Uma estratégia energética para o século XXI

São Paulo, agosto de 2.004 - Os especialistas em energia do Worldwatch, o Presidente Christopher Flavin e o pesquisador associado Seth Dunn, elaboraram um conjunto de critérios que poderão ser utilizados para avaliar a eficácia da nova política energética, como segue:

A política energética anunciada pelo Governo Bush, é uma oportunidade singular para fornecer à nação uma visão abrangente de um sistema energético para o Século XXI, e recomendar as políticas que ajudarão o país a realizá-la.

Resta saber se uma administração, liderada por dois ex-executivos da indústria do petróleo com ligações pessoais e políticas com as fontes energéticas do passado recente, produzirão uma agenda energética consistente com as necessidades e exigências de um novo século. A dependência crescente em fontes energéticas do Século XX (petróleo) e do Século XIX (carvão) será um despautério e retrocesso tão grande quanto seria um projeto para produção em massa de carruagens em 1901. Também iria, de forma desnecessária e dispendiosa, espoliar o meio-ambiente numa ocasião quando existem fontes energéticas bem mais limpas. E já sabemos que nossos aliados internacionais estão ferrenhamente contra a expansão da dependência em combustíveis fósseis, devido ao seu compromisso para conter o aquecimento global.

Estamos hoje nos primórdios de uma revolução energética tão profunda e veloz como a que impulsionou a era do petróleo, um século atrás. Este novo sistema energético – altamente descentralizado, eficiente e baseado cada vez mais em recursos renováveis e no hidrogênio – já começa a surgir em outras partes do mundo. Sem uma liderança de visão, os Estados Unidos correm o risco de ser ultrapassado por seus competidores econômicos e comprometer sua credibilidade política no cenário internacional..

Acreditamos que a estratégia prestes a ser anunciada deverá ser avaliada na extensão em que incorpore os seguintes princípios de um sistema energético para o Século XXI:

1 - Eficiência Energética: A Pedra Angular

Os investimentos em eficiência energética – a obtenção dos mesmos serviços de iluminação, cozimento, aquecimento, mobilidade e industrialização com menor necessidade de energia – são as primeiras medidas que deveremos adotar, e não as sugestões retrógradas do Vice-Presidente Cheney. Faz muito mais sentido econômico e ecológico obter mais de cada quilowatt ou barril do que cavar por mais carvão e perfurar por mais petróleo. Os avanços na eficiência do uso energético com melhores eletrodomésticos, prédios, automóveis e processos industriais já registraram reduções no volume de energia utilizada por cada unidade do produto econômico.

Entre 1973 e 1999, o consumo de energia nos Estados Unidos por cada unidade do produto interno bruto caiu em 41 por cento. Todavia, como comprovado pelos laboratórios nacionais do Departamento de Energia, os Estados Unidos poderiam reduzir sua relação energia/PIB em mais 10 por cento, através de políticas voltadas à melhoria de eficiência. O insucesso na manutenção dos avanços da eficiência elétrica contribuiu para os problemas energéticos da Califórnia. E a não-modernização das bem-sucedidas normas CAFE [sigla em inglês de Economia Corporativa Média de Combustível] levou aos recentes aumentos dos preços da gasolina. Será que a Casa Branca, cujo chefe do estado-maior dirigiu a Associação Americana dos Fabricantes de Automóveis (que tão bem conduziu o lobby para congelar as normas CAFE), recomendará normas e incentivos significativos para o incremento da eficiência dos automóveis?

2 - Gás natural: a ponte para uma economia baseada no hidrogênio

O gás natural é o combustível fóssil mais limpo e de maior crescimento, e apesar do recente aumento de preço, tornou-se o combustível escolhido para geração de energia. Entretanto, o desafio do gás natural não é a sua exploração em áreas ecologicamente sensíveis, como o governo aparentemente procura fazer, e sim o desenvolvimento de novos usos, altamente eficientes, para este combustível. Estes usos incluem co-geração, ou o uso combinado de calor e energia, e tecnologias da microenergia.

“Microenergia” é a expressão utilizada para descrever a tendência global inequívoca da geração de energia para unidades descentralizadas e eficientes, como células de combustível e microturbinas movidas basicamente a gás natural. É uma transformação tão profunda quanto a mudança do mainframe para o computador pessoal, gerando igualmente novas e significativas oportunidades de negócio. Agrilhoando o sistema energético dos Estados Unidos ao Século XX, os modelos nucleares e fósseis de grande porte limitarão a competitividade global da indústria energética dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, agravarão os problemas ambientais e de saúde.

