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Carvoarias, PCHS, pólo siderúrgico: contra-sensos no PantanalO desenvolvimento do Pantanal deve ser embasado em pesquisas científicas e acompanhado de discussão com a sociedade, aconselha a bióloga Débora Calheiros
Por: Patrícia Fachinfevereiro de 2.012 - Preocupo-me com as nascentes e com a conservação dos corpos d’água dos rios, principalmente, daqueles que formam o Pantanal. Nas áreas de nascente, de planalto e de recarga dos aqüíferos, que ficam exatamente entre a Bacia do Alto Paraguai e a Bacia do Paraná, o desmatamento e o uso intensivo do solo estão elevados”. A ponderação é feita pela bióloga Débora Calheiros, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Segundo a pesquisadora, a degradação do planalto ocorre em função do uso agropecuário intensivo, que já resulta em 60 a 80% do desmatamento na parte alta do Pantanal. O desmatamento na planície também está aumentando e é ocasionado
pela produção de carvão para as siderúrgicas que já existem no Pantanal, no Mato
Grosso do Sul, em São Paulo e Minas Gerais. “O carvão de mata nativa é o mais
barato que existe, por isso, o cerrado do Mato Grosso do Sul está sendo
desmatado para produção de carvão”, aponta. IHU On-Line - Qual é a atual situação ambiental das bacias
hidrográficas do Pantanal? Preocupo-me com as nascentes e com a conservação dos corpos d’água dos rios, principalmente, daqueles que formam o Pantanal. Nas áreas de nascente, de planalto e de recarga dos aquíferos, que ficam exatamente entre a Bacia do Alto Paraguai e a Bacia do Paraná, o desmatamento e o uso intensivo do solo estão elevados. Isso quer dizer que a mata ciliar, as encostas e as nascentes estão sendo utilizadas sem respeitar o Código Florestal e as boas práticas agrícolas. IHU On-Line - Quais os impactos da alteração ambiental do planalto
pantaneiro? Como eles se refletem nos rios do ecossistema? IHU On-Line – Que diagnóstico faz da atual situação dos rios do
Pantanal? Quais deles já sofreram impactos ambientais? Outra demanda preocupante é o proliferamento das hidrelétricas e Pequenas Centrais Hidroelétricas - PCHs sem nenhum controle porque as PCHs seguem um modelo de licenciamento municipal. Esses empreendimentos são altamente rentáveis economicamente, mas, sem uma avaliação conjunta de todas as obras que estão sendo previstas e implantadas na região, temos a preocupação de que esses projetos afetem a dinâmica do ciclo de cada rio, além da hidrodinânica do sistema Pantanal como um todo. Precisamos ter uma avaliação ambiental integrada dos impactos conjuntos de todos esses empreendimentos. O Ministério Público Federal está apoiando esse questionamento juntamente com o Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Além do mais, o Comitê Nacional de Zonas Úmidas já elaborou uma resolução sobre essa questão, pois estão preocupados com a forma com que está acontecendo feito o uso dos recursos naturais na Bacia do Alto Paraguai. O principal fenômeno que rege o Pantanal são os pulsos de inundações, ou seja, os ciclos de cheias e secas anuais e plurianuais. Se mudar o pulso de inundação, muda também o funcionamento ecológico biogeoquímico do sistema e, por conseguinte, se tem efeitos na biodiversidade como, por exemplo, na produção pesqueira. O pessoal do setor elétrico argumenta que as PCHs não causam impactos e geram energia limpa. Em termos de produção de CO2, podemos dizer que é uma energia limpa. Mas, em termos de conservação de uma ambiente aquático, ela é trágica: as hidrelétricas são um problema para a conservação de qualidade da água e de produção e diversidade de peixes. O professor Ângelo Agustinho mostrou, em um estudo, que a instalação de hidroelétricas na Bacia do Paraná gerou uma diminuição das espécies de peixes, além da diminuição do tamanho das espécies remanescentes. Ademais, há um problema social envolvido nessa questão, uma vez que diversas famílias de pescadores dependem dessas qualidades de peixe. As PCHs e as hidrelétricas são uma barreira para a migração dos peixes migratórios e para os nutrientes que fluem pelos rios. Quando se põe uma barreira, se impede o fluxo natural e se modifica o ambiente: assim, não se tem mais um ambiente de rio e, sim, de lago. Pessoas favoráveis às barragens dizem que as PCHs não precisam de um lago muito grande. Entretanto, a própria existência da barragem, que pode atingir de 10 a 40 metros, representa uma barreira que impede o fluxo de nutrientes. Isso é preocupante numa planície de inundação que depende do ciclo natural das águas
IHU On-Line - Quantas
hidrelétricas existem no Pantanal? Elas interferem no pulso de inundações da
região?
Na região já existem duas siderúrgicas: uma é mais antiga e outra foi instalada em 2007. Os governos estadual e municipal querem implantar uma zona de processamento de exportação para agregar valor ao minério no processamento até o aço e não exportá-lo de forma bruta. No projeto anterior à crise econômica, a idéia era instalar 14 ou 15 indústrias na região e, no lado boliviano, também há perspectiva de instalar um pólo siderúrgico. Depois da crise, essa perspectiva diminuiu. A Rio Tinto , por exemplo, uma grande mineradora que estava instalada no Pantanal, foi vendida para a Vale do Rio Doce . Então, o cenário econômico prolongou a instalação dessas indústrias no Pantanal, mas a política governamental na região ainda continua sendo de estímulo ao pólo. IHU On-Line - 40% do carvão produzido no país é originário do Mato
Grosso do Sul, de matas de cerrado nativo. Quais os efeitos das carvoarias para
a região pantaneira? IHU On-Line – A construção de hidrovias no Pantanal ainda está em
discussão? A união de bacias é um problema seríssimo tanto ambiental como econômico porque há troca de espécies entre elas e isso é um erro ecológico absurdo. Desde a década de 1960, os cientistas sabem que não é possível fazer uma conexão entre as bacias porque elas são isoladas e em cada uma há espécies de peixes diferenciadas. Quando ocorre a conexão, há um desequilíbrio ecológico muito grande, pois ocorre uma mudança na hidrodinâmica do rio. Então, pergunto: Temos de adaptar o rio às embarcações ou elas ao rio? Utilizar o rio Paraguai como uma via navegável é necessário econômica e socialmente, mas a questão é não mudar a hidrodinâmica do rio. A região é muito rica em minério de ferro e manganês, por isso querem instalar o pólo minero-siderúrgico e as hidrovias. Na década de 1990, foi feito um estudo sobre a hidrovia Paraguai–Paraná, desde Cárceres até Buenos Aires, na Argentina. Essa pesquisa foi barrada por Fernando Henrique Cardoso, em 1996, principalmente no trecho de Corumbá a Cárceres, onde o rio se torna estreito, tem muitas curvas e a navegação é difícil. Na época, foi proibida a construção de portos pela inexistência de um estudo sobre o impacto conjunto dessas intervenções. O Ministério dos Transportes está, novamente, levantando essa questão com a idéia de unir as bacias Amazônica e do Alto Paraguai. Também existe um projeto de unir a Bacia do Orinoco, na Venezuela, com a Bacia Amazônica e a Bacia do Alto Paraguai; essa seria uma forma de integrar a América do Sul desde a Venezuela até a Argentina. Temos que discutir essas questões sob uma forma embasada na ciência juntamente com a população local, como manda a Constituição, a Lei de Recursos Hídricos e a Agenda 21 para chegarmos num modelo de desenvolvimento que seja mais sustentável.
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