O efeito estufa

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Impactos das mudanças climáticas

Como visto anteriormente, o efeito estufa é muito importante para a manutenção da vida na Terra, e a presença do CO2 na atmosfera garante temperaturas amenas em extensa parte da superfície do planeta. Mas o excesso de CO2 e outros gases-estufa na atmosfera deverá ser prejudicial à vida na Terra. Estima-se que, em virtude da intensificação do efeito estufa, a temperatura média na sua superfície deverá elevar-se entre 1.5 e 4.50C. Essa elevação se dará em resposta ao aumento do nível de CO2 na atmosfera, que, em meados do próximo século, deverá girar em torno de 560 a 600ppm, o dobro do valor registrado no período pré-industrial.

Mas ainda não se sabe com certeza como se dará o aquecimento do planeta, ou seja, qual será o padrão de elevação da temperatura. O fator agravante desse fenômeno é que o aquecimento não se dará na mesma intensidade nas diferentes latitudes. Espera-se um aquecimento menor nos trópicos (+2ºC) e maior à medida que se avança em direção aos pólos (+7ºC no Círculo Polar Ártico).

O aumento da temperatura terá como conseqüência mudanças no padrão de circulação atmosférica e, com isso, alterações no regime de chuvas. Especula-se que as áreas atualmente úmidas poderão vir a se tornar mais úmidas e regiões hoje áridas poderão se tornar ainda mais áridas. Haverá, portanto, mudanças consideráveis na biota do planeta (figura 15).

A velocidade de mudança do clima será de dez a cem vezes mais rápida do que a verificada na última transição glacial-interglacial. Com isso, muitas espécies poderão não conseguir migrar com a rapidez necessária para acompanhar a mudança climática e virem a se extinguir. Estima-se, por exemplo, que o aquecimento de 1ºC no limite mais quente e seco de uma floresta fará com que cerca de 100 a 200 milhões de hectares se transformem em savanas. Espera-se que o aumento de CO2 na atmosfera provoque um aumento da fotossíntese e, conseqüentemente, do crescimento vegetal. Mas suspeita-se de que esse fato não deverá beneficiar a flora, já que em comunidades naturais as plantas dependem de outros fatores, como nutrientes e água. Apenas em locais com farto suprimento de nutrientes e água é que poderá haver aumento do crescimento vegetal em resposta aos maiores volumes de CO2 na atmosfera.

Assim, a produção agrícola poderá se beneficiar com o aumento do CO2. Por outro lado, a produção agrícola de determinados locais poderá sofrer com a diminuição das chuvas. Importantes áreas agrícolas do mundo, como o sudoeste norte-americano, poderão ser seriamente afetadas pelo efeito estufa, tornando-se áridas. Isso poderá provocar a escassez de grãos, por exemplo.

Figura 15. Relação da precipitação com a distribuição das comunidades florestais.

Em conseqüência, seu preço se elevaria, agravando ainda mais o problema da fome no mundo. O Egito, por exemplo, poderia perder 15% de suas terras cultivadas, e Bangladesh, 14%. O arroz, principal gênero alimentício produzido na Ásia, é cultivado em deltas de baixas altitudes e planícies alagadas. A elevação de um metro no nível dos oceanos provocaria a inundação de muitas áreas de plantação de arroz e reduziria substancialmente a produção. O aquecimento global também favorecerá os insetos que vivem em áreas quentes. Pragas agrícolas, parasitas e patógenos tendem a proliferar sob rápido aquecimento. Acredita-se que a perda de safras por causa dos insetos aumente muito, demandando grande consumo de agrotóxicos.

A mudança no padrão de chuvas poderá trazer sérias conseqüências em muitas regiões do planeta. Produção de energia, pesca, transporte, irrigação, entre outras atividades, dependem dos recursos hídricos. Se em determinada bacia houver uma diminuição sensível da pluviosidade, todos esses elementos serão afetados. Ao contrário, se houver um aumento da pluviosidade, poderá haver problemas de inundações.