3 - Energia nuclear e carvão limpo: nostalgia descabida

O provável projeto do Governo Bush de revitalizar indústrias que vêm padecendo de uma morte lenta há duas décadas é de causar perplexidade. O custo da geração nuclear é aproximadamente o dobro da de outras fontes energéticas existentes no mercado. Este gasto, combinado com a oposição pública, causou a quase paralisação de novas construções em todo o mundo. Investidores privados recusam-se a investir em energia nuclear. Maior subsídio governamental à energia nuclear seria um desperdício gigantesco de recursos públicos.

Os sinais que o governo realizará altos investimentos em “carvão limpo” indicam outro dispêndio imprudente do dinheiro dos contribuintes. O carvão é uma fonte de energia do Século XIX e o mais sujo dos combustíveis fósseis, prejudicando a saúde de milhões de pessoas a cada ano. É também uma indústria do ocaso, esvaziando postos de trabalho devido à mecanização. Com os níveis de emprego se reduzindo em 66 por cento desde 1980, os mineiros de carvão representam hoje menos de 0,1 por cento da força de trabalho dos Estados Unidos. Globalmente, o consumo de carvão está no seu ponto mais baixo desde 1984, tendo a China reduzido seu consumo em 27 por cento desde 1996.

4 - Energia renovável: mais rápida, barata e limpa

Outro recente disparate bem conhecido é que, devido à energia renovável representar atualmente cerca de 2 por cento da energia total dos Estados Unidos, desempenhará apenas um papel mínimo no futuro e portanto não desmerecedora de um apoio substancial. Poder-se-ia ter cometido o mesmo erro um século atrás com o petróleo, que representava 2 por cento do consumo energético em 1900, vindo a se tornar o combustível predominante no que alguns historiadores denominam o “século do petróleo.”

O petróleo surgiu inicialmente em mercados de nicho, crescendo rapidamente desde então. A energia eólica e solar estão fazendo o mesmo, crescendo globalmente a taxas anuais de dois dígitos, porém principalmente na Europa e Japão – onde o apoio governamental está criando um mercado vibrante e gerando empregos de alta tecnologia e exportação (vide abaixo).

5 - Tendências globais no consumo de energia: 1990-2000

Fonte Taxa Média de Crescimento Anual *
(percentual)

Eólica - 25,1
Solar fotovoltáica - 20,1
Gás Natural - 1,6
Petróleo - 1,2
Nuclear - 0,6
Carvão -1,0

* Baseada na capacidade instalada de energia eólica e nuclear, remessas para energia solar e consumo de gás natural, petróleo e carvão.

Hoje, a energia eólica é a fonte energética mundial de maior crescimento, registrando 27 por cento anuais, e é mais barata do que a geração a gás e carvão. O consumo de energia solar também está crescendo, particularmente no Japão e Alemanha, cujas políticas de energia renovável são bem mais eficazes do que nos Estados Unidos. Ironicamente, a política de energia renovável mais forte, em nível estadual, é a do Texas, onde uma lei promulgada durante a gestão de Bush, como governador, exige que as concessionárias forneçam uma determinada quantidade de energia de fontes renováveis. Será que poderemos esperar uma norma nacional para a energia renovável do ex-Governador, que tanto fala de introduzir suas histórias de sucesso Texano em Washington?

5 - Hidrogênio: “O Petróleo do Futuro”

Poderá o elemento mais abundante do universo ser o elemento ausente na política energética de Bush? As empresas automotivas e de energia estão despejando centenas de milhões de dólares no desenvolvimento de células de combustível de hidrogênio para equipamentos eletrônicos portáteis, sistemas estacionários de energia e veículos a motor. A tecnologia do hidrogênio e de células de combustível poderá redirecionar o sistema energético global tão profundamente como a descoberta do petróleo e a invenção do motor de combustão interna, mais de um século atrás.

No início do ano, o Presidente propôs um corte de 48 por cento no orçamento de pesquisa de hidrogênio. Enquanto isso, como nas corridas tecnológicas anteriores, as montadoras alemãs e japonesas e as empresas de energia estão liderando a corrida do hidrogênio/célula de combustível, enquanto Detroit e Houston ficam para trás. Preservar a dependência no petróleo e deixar de preparar o terreno para um sistema de energia e transporte baseado no hidrogênio, enfraquecerá gravemente a segurança energética e diversidade nacional, reduzindo a competitividade das empresas norte-americanas nos ferozes mercados automotivos e energéticos.

