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Derretimento do Ártico abre passagem entre Europa e Ásia
De acordo com a imagem, captada pelo satélite Envisat ASAR, a Passagem Noroeste está com o caminho aberto devido ao derretimento recorde das geleiras. O fenômeno afetou também a Passagem Nordeste que está parcialmente bloqueada. Segundo a ESA, foram registrados os maiores níveis de derretimento, desde que a agência começou a monitorar a região no início de 1978. Um dos principais responsáveis pelo degelo é o aquecimento global.
O derretimento dos pólos trouxe à superfície um traço do caráter humano que, quase sempre, se pretende sepultar. Nem foram necessárias as fotos de satélite comprovando que o gelo flutuante do Ártico sofrera um recuo de 25% nos últimos dois anos, ou a travessia da Ásia para a Europa, sob uma agora tenra camada de gelo, dispensando os tradicionais barcos quebra-gelos. Antes disso, países nórdicos já instalavam bases de prospecção, extração e processamento de petróleo e gás natural. Afinal, trabalham com projeções. E os planejadores do mercado acreditam nas previsões dos climatologistas. Quem ainda duvida delas somos nós. À medida que o gelo recua, a ambição avança. Uma surda disputa territorial é travada entre as nações que pretendem os quase 30% de todas as reservas de petróleo ainda conhecidas. Mas não existem mais nações. No mundo globalizado, o que há são mercados travestidos de pátrias. Assim, quem avança é o mercado. Uma vez mais, sobre o mundo natural. O comércio comemora. A natureza se desespera. Ironicamente, busca-se no fundo dos pólos o mesmo combustível fóssil que causa o derretimento do gelo. Esta sandice me lembra a célula tumoral que, para crescer, alimenta-se sofregamente das células vizinhas, extraindo a energia que a tornará forte. Forte o suficiente para ligar a ignição que acabará por colocar em marcha a morte do organismo. Inclusive dela própria. Irônica hipérbole. Mas não é a humanidade (causadora do efeito que derrete os pólos) quem, preocupada, deveria estar usando sua ciência para solucionar a enrascada em que ela própria se meteu? Não deveria ela, usando a mesma ciência que, com impressionante exatidão, direciona a sonda para dentro de um poço de petróleo, na imensidão gelada do Ártico, acertar o que nos ameaça? Infelizmente, parece que não. A cobiça, apetite desmesurado, apaga qualquer lampejo de lucidez. Temos aí um pequeno exemplo do que acontecerá nos próximos anos. Como não há perspectivas a curto prazo de retração dos efeitos do clima sobre o planeta, um emergente mercado começa a tomar corpo. Trata-se do mercado que buscará seus lucros nas conseqüências deletérias sobre o ambiente; no medo das pessoas; na ilusão da sobrevivência de um modelo comprovadamente predatório. Não serão poucos os que pagarão para continuarem a ser enganados. Os planificadores das economias sabem disso. O derretimento dos pólos trouxe à superfície um traço do caráter humano que, quase sempre, se pretende sepultar: a ganância. O fato é apenas uma pequena amostra do que a humanidade é capaz. Mesmo assim, sou otimista. As ambições podem ser canalizadas para propósitos coletivos. Podemos cobiçar um mundo melhor. Sou otimista, não inocente. É preciso manter os olhos abertos, o coração pulando dentro do engradado do peito e, com eles, mudar estas coisas. Fonte: Luiz Eduardo Cheida, médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, Secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.
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