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Sociedades científicas internacionais apelam para que se estanque a destruição das florestas tropicais e sejam salvas as espécies mais ameaçadas do planeta

Em documento divulgado na Alemanha, cientistas do Brasil e de diversos países destacam que espécies ameaçadas devem fazer parte do comércio internacional de carbono e dos esforços para combater o aquecimento global

São Paulo, agosto de 2.009 - Duas sociedades científicas internacionais se uniram para pedir aos participantes do mercado de carbono que ajudem a salvar algumas das espécies mais ameaçadas do planeta.

Em reunião na semana passada na Alemanha, a Associação de Biologia Tropical e Conservação (ATBC, na sigla em inglês) e a Sociedade de Ecologia Tropical (GTÖ, na sigla em alemão) divulgaram a Declaração de Marburg, que destaca diversos problemas sérios nas atuais medidas em andamento para tentar combater o aquecimento global e a devastação de florestas tropicais.

Entre os principais pontos do documento estão que os esforços para minimizar a redução das emissões de carbono devem também considerar a conservação da biodiversidade. Este ponto, aponta o texto, precisaria ser considerado uma das prioridades durante as negociações da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em Copenhague, na Dinamarca, de 7 a 18 de dezembro.

“Se queremos limitar a ameaça das mudanças climáticas, devemos reduzir a destruição desenfreada das florestas tropicais, processo que resulta na emissão de cerca de 5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano na atmosfera”, disse Lúcia Lohmann, professora do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo e conselheira da ATBC. “Mas apenas reduzir as emissões não é o bastante. Precisamos também salvar as espécies em perigo.”

O problema, segundo os cientistas, é que os comerciantes internacionais de carbono tendem a apoiar esforços de preservação em áreas em que a terra é mais barata – estima-se que o mercado de carbono, a partir de acordos feitos em Copenhague, possa em pouco tempo passar para a escala dos bilhões de dólares anuais.

“As espécies mais criticamente em risco não estão apenas na Amazônia. Elas estão também nos últimos remanescentes de floresta em áreas nas Filipinas, em Madagascar, no oeste africano e nos Andes. Essas regiões são hotspots da biodiversidade [das áreas prioritárias para a conservação global], refúgios derradeiros para milhares de espécies de plantas e de animais ameaçados”, disse William Laurance, professor da Universidade James Cook, na Austrália, e ex-presidente da ATBC.

As sociedades sugerem que análises de custo-benefício sejam urgentemente conduzidas para ajudar a desenvolver estratégias adequadas para maximizar os benefícios da redução das emissões do desflorestamento e da conservação da biodiversidade.

O manifesto também pede que grupos de conservação não-governamentais promovam estratégias, apoiadas por financiamento privado, para aumentar a competitividade dos créditos de carbono dessas florestas e ecossistemas mais ameaçados.

“Há um potencial enorme para ajudar a proteger as florestas ameaçadas com dinheiro do carbono. Mas, se não formos cuidadosos, poderemos desperdiçar nossa chance de salvar espécies criticamente em risco”, ressaltou Laurance.

“Conclamamos todas as nações e corporações a investir em fundos de carbono para ajudar a preservar as florestas que estão desaparecendo. Mas, ao fazer isso, será preciso gastar um pouco mais, de modo a proteger os hábitats mais ameaçados.

Com isso, poderemos diminuir o aquecimento global ao mesmo tempo em que estaremos salvando algumas das mais incríveis e infelizmente ameaçadas espécies na Terra”, disse Lúcia, que também é associada da Diversitas, dos jardins botânicos do Missouri e de Nova York, e coordena três projetos de Auxílio a Pesquisa – Regular apoiados pela FAPESP.

A seguir, a Declaração de Marburg, em inglês e ao final em português.


THE MARBURG DECLARATION

The Urgent Need to Maximize Biodiversity Conservation in Forest Carbon-Trading

A joint communiqué of the Association for Tropical Biology and Conservation (ATBC) and the Society for Tropical Ecology (GTÖ) during their joint annual meeting in Marburg, Germany, 26-29 July 2009

WHEREAS, tropical forests around the world are being destroyed at an alarming pace, currently averaging 10-15 million hectares per year—roughly equivalent to 50 football fields per minute; and

WHEREAS, tropical forests are among the biologically-richest ecosystems on earth, sustaining at least half of all plant, animal, and fungal species in an area spanning just 7% of the planet’s land surface; and