6 - Descarbonização: não recarbonização

Desde 1850, o sistema energético mundial vem se deslocando constantemente de combustíveis com alto teor de carbono para outros, de menor teor. Por razões de eficiência e disponibilidade, nos deslocamos da madeira para o carvão, do carvão para o petróleo e agora, do petróleo para o gás natural. A próxima mudança – para o hidrogênio – desponta no horizonte e os riscos da mudança climática exigem que apressemos sua chegada.

Durante os últimos anos, executivos da indústria do petróleo e automobilística reconheceram publicamente esta tendência de “descarbonização,” observando que a era o petróleo está chegando ao fim (vide abaixo). Entretanto, nossos líderes políticos são omissos em discutir com a população norte-americana a necessidade urgente de descarbonizar sugerindo, ao invés, uma filosofia de “combustíveis fósseis para sempre” que carece da visão de longo prazo que sua política energética alega possuir.

7 - Executivos Industriais x Bush

Michael Bowlin, Diretor-Presidente, ARCO (hoje BP), Houston, TX, 9/2/1999:
“Entramos no início dos últimos dias da era do petróleo... Se não abraçarmos o futuro e reconhecermos a demanda crescente por uma vasta gama de combustíveis e, ao invés, ignorarmos a realidade, então lenta – mas seguramente – ficaremos para trás.”

Robert Purcell, Diretor Executivo da IBM, Reunião de 2000 da Associação Nacional de Petroquímicas e Refinarias, maio de 2000:
“Nossa visão de longo prazo é de uma economia do hidrogênio.”

Frank Ingriselli, Presidente, Texaco Technology Ventures, Washington, DC, 23/4/2001:

"As forças do mercado, o verde e as inovações estão determinando o futuro da nossa indústria e nos impulsionando inexoravelmente em direção à energia do hidrogênio. Aqueles que não a buscarem... irão se arrepender.”

George W. Bush, candidato à Presidência, Pontiac, MI, 13/10/2000:
"Não importa quão avançada seja nossa economia, não importa quão sofisticados sejam nossos equipamentos, sempre dependeremos dos combustíveis fósseis."

Fonte: www.wwiuma.org.br

Sistema energético do século XX é incompatível com a economia digital

Estudo apela para maior uso da microenergia.

Seth Dunn*

As gigantes usinas modernas, tanto nucleares quanto a carvão, não estão conseguindo fornecer a eletricidade confiável, de alta qualidade, necessária para mover a nova economia digital, de acordo com um relatório do WWI-Worldwatch Institute, uma organização de pesquisa com sede em Washington-DC. Interrupções no fornecimento de energia devido à vulnerabilidade das usinas centrais e das linhas de transmissão, custam aos Estados Unidos até US$ 80 bilhões anualmente.

"Estamos no limiar do século XXI com um sistema energético que não pode conduzir nossa economia na direção necessária," declarou Seth Dunn*, autor de Micropower: The Next Electrical Era." "O tipo de energia de alta confiabilidade necessária para a economia atual só poderá se fundamentar numa nova geração de aparelhos de microenergia que estão chegando ao mercado. Estes permitem que lares e empresas produzam sua própria eletricidade, com muito menos poluição."

As novas tecnologias de microenergia, que incluem células de combustível, microturbinas e telhados solares, são tão minúsculas que chegam a um milionésimo do porte das usinas nucleares ou a carvão de hoje – gerando pouca ou nenhuma da poluição atmosférica dos seus primos maiores. Já, o potencial multibilionário do mercado da microenergia provocou uma corrida dos investidores, cujas compras fizeram disparar os preços das ações das novas empresas no início do ano.

Um grupo de tecnologias de microenergia gera eletricidade por combustão. Motores de movimento alternado, que tradicionalmente utilizavam óleo diesel, amplamente utilizados como apoio, são cada vez mais movidos a gás natural, operando durante a maior parte do dia. As microturbinas – turbinas de gás avançadas, derivadas dos motores a jato dos aviões – estão apenas começando a ser produzidas em massa, embarcadas às centenas e instaladas em lanchonetes, restaurantes e outros prédios comerciais nos Estados Unidos. Motores Stirling, que podem funcionar com aparas de madeira e até mesmo calor solar, estão se tornando populares nos lares europeus.

Outros sistemas microenergéticos dependem de processos que não envolvem combustão. As células de combustível são dispositivos eletroquímicos que combinam hidrogênio e oxigênio para produzir eletricidade e água. Várias centenas de células de combustível já funcionam em todo o mundo e estarão disponíveis comercialmente para uso doméstico nos próximos dois anos.

