O guardador das águas

Do corpo queimado de Franselmo nasceu um novo Brasil obstinado em germinar novas vozes, mais fortes e mais vivas do que a própria morte. Para apagar esse fogo do corpo queimado de Francisco Anselmo Gomes de Barros, todas as águas do Pantanal não foram, nem serão suficientes.

Com seu gesto, parafraseando Manoel de Barros, “choveu futuro”. Ao atravessar um dos seus tão conhecidos corixos pela mão de um Caronte pantaneiro, ele inundou o Brasil de um fervor que somente um herói morto pode gerar dando um significado à sua própria morte para que outros pudessem sobreviver. Manuel de Barros, ainda, diria que Franselmo era um “guardador de águas”. “Os grandes mortos são imortais, não morrem nunca” escreveu Nicolas Guillén, outro poeta, falando de um dos inúmeros sacrificados pela violência.

A um morto não se pode exigir silêncio, ele brada das profundezas do insondável a sua mensagem cotidiana, ultrapassando os limites do tempo e das gerações. Cabe à sociedade interpretar esse grito.

O herói popular morre de universo, numa frenética harmonia, disse ainda outro poeta, César Vallejo. Apesar de “Anselmo” significar “estar protegido por Deus” ele, o Ancelmo pantaneiro, ao ser esquecido por Ele, transformou-se no “passado obscuro dessas águas”, ainda parafraseando Barros. Essa morte traz duras lembranças, a do Chico Mendes, claro, que fora abatido entre as seringas acreanas; a do Dionísio Ribeiro que, ao defender os palmitos da Mata Atlântica fluminense, também tombou no estendal da água. Chico e Dionísio morreram a chumbo, Franselmo a álcool inflamado.

Ó absconsos ardores! se diz no “Guardador das Águas”, e nunca foi tão verdadeira essa assertiva para definir o sacrifício extremo como catalisador de ações e de mensagens emblemáticas para continuar a luta pela defesa do espaço natural. A lista de nomes ambientalistas ameaçados de morte é longa, começando por Mário Moscatelli, o guardião dos manguezais; Miriam Prochnow, a madrinha dos afetados pelas barragens das hidroelétricas; Ivan de Marchi, o botânico cuidador de bromélias; Maurício Melato Barth, que recebeu nas pernas o impacto de várias balas ao defender uma praia catarinense; Norberto Hess, que teve os braços quebrados ao fotografar na Bahia o corte ilegal de madeira; Rodrigo Agostinho, também amante das bromélias de Bauru; Lisiane Becker e Rogério Mongelos, pesquisadores de Unidades de Conservação no Rio Grande do Sul, também receberam o ultimato por conferir o grau de desmatamento realizado numa RPPN e muitos outros nomes que poderiam preencher folhas e folhas, não de árvores, mas de papel, de papel feito de celulose.

Dias aziagos em que a celebração é a morte. A morte universal, já que o mundo também lembra nestes dias o décimo aniversário do ambientalista Ken Saro-Wiwa, assassinado por sua luta contra a exploração de petróleo pela Shell na Nigéria. Tristes dias infaustos, estes em que temos que concordar com Manuel de Barros: “Uburus se ajoelham pra ele”.

Gaia Viverá!

Lúcia Chayb e René Capriles

Fonte: Editorial da Revista Eco 21, edição de novembro de 2.005, endereço original

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