Desertos avançando e civilização recuando

Janet Larsen *

São Paulo, ano de 1.990 - As forças de coalizão que avançam do Kuwait para Bagdá estão cruzando o local da primeira civilização mundial – a antiga Suméria. Mais de 5.000 anos atrás, os sumérios habitavam as ricas terras entre o Tigre e o Eufrates, parte do legendário Crescente Fértil. Ali, desenvolveram um sistema sofisticado de irrigação, construíram as primeiras cidades, conceberam uma linguagem escrita e inventaram a roda.

Entretanto, o Crescente Fértil que se vê hoje na cobertura da guerra do Iraque, pela mídia, nada tem de fértil. Fortes ventos varrem as poeirentas várzeas do Tigre e do Eufrates e a área circunvizinha se cobre de areia e poeira fina, criando tempestades asfixiantes que impedem o movimento, prejudicam a visibilidade e ameaçam a saúde humana. Terras outrora férteis são, hoje, desertos.

Infelizmente, esta situação não é singular. A pressão das 6,2 bilhões de pessoas no mundo está, lentamente, transformando terras produtivas em desertos em todos os continentes. O cultivo de terras marginais erodiu solos, enquanto cerca de 3 bilhões de cabeças de bois, ovelhas e cabras pressionaram os pastos além dos seus limites sustentáveis. No todo, a desertificação flagela um terço da superfície da Terra, afetando mais de 1 bilhão de pessoas em 110 países.

Embora os desertos normalmente se expandam e contraiam, a aceleração da desertificação induzida pela atividade humana está rapidamente solapando economias rurais. Anualmente, os desertos conquistam milhões de hectares de terras agrícolas e pastagens. A África – com quase metade de seu território em perigo – é o país mais vulnerável, porém imagens de satélite e relatórios locais confirmam que a desertificação é generalizada através de todas as terras secas mundiais.

Na bacia do Sistan, dividida pelo Afeganistão e Irã, poeira e areia varridas pelos ventos já enterraram mais de 100 vilarejos. Um antigo oásis que cinco anos atrás sustentava pelo menos um milhão de bovinos, ovinos e caprinos está hoje praticamente árido. Quando os pastos exauridos se transformaram em areia, centenas de milhares de animais morreram e a população abandou a região.

Para o norte, ao longo do Rio Amu Darya, no Afeganistão, a destruição da vegetação protetora agravou os efeitos da seca, permitindo a formação de um cinturão de dunas de areia de 300 quilômetros de extensão e 30 quilômetros de largura. Essas dunas, se deslocando 1 metro por dia, bloqueiam estradas e engolem vilarejos já sem proteção das florestas locais.

No Casaquistão, terras agrícolas exauridas estão sendo abandonadas à medida que cai a produtividade. Lavragem excessiva em terras marginais, durante uma tentativa soviética de incrementar as colheitas de grãos, nos anos 50, causou uma erosão generalizada do solo pelo vento. Desde 1985, o Casaquistão abandonou metade dos seus 25 milhões de hectares de áreas de cultivo de grãos.

Na China, a desertificação ameaça meios de vida de milhões de pessoas e causa perdas econômicas anuais diretas de aproximadamente US$ 6,5 bilhões, incluindo o custo da perda de produtividade agrícola. Um relatório da Embaixada dos Estados Unidos em Beijing, intitulado “Fusões e Aquisições do Deserto” revela que no noroeste da China, o tempo seco prolongado, exploração predatória de pastos e colheita desordenada de plantas silvestres, desprenderam a areia das bordas do terceiro e quarto maiores desertos do país. Ventos fortes estão levando para o sul dunas desestabilizadas do Deserto de Bardanjilin, de 5 milhões de hectares, em direção ao Deserto de Tengry, de 3 milhões de hectares, literalmente preparando o terreno para uma fusão.

Uma situação semelhante ocorre na Região Autônoma de Xinjiang, na China. Construções excessivas de barragens a montante e desvio de água para agricultura, secaram o Rio Tarim. Conseqüentemente, grandes bosques de álamo e outras vegetações, que outrora atuavam como uma barreira entre os desertos de Taklamakan e Kumtag, desapareceram. Hoje, os dois desertos se aproximam numa marcha constante que poderá, em breve, também conduzir a uma fusão.

