Comunidades locais estruturam fórum próprio
na COP-8
Curitiba,
março de 2.006 - Na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre
Diversidade Biológica (COP-8) está ocorrendo a estruturação do Fórum de
Comunidades Locais. Em (27/03) pela manhã assessoras da Cooperativa Ecológica de
Mulheres Extrativistas de Marajó (Cemem), que encabeçam a iniciativa, estavam
divulgando o endereço virtual da recém-criada lista de debates do fórum.
"Nós sempre fomos caracterizados como indígenas, dentro da Convenção sobre
Diversidade Biológica (CDB). Não tínhamos uma representação própria", contou a
assessora técnica Thaissa Oliveira Pinheiro. "O resultado disso é que na hora
que as recomendações eram concretizadas em políticas, sempre se traduziam em
ações voltadas apenas para os povos indígenas".
A iniciativa de criar o fórum veio da brasileira Edna Marajoara, diretora do
Cemem. A idéia foi lançada em fevereiro deste ano em Granada, na Espanha, quando
ocorreu a última reunião do Grupo de Trabalho Permanente sobre Acesso a Recursos
Genéticos e a Benefícios Compartilhados. "O movimento de mulheres campesinas da
Europa já aderiu ao projeto. Mas ainda estamos iniciando nossas articulações",
revelou Pinheiro.
Comunidades locais – muitas vezes chamadas também de tradicionais – são os
grupos não-indígenas que também têm sistemas coletivos de uso e apropriação do
território, de construção do saber como patrimônio (não como propriedade
individual). São os extrativistas, os quilombolas, os ribeirinhos.
No sábado (25), no chamado Dia Brasil, Edna Marajoara fez uma intervenção nos
debates, falando em nome do Fórum de Comunidades Locais. Ela questionou o
resultado concreto da COP-8 para as comunidades locais e pressionou o governo
federal para que enviasse o quanto antes ao Congresso o projeto de lei que
regula o acesso a recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais
associados.
"O Cemem tem 200 cooperadas, que extraem o óleo de andiroba usando uma técnica
centenária e sofrem muito com a biopirataria e com a falta de políticas
específicas", revelou Pinheiro. A primeira dificuldade que as andirobeiras da
ilha do Marajó enfrentam é que só podem coletar a amêndoa da andiroba que cai no
rio – como as terras da ilha são propriedade particular ou patrimônio da União,
Pinheiro contou que a retirada das amêndoas diretamente da árvores está
proibida.
"O processo de trabalho é lento, manual. Durante 15 dias, a polpa da andiroba
fica descansando na sombra, embrulhada em folha de bananeira. Depois, é colocada
em uma espécie de funil de madeira, para escorrer o óleo. Cada litro é vendido a
R$ 10 ou R$ 15, diretemente para o consumidor final", relatou Pinheiro.
"O óleo que sai daí é um cosmético mas é também remédio, serve como
cicatrizante. As empresas já utilizam um sistema de prensagem, que reduz as
propriedades medicinais do óleo. Elas compram a polpa da amêndoa diretamente dos
fazendeiros – e não pagam muito pouco por isso".
A COP é o órgão deliberativo da CDB, que se reúne a cada dois anos. Em Curitiba,
há 3.600 delegados de 173 países.
