"O dia depois de amanhã"

Filme sobre mudança climática tem informações técnicas equivocadas, mas é muito útil como alerta às massas, dizem cientistas

São Paulo, maio de 2.004 - Com apenas um filme, o cinema de Hollywood está conseguindo transmitir a milhões que as mudanças climáticas não são "ficção científica", mas realidade com conseqüências que poderão ser imprevisíveis (e terríveis) para a humanidade.

O filme de catástrofe "O Dia Depois de Amanhã" ignora as leis da física e é repleto de referências científicas equivocadas, segundo a opinião de especialistas britânicos, porém todos acreditam que o filme é uma forma positiva de chamar a atenção para o problema das mudanças climáticas. 

O ex-Vice-Presidente americano Al Gore, ambientalista convicto, afirmou que os riscos que o filme apresenta são uma ameaça real para o futuro de todos nós. 

O maior conselheiro científico do governo britânico, David King, tem esperança que milhões de americanos vejam o filme e formem consciência do grave problema. 


Equívocos técnicos 

David King descreveu o "O Dia Depois de Amanhã" como um "filme de ação espetacular" que mostra a interrupção da corrente do Golfo e, como conseqüência, o hemisfério norte entra em uma nova era glacial. 

Os cientistas concordam que a mudança climática pode enfraquecer a circulação térmica, o fenômeno que impulsiona a corrente do Golfo, mas não esperam que ela cause uma interrupção completa como no filme. 

King disse que a atual concentração global de dióxido de carbono na atmosfera, de 379 partes por milhão, é a maior dos últimos 420 mil anos, sendo "significativamente mais alta" do que em períodos quentes anteriores. 

Isso não significa que a circulação térmica, que eleva a temperatura de parte da Europa em 5ºC, cessaria por completo. Pelo menos não tão rapidamente quanto foi mostrado no filme.

O filme "mostra os eventos acontecendo em um período de poucas semanas. Se isso acontecer, vai levar décadas ou séculos", disse o cientista. "O filme mostra os desenvolvimentos acontecendo em uma velocidade improvável, ou mesmo impossível." 

Mas ele diz que, enquanto uma explicação científica sobre mudanças climáticas levaria muito tempo para ser dada, "o filme transmite a mensagem em poucas linhas de diálogo. É um belíssimo exemplo de roteiro". 

"Espero que o público americano veja o filme. É muito importante que tomemos consciência do que a ciência está dizendo, e isso inclui os políticos americanos." 


Informação 

King lembrou que 21 mil pessoas morreram a mais durante a onda de calor que envolveu a Europa em 2003 -- atribuída à mudança climática --, mas essa conexão foi feita pelas pessoas muito bem informadas, o que não é o caso do grande público.

O cientista disse que "existe um problema ao dramatizar esse tipo de evento porque, mesmo quando eles acontecem na vida real, parece que nós não os notamos muito". 

Geoff Jenkins, chefe de previsão climática do Centro Hadley de pesquisa, disse que "esse é apenas um filme e Hollywood não iria investir dinheiro em um grupo de cientistas discutindo incertezas".

Jenkins disse que um colapso da circulação térmica é um evento de baixa probabilidade, mas de alto impacto. Ele disse que os cientistas não saberiam afirmar quão baixa é essa probabilidade, e em princípio, se ela poderia acontecer.

O cientista David Viner, da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, disse que "o filme aborda vários detalhes erroneamente", mas "informa sobre as mudanças climáticas, o que é bastante positivo e útil".

Nos Estados Unidos, O Dia Depois de Amanhã já está sendo considerado o filme predileto do Partido Democrata, porque fica clara a intenção do diretor de alfinetar a política ambiental de Bush, altamente nociva para o meio ambiente.

Até a imprensa americana já mudou o nome do longa. Agora ele se chama "O Filme que a Casa Branca não Quer que Você Veja".

Fonte: BBC Brasil