WHEREAS, tropical forests perform an array of vital ecosystem services, such as storing large stocks of carbon in their living biomass and soils, reducing soil erosion and downstream flooding, and copiously releasing water vapor into the atmosphere that creates clouds and promotes life-giving rainfall; and

WHEREAS, tropical forests are home to an estimated 50 million indigenous forest peoples and provide livelihoods for large numbers of rural communities; and

WHEREAS, the rapid destruction of tropical forests produces about 20% of all human-caused emissions of greenhouse gases—the equivalent of 5 billion tons of carbon dioxide annually—which is a serious contributor to global warming; and

WHEREAS, tropical deforestation further promotes global warming by reducing the formation of clouds, which reflect much solar radiation away from earth; and

WHEREAS, current policy initiatives designed to use international carbon-trading to reduce emissions from deforestation and degradation of tropical forests—termed ‘REDD’—are rapidly gaining momentum and deserve strong political and public support; and

WHEREAS, at present rates of growth, international funding for REDD could soon dwarf all other spending for tropical conservation; and

WHEREAS, as presently structured, REDD funding will be focused largely on protecting areas that are most cost-effective for reducing carbon emissions, such as countries that have high deforestation rates and large expanses of relatively inexpensive forest land; and

WHEREAS, from a biodiversity-conservation perspective, the most urgent areas to protect are biodiversity ‘hotspots’—the last vestiges of forest in species-rich regions such as Madagascar, the tropical Andes, the island nations of Southeast Asia, Indochina, West Africa, the Brazilian Atlantic forest, and many smaller tropical islands—that contain large concentrations of endangered species threatened with imminent extinction; and

WHEREAS, many of the recognized biodiversity hotspots occur in areas that have been climatically stable over long periods of time, and if protected might become important refugia for wildlife facing serious climatic change in the future; and

WHEREAS, despite its potentially huge benefits for biodiversity protection, the costs of implementing REDD will often be greater in biodiversity hotspots because these forests are limited in extent and development and human-population pressures there are often intense;

THEREFORE, BE IT RESOLVED, that the Association for Tropical Biology and Conservation, the world’s largest scientific organization devoted to the study, protection, and wise use of tropical forests, and its sister European organization, the Society for Tropical Ecology, jointly urge the following:

1) That efforts to maximize the benefits of REDD for biodiversity conservation be a key priority during international negotiations of the U.N. Framework Convention on Climate Change, especially during its forthcoming meeting of the Convention of Parties in Copenhagen, Denmark; and

2) That nongovernmental conservation groups promote private funding strategies to increase the cost-competitiveness of carbon credits from the world’s most imperiled forests and ecosystems; and

3) That REDD initiatives also focus on reducing other immediate threats to tropical biodiversity beyond deforestation, such as overhunting, fires, and unsustainable logging; and

4) That efforts to promote biodiversity conservation via REDD are done in a manner that is sensitive to the needs of indigenous and local communities; and

5) That cost-benefit analyses be urgently conducted to help develop optimal strategies to simultaneously maximize the benefits of REDD for both reducing carbon emissions and protecting endangered biodiversity; and

6) That public and private donors to REDD schemes stipulate wherever possible that their funds are to be used not only to reduce carbon emissions, but also to help halt or mitigate threats to the most endangered forests and species on earth.

Declaração de Marburg

Em face da urgente necessidade de maximizar a Conservação da Biodiversidade em Florestas de Carbono é emitido comunicado conjunto da Associação para Biologia Tropical e Conservação (ATBC) e a Sociedade de Ecologia Tropical (GTO), durante sua reunião anual conjunta em Marburg, Alemanha, de 26 a 29 de julho 2009.

CONSIDERANDO QUE, as florestas tropicais ao redor do mundo estão sendo destruídas a um ritmo alarmante, atualmente uma média de 10-15 milhões de hectares por ano, aproximadamente o equivalente a 50 campos de futebol por minuto, e

CONSIDERANDO QUE, as florestas tropicais estão entre os ecossistemas biologicamente mais ricos do planeta, mantendo pelo menos metade de todas as plantas, animais e espécies de fungos em uma área que mede apenas 7% da superfície do planeta Terra;

CONSIDERANDO QUE, as florestas tropicais executam um conjunto de serviços dos ecossistemas vitais, tais como armazenar grandes estoques de carbono em sua biomassa viva e nos solos, reduzindo a erosão do solo e de inundações a jusante, e abundantemente liberando vapor de água na atmosfera que cria nuvens e promove a vida criando e dando chuvas e

