O cigarro
e seu poder oxidante
São
Paulo, maio de 2.010 - A exposição à fumaça de cigarros – que é um fator
importante para o desenvolvimento de doença pulmonar obstrutiva crônica –
aumenta o nível de oxidantes nos pulmões, levando ao estresse oxidativo e à
destruição do tecido dos alvéolos.
Um novo estudo, realizado por cientistas
norte-americanos, indicou que a supressão de um gene pode atenuar o dano
pulmonar induzido pelo hábito de fumar.
De
acordo com um dos autores, Rubin Tuder, professor da Universidade do Colorado em
Denver, a pesquisa, publicada na edição de maio da revista American journal of
respiratory cell and molecular biology, representa uma importante abordagem
genética contra a lesão pulmonar induzida por oxidantes.
Tuder,
que é especialista em patobiologia e patologia de doenças pulmonares, apresentou
os resultados da nova pesquisa durante a 1st São Paulo School of Translational
Science (1ª Escola São Paulo de Ciência Translacional), da qual participou nas
duas últimas semanas de abril. O curso, primeiro organizado no âmbito da Escola
São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), nova modalidade de fomento da FAPESP, foi
realizado pelo Hospital A.C. Camargo.
Segundo
Tuder, em resposta à fumaça de cigarro, as células epiteliais do pulmão
compensam os altos níveis de oxidantes ativando vias de Nrf-2 – uma proteína que
aumenta os níveis endógenos de antioxidantes das células –, elevando a expressão
de enzimas desintoxicantes e antioxidantes, protegendo os pulmões das lesões.
“Levantamos a hipótese de que estimulando as vias ativadas por Nrf-2, poderíamos
conseguir proteção contra o dano pulmonar induzido pelo cigarro. Para isso,
desenvolvemos um modelo animal no qual o gene inibidor de Nrf-2, Keap-1, é
suprimido das células epiteliais das vias respiratórias de camundongos”, disse à
Agência FAPESP.
O
resultado da supressão do gene foi um aumento da expressão de Nrf-2, protegendo
as células contra o estresse oxidativo causado pela fumaça de cigarro in vivo.
“Os resultados poderão ser importantes para a busca de novas drogas e terapias
para os danos causados pelo cigarro”, afirmou.
Segundo
ele, nos Estados Unidos a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é a quarta
maior causa de mortalidade, sendo responsável por cerca de 120 mil das 400 mil
mortes causadas anualmente pelo cigarro. A DPOC atinge preferencialmente
indivíduos com mais de 65 anos.
De
acordo com Tuder, esse dado é a base de uma das linhas de pesquisa tratadas em
seu laboratório: a relação entre o processo de envelhecimento e o enfisema
pulmonar – que, juntamente com a bronquite crônica, é uma das principais
manifestações da DPOC.
“Sabemos que, teoricamente, todos os seres humanos que venham a viver além dos
105 anos de idade irão eventualmente desenvolver a DPOC – seja com limitação
pulmonar ou enfisema senil. Estamos confirmando, passo a passo, que o dano
celular causado pelo envelhecimento e pelo cigarro envolvem mecanismos
patogênicos inter-relacionados. Queremos entender melhor esses mecanismos a fim
de definir grupos de risco e fornecer potenciais plataformas para novas
terapias”, explicou.
Tuder
afirma, no entanto, que os danos causados pela exposição à fumaça de cigarro não
se limitam a causar câncer e DPOC. De acordo com ele, estudos mostram que, nos
indivíduos adultos, quando o pulmão é lesionado cronicamente pelo cigarro, a
capacidade de resposta do pulmão contra fatores infecciosos diminui. “A fumaça
de cigarro induz alterações na resposta imune inata às infecções virais e essas
mudanças agravam a destruição alveolar característica do enfisema”, disse.
O
cientista acrescenta que alguns vírus se instalam permanentemente no pulmão em
estado de latência, não podendo ser eliminados. “Existem dados que mostram que
alguns desses vírus, como o adenovírus, por ser persistente, podem fazer com que
o processo inflamatório obstrutivo se perpetue”, disse.
Dados
epidemiológicos consistentes mostram ainda que, em crianças expostas ao fumo em
casa, a predisposição a doenças aumenta. Já se sabia, de acordo com Tuder, que
durante a vida uterina o cigarro afeta a criança irremediavelmente, prejudicando
o seu crescimento, uma vez que a fumaça afeta a sinalização relacionada com o
fator de crescimento endotelial, entre outros problemas.
“Mas,
agora, sabemos também que mesmo depois do nascimento existem danos, como a maior
predisposição à infecção viral e à asma. O pulmão dessas crianças fica
permanentemente avariado e nunca volta a ser totalmente normal. Se começarem a
fumar ou tiverem uma infecção na vida adulta, terão provavelmente um risco maior
de desenvolver doenças como asma”, afirmou.
Outro
efeito conhecido do cigarro é o desencadeamento da mutagênese que causa o
câncer. Segundo o cientista norte-americano, no entanto, nem todos os fumantes
têm risco aumentado de desenvolvimento de câncer.
“Não
sabemos ainda como identificar esses indivíduos que têm risco aumentado, nem
sabemos por que razão alguns são atingidos e outros não. Também não sabemos
quais os fatores anteriores para que os indivíduos desenvolvam a doença. Mas as
pesquisas se encaminham para isso”, disse.
O
artigo Deletion of Keap1 in the Lung Attenuates Acute Cigarette Smoke–Induced
Oxidative Stress and Inflammation, de David Blake e outros, pode ser lido por
assinantes da American journal of respiratory cell and molecular biology em
Fonte:
Agência FAPESP
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