Na COP 8,
especialistas apontam que apenas um esforço coletivo pode fazer com que espécies
invasoras deixem de causar danos para a biodiversidade local, como no caso dos
castores na Terra do Fogo
Curitiba, 24 de março de 2.006 -
Se o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) passasse hoje pela Terra do
Fogo, 175 anos após o término da histórica jornada a bordo do Beagle, teria
presenciado uma cena inusitada. Também teria dificuldade para separar a
intervenção humana da evolução natural das espécies.
Darwin veria uma enorme quantidade de castores, espécie que até a década de 1940
não existia por ali. Como o clima frio da região parecia ideal para a criação do
animal – e como o comércio de peles era um negócio bastante rentável –
empresários argentinos resolveram importar 25 casais do Canadá.
Como a pele dos castores não cresceu de forma que se tornasse economicamente
rentável, os bichos foram abandonados. O resultado é que, hoje, na Terra do
Fogo, a população de castores ultrapassou os 100 mil indivíduos, tornando-se uma
grande praga biológica.
O tema das espécies invasoras foi bastante debatido durante a Oitava Conferência
das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8), em Curitiba, nesta
quinta-feira (23/3). O motivo foi a apresentação do estudo América do Sul
invadida, do Programa Global de Espécies Invasoras, que mostra os principais
problemas existentes hoje no continente.
“Para evitar problemas com as espécies invasoras, o melhor é fazer ações
preventivas. É o que a maioria dos países está fazendo”, explica Sílvia Ziller,
coordenadora do programa de espécies exóticas invasoras para a América do Sul da
The Nature Conservancy Brasil, à Agência FAPESP.
Como o castor é apenas um dos muitos exemplos do problema, Sílvia lembra que,
caso a prevenção falhe, não se pode pensar em abandonar por completo a espécie
vinda de outra parte do mundo. “O Brasil tem o seu banco de dados, o que é
bastante positivo, mas precisamos de um plano de ação para cada uma das
invasões”, afirma a pesquisadora.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, que tem feito várias ações nos últimos
anos para tentar atacar o problema, existem 204 espécies exóticas invasoras
terrestres no país. Esse levantamento, feito em 2005 e que contou com a
colaboração da The Nature Conservancy do Brasil, mostra que 64% das espécies
estão se multiplicando e impactando a biodiversidade brasileira. Quase 85% foram
trazidas de forma voluntária.
Se em alguns casos o combate ao invasor é mais fácil, porque o problema, por
enquanto, é apenas pontual, em outras situações apenas um grande trabalho
coletivo poderá ajudar no controle da biodiversidade nacional. “O caramujo
africano, por exemplo, encontra-se atualmente em pelo menos 15 estados
brasileiros”, afirma Sílvia. A espécie Achatina fulica, com média de sete
centímetros de altura, foi trazida ao país na década de 1980 para a criação de
escargot.
Mais informações sobre a COP 8:
www.biodiv.org
e
www.cdb.gov.br

Fonte: Eduardo
Geraque, da Agência Fapesp