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Parlamentares
aprovam em tempo recorde e na surdina, artigo que revoga aplicação do código
florestal em áreas urbanas
O Ministério do Meio Ambiente, entidades ambientalistas, o Secretário do Meio Ambiente de São Paulo, José Goldemberg, juristas e ONGs, todos se unem contra o projeto, considerado ambientalmente desastroso e inconstitucional.
Brasília
- 23/07/04 -Entidades
ambientalistas e o próprio Ministério do Meio Ambiente (MMA) mobilizaram-se
nesta semana para tentar reverter a decisão do Congresso Nacional, que acabou
revogando a aplicação do Código Florestal em áreas urbanas. A medida põe em
risco, segundo especialistas, importantes áreas de remanescentes de Mata Atlântica
e vegetações de zonas costeiras, que dividem espaço com bairros e cidades.
A decisão
do Congresso pegou de surpresa as organizações não-governamentais e o MMA. A
medida está num projeto de lei que trata de incorporações e crédito imobiliário
(PL 2109 de 1999), aprovado de forma muito rápida pela Câmara, no dia 7 de
julho, e pelo Senado, no dia seguinte. Agora, o projeto segue para sanção
presidencial e o MMA tentará conseguir o veto ao Artigo 64, que revoga a aplicação
do Código Florestal nas cidades.
Um parecer
do Ministério do Meio Ambiente foi enviado na quinta-feira à Presidência da
República alertando para o artigo e recomendando seu veto pelo presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
"O Código
Florestal não trata apenas da proteção de florestas e matas, mas também
auxilia na manutenção da qualidade ambiental e de vida da população
brasileira em meio urbano", argumentou no parecer o secretário de
Biodiversidade e Florestas do MMA, João Paulo Capobianco. "Solicitamos o
veto devido às implicações ecológicas, econômicas, jurídicas e sociais que
teria para todo o País."
O Artigo 64
do PL diz: "Na produção imobiliária, seja por incorporação ou
parcelamento do solo, em áreas urbanas e de expansão urbana, não se aplicam
os dispositivos da Lei 4771, de 15 de setembro de 1965 [Código
Florestal]".
Segundo o
Instituto Sócioambienta (ISA), isso significa que “locais como restingas,
encostas, brejos e falésias, lagunas, manguezais e margens de rios, relevantes
para a integridade de processos ecológicos e para a manutenção do bem estar
humano, poderão deixar de ser considerados Áreas de Preservação
Permanente”. O instituto afirma que os parlamentares “escamotearam” o
artigo no projeto e o aprovaram “em tempo recorde, sem qualquer debate sobre
sua repercussão”.
O secretário
do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, José Goldemberg, mandou carta ao
ministro da Casa Civil, José Dirceu, reforçando o pedido de veto à decisão
do Congresso, que "acarreta gravíssimas consequências, especialmente no
que diz respeito à proteção de mananciais de abastecimento público em regiões
metropolitanas, particularmente na Região Metropolitana de São Paulo”.
Para
Walmor Alves Moreira, procurador da República do Ministério Público Federal
de Santa Catarina, a lei é inconstitucional. “A constituição determina, em
seu artigo 225, a proteção do meio ambiente e qualquer lei que venha a causar
desequilíbrio à qualidade de vida é inconstitucional. O meio ambiente é
considerado um direito fundamental e o legislador não pode aprovar emenda que
promova a destruição ou o desequilíbrio do Meio Ambiente em hipótese
alguma”, explicou o procurador. “Esperamos que a lei não seja assinada pelo
presidente, que jurou a constituição”. A iniciativa do projeto de lei foi do Dep. Federal Ricardo Izar, de São Paulo, que defende interesses imobiliários e de mineradoras de areia na região do Vale do Paraíba, em SP, que agora se junta à bancada ruralista e se torna um dos ícones dos defensores da devastação ambiental, que retrogadamente é mascarada de "desenvolvimentismo urbano", tão ao gosto dos empreendedores imobiliários que não tem visão e conhecimento do que é verdadeiramente desenvolvimento sustentável. Campanha deflagrada pelo Instituto Socioambiental (ISA), Greenpeace e pelo SOS Mata Atlântica está mobilizando milhares de internautas e centenas de entidades ambientalistas em todo o Brasil, com ampla repercussão na grande imprensa, que certamente irá se multiplicar por todos os setores representativos da sociedade civil brasileira.
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