Em resposta ao aquecimento, o gelo das calotas polares poderá derreter-se. Esse fato, aliado à expansão térmica da água do mar, poderá provocar um aumento do nível do mar entre 30 e 100cm até o final do próximo século. As conseqüências seriam trágicas.

Nações com pequena altitude em relação ao nível atual dos mares e zonas costeiras seriam seriamente afetadas. Cidades litorâneas seriam inundadas e lençóis subterrâneos contaminados, com enormes conseqüências sociais. Metade do estado americano da Flórida se inundaria.

Nações insulares do Pacífico e do Caribe poderão ter grande parte de seu território inundado por causa da elevação do nível do mar. Populações inteiras seriam obrigadas a migrar.

As principais mudanças climáticas que podem ocorrer em cada continente são as seguintes (fonte: Greenpeace, ano de 2.005):

América Latina

- Diminuição das geleiras na América Latina, onde são fonte de água para a agricultura e produção de energia, assim como para uso doméstico e industrial.

- Enchentes e secas se tornarão mais freqüentes. As enchentes podem aumentar a deposição de sedimentos no solo, interrompendo o fornecimento de água em algumas áreas.

- Maior intensidade de ciclones tropicais com aumento dos riscos para a vida, propriedade e ecossistemas, além de prejuízos causados por fortes chuvas, enchentes, tempestades e ventos.

- A segurança alimentar pode se tornar um sério problema para muitos países latino-americanos, ameaçando a cultura de subsistência em algumas regiões. A previsão é de queda no rendimento de muitas safras da América Latina, mesmo quando os efeitos do CO2 forem considerados.

- Incidência de doenças como a malária, febre amarela e cólera poderia aumentar. Os problemas que a América Latina enfrenta com doenças infecciosas de ambientes quentes pode ser exacerbado.

- Desaparecimento de recursos de ecossistemas, aumentando a perda da biodiversidade.

América do Norte

- Ecossistemas únicos em risco e improvável adaptação efetiva.

- Aumento da erosão em áreas costeira, enchentes e tempestades, particularmente na Flórida e na costa americana do Atlântico, provocado pela elevação do nível do mar.

- Companhias de seguro e agências governamentais para assistência em caso de desastre estão despreparadas para enfrentar uma demanda crescente na América do Norte parte de vítimas de fenômenos naturais.

- Doenças transmitidas por vetores – incluindo a malária e a febre amarela – podem expandir sua gama na América do Norte.

Europa

- Metade das geleiras montanhosas e grandes áreas congeladas podem desaparecer até o final do século 21.

- Aumento nos padrões de chuva podem colocar em risco grandes áreas da Europa. Em áreas costeiras, o risco de enchentes e erosão também deve aumentar, com implicações para o estabelecimento de humanas, indústria, turismo, agricultura e habitats naturais de zonas costeiras.

- Perda de importantes habitats (regiões úmidas, planícies de regiões árticas e habitats isolados) colocando em risco algumas espécies.


África

- Queda na produção de grãos e conseqüente redução na segurança alimentar ameaçam populações africanas, já carentes de desenvolvimento sustentável.

- Aumento do número de transmissores de doenças infecciosas, com prejuízo da saúde da população, em uma região que já enfrenta os efeitos da AIDS e da desnutrição.

- Aumento de secas, enchentes e outros fenômenos naturais acentua a pressão por recursos da água, segurança alimentar, saúde e infraestrutura, restringindo o desenvolvimento da África.

- Destruição de ecossistemas vitais, com o desaparecimento de uma das mais ricas biodiversidades do mundo. Várias espécies de planta e de animais podem desaparecer, com impacto no modo de vida rural, no turismo e nos recursos genéticos.


Ásia


- A incidência de fenômenos naturais aumentou em áreas temperada e tropical da Ásia como enchentes, secas, incêndios florestais e ciclones tropicais.

