para o gado, que sejam mais econômicas, ou ainda no controle do sistema
digestivo dos ruminantes. Neste sentido, a fermentação entérica dos bovinos
(produtora de metano, o qual age numa proporção 23 vezes superior à do CO2 sobre
o aquecimento climático) poderia ser mais bem dominada. Por exemplo, por meio da
utilização de aditivos alimentícios à base de óleo vegetal. Ou ainda, por meio
de uma ração dotada de uma maior concentração de cereais.
"Nós conduzimos um experimento com jovens bezerros, por meio do qual conseguimos
fazer com que eles cresçam mais depressa, o que permitiu reduzir as emissões de
metano", explica Jacques Agabriel, um zootécnico no INRA (Instituto Nacional da
Pesquisa Agronômica) de Clermont-Ferrand. Mas, uma vez que a produção animal é
um sistema complexo, aquilo que confere de um lado uma vantagem ecológica
provoca de outro um inconveniente econômico (um maior consumo de cereais).
Daí a necessidade, no contexto da busca de um sistema de criação duradouro, de
se orientar rumo a uma abordagem global. No INRA, um grupo de reflexão sobre a
importância dos produtos animais na alimentação, que reúne sociólogos,
zootécnicos, economistas, nutricionistas e agrônomos, já está trabalhando com
esta meta.
Enquanto se falava, dez anos atrás, de uma redução da intensidade dos sistemas
de produção, este conceito foi substituído por outro: aquele de uma agricultura
ecologicamente intensiva. A questão da carne constitui um excelente exemplo
desta busca.
Fonte: FolhaUol do Le Monde - tradução de
Jean-Yves de
Neufville