Consulta
pública expõe contradições em torno do Plano Amazônia Sustentável
Manaus, 21 de junho
de 2.006 - Mais de 250 pessoas participam hoje (21) de uma consulta pública para
discutir propostas de diretrizes gerais para o desenvolvimento da região Norte,
em Manaus. Em mãos, elas têm o Plano Amazônia Sustentável (PAS), uma espécie de
carta de intenções elaborada pelo governo federal – e criticada por setores que
o consideram um documento vago.
"Faltam programas e projetos definidos dentro do plano", afirma o secretário
estadual de planejamento do Amazonas, Ozias Monteiro. Segundo ele, o PAS prevê
poucas iniciativas em relação a geração de emprego e renda. "As pessoas só ficam
no interior se tiverem como sobreviver. E as atuais iniciativas de manejo e
extrativismo ainda são muito incipientes, do ponto de vista econômico".
Na mesma linha, o presidente da Federação Estadual de Povos Indígenas (Fepi),
Amarildo Machado, reclama que os índios "não querem mais ser apenas guardiães da
floresta e da natureza".
"O PAS (de fato) não tem ações e orçamentos. O que ele traz é uma nova concepção
de planejamento", defende o secretário de políticas de desenvolvimento regional
do Ministério da Integração Nacional, Maurício Rodrigues. "Sua implementação
estará baseada nos esforços regionais, na criação de pactos e consensos".
A secretária de coordenação amazônica do Ministério do Meio Ambiente, Muriel
Saragoussi, explica que o plano serve para "balizar os planos de ação que vêm em
seguida". Para o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, o PAS estabelece
princípios para orientar os governos e a iniciativa privada.
O diretor geral da Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA), Djalma Melo,
também acha importante ter em mente que não se trata de um plano de ação. Mas
defende que pode servir de instrumento para adequar as políticas federais à
realidade da região. "O FNA [Fundo Constitucional da Amazônia], por
exemplo, foi criado em 2001 e regulamentado em 2002. É um recurso de R$ 1
bilhão, que só pode ser usado por empresas de capital aberto [com ações em
bolsa]. Ficam de fora as empresas menores, as cooperativas e as
associações".
"Um ponto positivo do documento é reforçar a importância da criação de áreas de
uso comum [como as reservas extrativistas e as florestas nacionais]",
pondera o presidente do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS), Manuel Cunha.
"Mas é preciso enfocar melhor a regularização fundiária. As comunidades
ribeirinhas estão perdendo suas terras para os grileiros".
A secretária municipal de meio ambiente de Manaus, Luciana Valente, ironiza os
críticos. "Lamento que as pessoas ainda vejam contradição entre desenvolvimento
e meio ambiente. O desenvolvimento só existe quando incorpora a componente
ambiental. Estradas e hidrelétricas não são problema, desde que tenham a
preocupação ambiental na sua raiz".
O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam),
Raimar Aguiar, critica os ambientalistas. "O Amazonas consome 1,2 mil megawatts
de energia, dos quais 200 são gerados pela usina hidrelétrica de Balbina e mil
vêm de termoelétricas que usam derivados de petróleo. A energia nuclear está
descartada, a solar é inviável para grandes escalas. E quando falamos em usar
melhor o potencial energético dos rios, os ambientalistas são contra. O
resultado é uma contradição: continuamos a queimar petróleo, algo mais caro e
sujo".
Outras oito capitais da região amazônica já discutiram o PAS. A nona e última
consulta pública será a de Rio Branco, na sexta-feira (23). De acordo com
Saragoussi, do Ministério do Meio Ambiente, o documento deve ser lançado
oficialmente até novembro.
Fonte: Thaís
Brianezi, Repórter da Agência Brasil