Esses problemas não são isolados, nem de alcance limitado. Tempestades maciças de poeira originárias da China e Mongólia já alcançam o continente norte-americano. Dois países diretamente no caminho do pó sufocante, Japão e Coréia do Sul, se uniram à China para promover a recuperação das terras degradadas que alimentam essas tempestades transoceânicas.

O Secretariado da Convenção das Nações Unidas para Combate à Desertificação projetou que sem esforços concentrados para conter e reverter a desertificação, a Ásia poderá perder um terço de suas terras cultiváveis. Na América do Sul, as áreas de terras cultiváveis poderão encolher um quinto. Na África, dois terços das terras cultiváveis poderão ser perdidos, reforçando a pobreza e insegurança alimentar, inflando rapidamente as fileiras de refugiados ambientais.

Nigéria, o país mais populoso da África, perde anualmente cerca de 350.000 hectares de terra – aproximadamente metade da área do Estado de Delaware, nos Estados Unidos – engolidos pelo avanço do Deserto do Saara. A desertificação causada por uma combinação de pressão populacional excessiva, manejo precário da terra, excesso de pastagem, e seca, afeta mais da metade da área dos 10 estados nortistas da Nigéria, que possuem uma população total de 29 milhões. À medida que os desertos avançam, se intensifica a competição entre agricultores e pastores pelas terras produtivas remanescentes.

No Quênia, mais de 80% das terras estão vulneráveis à desertificação – terras que sustentam quase um terço dos seus 32 milhões de habitantes, e metade do seu gado bovino, ovino e caprino de 28 milhões de cabeças. Um crescimento populacional sem precedentes levou a um uso inadequado do solo e acelerou o desmatamento. Populações, juntamente com o gado, foram lançadas para terras marginais, enquanto agricultores reduziam os períodos de alqueive, aumentando a degradação do solo.

Os meios para combater a desertificação variam entre países, dependendo das condições climáticas e sociais locais. Esforços para reverter o avanço dos desertos e quebrar o ciclo de manejo precário do solo e o da pobreza, dependerão do aumento da renda do bilhão de pessoas em todo o mundo que vive com menos de US$ 1 por dia. O tamanho das famílias e a educação também são fundamentais para reduzir as pressões sobre a terra e incrementar o manejo.

Embora as margens dos desertos estejam particularmente sob ameaça, qualquer terra que esteja sem vegetação alguma é vulnerável à desertificação. A restauração da vegetação em áreas vulneráveis poderá estabilizar os solos para que não sejam varridos. Consciente disto, o governo chinês lançou o maior projeto mundial de plantio de árvores, numa tentativa para conter o deserto invasor.

A fim de evitar a erosão eólica e hídrica, produtores podem praticar a agricultura conservacionista. O cultivo sem lavragem, ou com pouca lavragem, pode substituir o uso intensivo do arado, mantendo a umidade e matéria orgânica no solo. A agricultura conservacionista é praticada em cerca de 60 milhões de hectares em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos e América do Sul, e possui um grande potencial para reduzir a erosão do solo e elevar a produtividade da lavoura em regiões secas da África e Oriente Médio.

Será necessário um manejo cuidadoso do gado para proteger a integridade dos pastos. Na China, onde os pastos são usados e pisados por 161 milhões de caprinos, 137 milhões de ovinos e 128 milhões de bovinos e búfalos, alguns governos locais proibiram os caprinos de pastarem em campo aberto. Aldeões podem fazer jus a subsídios para manter seus rebanhos confinados, alimentando-os com forragem.

A energia alternativa também tem um papel a desempenhar na prevenção da degradação do solo. Nos países em desenvolvimento, onde cerca de 2 bilhões de pessoas dependem da madeira e resíduos da lavoura para cozinhar, aparelhos simples como fogões solares podem aliviar as pressões sobre a terra. E turbinas eólicas podem fornecer energia limpa e ao mesmo tempo servir como barreiras contra o vento.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima, conservadoramente, que entre 1978 e 1991, cerca de US$ 300-US$ 600 bilhões de receita mundial foram perdidos devido ao fracasso no combate à desertificação. Outras análises estimaram que os benefícios da contenção da desertificação e recuperação de terras degradadas são, no mínimo, 2,5 vezes maiores do que os custos de permitir o domínio da areia. Um mundo onde a área produtiva encolhe enquanto a demanda humana aumenta, não é uma receita para estabilidade ecológica ou progresso econômico.

* Janet Larsen é pesquisadora do EPI-Earth Policy Institute

Fonte: EPI-Earth Policy Institute / UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica

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