CONSIDERANDO QUE, as florestas tropicais são o lar de cerca de 50 milhões inseridos nos denominados povos da floresta, povos indígenas além de fornecer meios de subsistência para um grande número de comunidades rurais e

CONSIDERANDO que a rápida destruição das florestas tropicais, produz cerca de 20% de todas as emissões causadas pelos seres humanos de gases de efeito estufa, o equivalente a 5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, que é uma contribuição muito séria para o aquecimento global e

CONSIDERANDO que, o desmatamento tropical promove ainda o aquecimento global, reduzindo a formação de nuvens, e de radiação solar do planeta (calor recebido X calor dispersado) ocasionando mudanças, o que significa aumento de temperatura, elevação do nível dos oceanos e alterações nos regimes de chuvas.


CONSIDERANDO que, as iniciativas políticas destinadas ao uso corrente internacional de comércio de carbono para reduzir emissões do desmatamento e degradação das florestas tropicais, denominado REDD - Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação vem rapidamente ganhando impulso, e merecem forte apoio político e forte apoio público, e

CONSIDERANDO que o ritmo atual de crescimento do financiamento internacional para a REDD pode atender da mesma forma as outras despesas de conservação das florestas tropicais e

CONSIDERANDO que, na sua estrutura actual, o financiamento de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) será amplamente focada na proteção das áreas que são mais factíveis à redução das emissões de carbono, como os países que têm altas taxas de desflorestamento e grandes extensões de terras florestais, e

CONSIDERANDO que, a partir de uma perspectiva de conservação da biodiversidade, as áreas mais urgentes para proteger a biodiversidade são
hotspots, os últimos vestígios da floresta em espécies de regiões ricas, como Madagascar, os Andes tropicais, as nações insulares do sudeste da Ásia, na Indochina, na África Ocidental, a mata atlântica brasileira, e muitas pequenas ilhas tropicais, que contêm grandes concentrações de espécies ameaçadas de extinção iminente, e

CONSIDERANDO que, muitos dos hotspots de biodiversidade reconhecidos ocorrem em áreas que foram climaticamente estáveis durante longos períodos de tempo, e se estiver protegida pode se tornar importante refúgio para a fauna e assim ser possível enfrentar as mudanças climáticas graves no futuro, e

CONSIDERANDO que, apesar dos seus benefícios potencialmente enormes para a proteção da biodiversidade, os custos da implementação de REDD será muitas vezes maior nos hotspots de biodiversidade, porque essas florestas além de extensas são limitadas em desenvolvimento humano e muito sensíveis às pressões da população, muitas vezes intensa;

SE RESOLVE que a Associação para Biologia Tropical e Conservação, a maior organização científica do mundo dedicada ao estudo, proteção e uso inteligente das florestas tropicais, e sua organização européia, a Sociedade de Ecologia Tropical, em conjunto, exortam o seguinte:

1) Que os esforços para maximizar os benefícios de REDD para conservação da biodiversidade é uma prioridade essencial nas negociações internacionais da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em especial durante sua próxima reunião da Convenção das Partes em Copenhague, na Dinamarca, e

2) Que grupos ambientalistas não-governamentais promovam estratégias de financiamento privado para aumentar o custo-competitividade de créditos de carbono das florestas mais ameaçadas do mundo e ecossistemas e

3) Que as iniciativas do REDD também incidam sobre a redução imediata de outras ameaças para a biodiversidade tropical além do desmatamento
e

4) Que os esforços para promover a conservação da biodiversidade através de REDD sejam feitos de uma forma que seja sensível às necessidades das comunidades indígenas e locais;

5) O custo-benefício ser urgentemente realizado para ajudar a desenvolver melhores estratégias para simultaneamente maximizar os benefícios do REDD, tanto para reduzir as emissões de carbono e a proteção da biodiversidade em perigo, e

6) Que os doadores públicos e privados para os regimes de REDD, sempre que possível estipulem que os seus fundos sejam utilizados não só para reduzir as emissões de carbono, mas também para ajudar a impedir ou mitigar as ameaças às florestas e à espécies mais ameaçadas do planeta.

 

Um hotspot de biodiversidade é uma região biogeográfica que é simultaneamente uma reserva de biodiversidade, além de poder estar ameaçado de destruição. (fonte Wikipédia)

Ecolnews / Agência FAPESP