Documento da estatal Embrapa
contradiz a afirmação do presidente Lula de que "os canaviais não estão
invadindo a Amazônia"
São Paulo,
03 de junho de 2.008 - O presidente Lula, num dos mais importantes e
fundamentados discursos que proferiu desde que subiu ao Planalto, disse hoje em
Roma, na abertura da conferência de cúpula da FAO (Organização das Nações Unidas
para a Agricultura e a Alimentação) que não tem “pé nem cabeça” a afirmação de
que os canaviais para a produção de etanol estão invadindo a Amazônia.
Segundo ele, só 0,3% da área ocupada no país pela cana-de-açúcar fica na Região
Norte. “Ou seja, 99,7% da cana está a pelo menos 2 mil quilômetros da Floresta
Amazônica”. E, numa bem-sacada comparação do redator do discurso, emendou: “A
mesma distância que existe entre o Vaticano e o Kremlin.”
Como é que fica então a matéria da Folha do último domingo? Ela cita um
documento da estatal Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária),
vinculada ao Ministério da Agricultura, segundo o qual já foram plantados 45
quilômetros quadrados de cana no município acreano de Capixaba, a 60 km da
capital, Rio Branco.
Até 2012, ainda segundo a Embrapa, a área plantada ali deverá ser multiplicada
por 10. Com isso, a área dos canaviais de Capixaba equivalerá a pouco menos de
1/3 da cidade de São Paulo.
O documento, esclarece a Folha, é um subsídio ao PAS (o Plano Amazônia
Sustentável, aos cuidados do chamado ministro do Futuro, Roberto Mangabeira
Unger).
Outra frente da cana na Amazônia fica em Roraima, com dois empreendimentos
somando 90 quilômetros quadrados.
A matéria cita por fim um dado da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento),
sem esclarecer se faz parte do documento da Embrapa. O dado é do aumento de 9,6%
da última safra de cana na Amazônia Legal – de 17,6 milhões de toneladas para
19,3 milhões. A variação acompanha o crescimento da área de canaviais em Mato
Grosso, Tocantins e Amazonas.
O presidente brasileiro está coberto de razão quando denuncia os dedos “sujos de
óleo e de carvão” dos que responsabilizam o etanol, incluíndo o obtido da cana,
pela alta mundial dos preços dos alimentos.
"É com espanto que vejo tentativas de criar uma relação de causa e efeito entre
os biocombustíveis e o aumento dos preços dos alimentos”, contra-atacou. “É
curioso: são poucos os que mencionam o impacto negativo do aumento dos preços do
petróleo sobre os custos de produção e transporte dos alimentos. Esse
comportamento não é neutro nem desinteressado.”
Lula também está certo em se tornar “o chato do etanol”, como avisou aos
jornalistas brasileiros, numa conversa na embaixada em Roma, domingo.
Mas, ou o documento da Embrapa sobre a expansão da cana na Amazônia está
equivocado, ou o governo deve uma explicação aos brasileiros que o aplaudem pela
defesa do nosso biocombustível, com o seu imenso potencial para a redução das
emissões de gás carbônico que provocam o efeito estufa.
De qualquer forma, ponto para a repórter Marta Salomon, da Folha, que levantou a
lebre.
Fonte: Luis Weiss, do Observatório da Imprensa.