Células solares, ou fotovoltáicas (PV) que utilizam a luz do sol que incide em chips semicondutores para gerar corrente elétrica, já foram introduzidas no mercado doméstico e de prédios comerciais no Japão e na Alemanha, e em uso fora de rede nos países em desenvolvimento. A energia eólica, a tecnologia de energia renovável mais competitiva em termos de custo, está pronta para uma rápida expansão nas planícies rurais e áreas "off-shore." Pequenos sistemas geotérmicos, microhidráulicos e de biomassa também desempenham papéis importantes no sistema de eletricidade descentralizada emergente.

Esses geradores de pequena escala têm inúmeras vantagens em comparação às grandes usinas elétricas. Localizados próximos ao pontos de consumo, unidades pequenas podem proporcionar uma economia de milhões de dólares aos usuários, evitando novos e dispendiosos investimentos em usinas elétricas centrais e sistemas de distribuição.

A microenergia poderá também economizar milhões de dólares às famílias e negócios, através da redução dos apagões e conseqüente perda de produtividade. Uma rede de eletricidade com vários geradores pequenos é intrinsecamente mais estável do que uma rede servida por apenas poucas usinas de grande porte. Bancos, hospitais, restaurantes e agências dos correios estão entre os primeiros usuários de sistemas de microenergia, como forma de reduzir sua vulnerabilidade à interrupções de energia. O First National Bank of Omaha, em Omaha, Nebraska, por exemplo, reagiu a uma queda que lhe causou vultosos prejuízos à rede de computação em 1997, conectando sua central de processamento a duas células de combustível que proporcionam 99,9999% de confiabilidade.

O uso de sistemas de microenergia mais eficientes, com base em combustão, dependendo principalmente do gás natural, reduzirá significativamente as emissões de particulados, dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e metais pesados. Essas reduções variarão entre 50 a 100 por cento, a depender da tecnologia e do poluente.

O uso de energia eólica, solar e de células de combustível alimentadas a hidrogênio também pode ajudar a reduzir as emissões globais de dióxido de carbono, um terço das quais provêm da geração de eletricidade. Nos Estados Unidos, a adoção generalizada da microenergia poderá reduzir à metade as emissões de dióxido de carbono das usinas norte-americanas. Nos países em desenvolvimento, a energia em pequena escala poderá diminuir as emissões de carbono em 42 por cento, em comparação aos grandes sistemas.

A microenergia proporcionará aos países em desenvolvimento a oportunidade de saltarem diretamente para fontes energéticas mais baratas e limpas, ao invés de construírem mais usinas a carvão ou nucleares e estenderem as linhas de transmissão existentes. Muitos desses países perdem o equivalente a 20 – 50 por cento da energia total gerada, através de escapes em seus sistemas de transmissão e distribuição. Nas regiões rurais, onde 1,8 bilhões de pessoas ainda não têm acesso aos serviços de eletricidade, sistemas em pequena escala já são economicamente superiores à extensão das linhas de transmissão – e ambientalmente preferíveis à dependência contínua de lanternas a querosene e geradores a diesel. Até o momento, sistemas solares PV foram instalados em mais de meio milhão de lares.

A despeito dos benefícios potenciais da microenergia, as regras atuais de mercado na maioria dos países favorecem a manutenção do modelo centralizado. Ademais, muitas concessionárias elétricas vêem os sistemas de microenergia como uma ameaça econômica e estão dificultando a implantação, através de taxas onerosas de ligação e preços baixos para a energia alimentada à rede. A permanência dessas regras e práticas poderá resultar na construção de outra geração de grande usinas elétricas parcialmente aperfeiçoadas, porém, a longo prazo de valor questionável tanto em termos ambientais quanto econômicos.

O tanto que os mercados energéticos atuais favorecem soluções míopes é realçado pela pressa na construção de aproximadamente 100.000 megawatts de "usinas mercantes" em todo o mundo. Estas grandes usinas a gás, comercializadas como a resposta às faltas de energia, são projetadas para ganhar dinheiro com a venda de energia em mercados de energia recentemente desregulamentados, quando a demanda e os preços estiverem altos. Todavia, causam preocupações graves entre os investidores em virtude do grau de risco financeiro, e entre grupos locais por seus impactos ecológicos adversos – pois muitos se localizam em áreas rurais ou primitivas.

O risco de se fixar em usinas elétricas centrais obsoletas é ainda maior no mundo em desenvolvimento. Nos próximos 20 anos, cerca de US$ 1,7 trilhões estão projetados para investimentos de capital em capacidade geradora nos países em desenvolvimento. "Essas nações têm uma oportunidade de ouro para acertar as regras logo de primeira e organizar mercados que dêem sustentabilidade à sistemas adequados ao século XXI e não ao XX," conclui Dunn.

* Seth Dunn é pesquisador do World Watch Institute - www.wwwiuma.org.br