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Cerrado, o
avanço da devastação
Área desmatada no bioma
deve aumentar de cerca de 800 mil km2 para 960 mil km2 em 4 décadas

São Paulo, outubro de 2.009 -
O
Ministério do Meio Ambiente e o Ibama admitiram que já
foi destruída quase metade da área do bioma brasileiro.
Uma extensão de quase 1 milhão de quilômetros quadrados
de mata foi posta abaixo para fazer o carvão que
abastece siderúrgicas, para cultura da soja ou para a
pecuária.
O desmatamento atinge uma área próxima dos 120.000 km² —
maior, por exemplo, do que o estado do Paraná com
199.314 km². A aparente aridez do cerrado “camufla”
nossos recursos hídricos. O cerrado é a
caixa d’água do Brasil: ali estão as nascentes dos
principais rios das bacias Amazônica, da Prata e do São
Francisco. Além destas três bacias
hidrográficas, por debaixo do solo de vários Estados do
cerrado está o Aquífero Guarani.
Há uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que
solicita o reconhecimento do Cerrado, junto com a
Caatinga, como patrimônio nacional. A PEC tramita há 14
anos no Congresso Nacional.
O desmatamento no cerrado do País terá
aumentado 14% até 2050, o que deve reduzir a área preservada para cerca de 1
milhão de km2. Os dados são de um estudo da Universidade Federal de Goiás (UFG)
que prevê redução de 40 mil km2 do bioma por década, se for mantido o ritmo
atual de avanço da fronteira agrícola e pecuária.
As áreas já devastadas deverão subir dos 800 mil km2 de 2002 para 960 mil km2
daqui a quatro décadas. Esse aumento representa a metade do Estado de Goiás ou
dez vezes a área do Distrito Federal. Até 2020, cerca de 60 mil km2 poderão ser
incorporados ao sistema agrícola da região. Os cálculos, feitos pelo professor
da UFG Manuel Eduardo Ferreira, com base em imagens de satélites, sinalizam para
uma expansão da fronteira agrícola no cerrado em direção às regiões Norte e
Nordeste do País, sobretudo Bahia, Piauí e Maranhão, onde é crescente o plantio
de soja.
Isso trará conseqüências socioeconômicas e ambientais, como maior
comprometimento das bacias hidrográficas de todo o bioma, com prejuízos diretos
para os recursos hídricos, solo e biodiversidade da região. O cerrado se espalha
por dez Estados e o Distrito Federal. É o segundo maior bioma dos seis
existentes no País, perdendo para a Amazônia. É também considerado uma das
savanas mais ricas do mundo por causa do contato biológico com biomas vizinhos.
Em áreas de cerrado estão nascentes de importantes rios da bacia Amazônica, do
Prata e do São Francisco.
Ferreira atua no Laboratório de Processamento de Imagem e Geoprocessamento (Lapig)
do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, principal organismo a estudar o
cerrado no País. O Lapig é credenciado pelo Ministério do Meio Ambiente e
trabalha com imagens de satélites, o que o MMA não faz - o controle por satélite
é somente para a Amazônia. O estudo foi realizado em conjunto com a Universidade
Federal de Minas Gerais - Departamento de Cartografia, Centro de Sensoriamento
Remoto.
Mudança na ocupação
Segundo o professor, as terras com cobertura vegetal mais densa, de fisionomia
florestal - cerradão e mata seca -, mesmo em menor quantidade, foram
originalmente (e continuam sendo) as mais procuradas por agricultores, por
oferecerem um maior suporte nutricional aos plantios.
"Entretanto, nas últimas décadas a fertilidade vem deixando de ser um fator
limitante à ocupação do cerrado por causa da incorporação de novas técnicas de
plantio e adubação", escreve Ferreira. Nos atuais alertas de desmatamento
(período 2003 a 2007) há uma concentração em áreas de "baixa" ou "muito baixa"
fertilidade (56% e 42%, respectivamente), indicando uma menor dependência em
relação às áreas consideradas de terra boa.
"A ocupação do cerrado parece estar vinculada também às condições climáticas da
região, demonstrando a relevância da média mensal anual de precipitação como uma
variável importante neste processo", diz o professor. Como hoje foram
desenvolvidas modernas técnicas de irrigação, é possível que a ocupação não se
dê mais como no início, em que se buscava a precipitação pluviométrica.
Provavelmente, com o avançado estágio de conversão do bioma, somado ao uso de
técnicas apropriadas de irrigação, essa dependência à precipitação seja cada vez
menor, em comparação com o início da década de 1970 - momento da expansão
inicial da fronteira agrícola no Centro-Oeste brasileiro.
Entre as variáveis causadas pelo homem com a transformação da vegetação
original, a infraestrutura rodoviária oferece uma grande atratividade para o
desflorestamento, conclui o estudo. "Sobretudo nas áreas de extração madeireira
e produção de carvão vegetal (casos da Amazônia e do cerrado) ou para a
agricultura de larga escala (caso do cerrado). Tal fato se deve, naturalmente,
pela necessidade de escoamento da produção, influenciando o surgimento e
desenvolvimento de outras atividades, como urbanização e rotas de comércio e
indústrias." Os estudos apontam também para notícias boas para os
ambientalistas.
Ao contrário da segunda metade do século 20 (principalmente nas décadas de 1970
e 1980), ainda com uma elevada taxa anual de conversão do cerrado (1%),
espera-se para as próximas décadas do século 21 uma taxa de conversão cada vez
menor, em torno de 0,4% ao ano. Isso se deve a fatores como redução gradativa
das áreas de interesse para a agricultura e pastagem, oscilação da economia,
intensificação do uso da terra em áreas já convertidas, aumento da fiscalização
ambiental e criação de áreas de conservação.
Fonte: Estadão
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