- Queda na segurança alimentar em muitos países de regiões árida, tropical e temperada da Ásia com redução da produtividade na agricultura e cultura aquática, provocada pelo efeito térmico da água, elevação no nível do mar, enchentes, secas e ciclones tropicais podem diminuir a segurança alimentar. Expansão e aumento na produtividade da agricultura no norte do continente.

- Maior exposição aos vetores de doenças infecciosas aumentando os riscos para a saúde da população.

- Mega-cidades e áreas muito populosas ao longo da costa dos Oceanos Pacífico e Índico são ameaçadas pela elevação no nível do mar e enchentes de rio, provocadas por fortes chuvas. A elevação no nível do mar e ciclones tropicais mais intensos podem desabrigar milhões de pessoas que vivem em áreas costeiras da Ásia.

- A soma do aquecimento global e a fragmentação do habitat pode resultar na extinção de muitas espécies de mamíferos e pássaros. O aumento no nível do mar poderia colocar a segurança ecológica em risco, incluindo mangues e recifes de corais.

Austrália e Nova Zelândia


- Apesar das estimativas de que a mudança climática trará, inicialmente, benefícios para algumas safras na Austrália e Nova Zelândia, as perdas regionais e prejuízos de longo prazo serão sempre superiores.

- Secas e incêndios se tornarão ainda mais comuns e a água se tornará um assunto-chave, sendo mais valorizada em regiões do país que sofrem com a seca.

- Maior intensidade de chuvas e ciclones tropicais e mudanças regionais específicas na freqüência de ciclones, aumentando os riscos para a vida, a propriedade e para os ecossistemas.

- Espécies ameaçadas ou extintas, assim como ecossistemas australianos particularmente vulneráveis ao aquecimento global, incluindo recifes de corais, habitats áridos e semi-áridos no sudoeste e interior da Austrália, além de regiões montanhosas.


Regiões Polares

- Ecossistemas de regiões polares são altamente vulneráveis ao aquecimento global e têm baixa capacidade de adaptação.

- Regiões polares já estão aquecidas a níveis alarmantes e muitos ecossistemas não sobreviverão às estimativas de aumento no aquecimento global. Estima-se que a mudança climática nas regiões polares seja maior e mais rápida do que em qualquer outra região do planeta, provocando impactos físicos, ecológicos, sociológicos e econômicos maiores.

- Os impactos do aquecimento global podem ser vistos na redução do tamanho e da espessura do gelo no Ártico, degelo, erosão na zona costeira, mudanças nos lençóis e prateleiras de gelo, distribuição alterada e abundante de espécies em regiões polares.


Nações Ilhas

- Os efeitos da elevação no nível do mar influenciarão, de forma dominante, a realidade socioeconômica em muitas nações-ilhas. A estimativa é de que o nível do mar suba 5mm anualmente pelos próximos 100 anos, provocando aumento na erosão da zona costeira, perda da terra e propriedade, deslocamento de pessoas, riscos de tempestades, capacidade reduzida de recuperação dos ecossistemas costeiros, salinidade em recursos de água potável e altos custos de adaptação a estas mudanças.

- Grande vulnerabilidade de nações-ilha com suprimento de água muito limitado por causa dos impactos das mudanças climáticas sobre o equilíbrio da água.

- Impactos negativos em recifes de corais provocados pelos altos níveis de dióxido de carbono. Mangues, vegetação marítima, outros ecossistemas costeiros e a biodiversidade associada afetadas pelo aumento da temperatura e elevação acelerada do nível do mar.

- Declínio de ecossistemas costeiros, com impacto negativo para corais de peixes e de pesca, ameaçando a prática de comunidades pesqueiras e aqueles que se apóiam na pesca como fonte significativa de alimento.

- Diminuição de áreas de terra para arado e salinização do solo torna vulnerável a agricultura da região, tanto para produção doméstica como para exportação da safra.

- As repercussões socioeconômicas das mudanças climáticas ameaçam o ecoturismo (importante fonte de renda e intercâmbio) e o desenvolvimento sustentável das nações-ilha.