Estudo do regime de chuvas no país revela ameaça aos ‘rios voadores’ provocada pelo desmatamento e pelas queimadas

Rios voadores são cursos de água atmosféricos, invisíveis, que transportam umidade e vapor de água da bacia Amazônica para outras regiões do Brasil. São mananciais silenciosos que mantêm o Brasil vivo, enquanto cresce a ameaça nos últimos redutos de mata virgem do país.

25 de dezembro de 2.012 - Desde os anos 80, o suíço Gérard Moss e sua esposa Margi viajam pelo Brasil e pelo mundo em aviões leves.

Veem o mundo de cima, e já perceberam a fragilidade dos rios diante do avanço da desertificação, das feridas abertas pelas queimadas nas florestas, os povos tornando-se refugiados ambientais.

Eles resolveram agir. O portal suíço Swissinfo publicou, neste domingo, o vídeo com as melhores imagens captadas durante os vôos do casal. O termo ‘rio voador’ descreve com um toque poético um fenômeno real que tem um impacto significante.

As queimadas e o desmatamento são a maior ameaça à vida na Região Amazônica e ao regime de chuvas no sudeste, centro-oeste e sul do país

Veja o vídeo

"Eu adoro a natureza e adoro essa história desse contato com a atmosfera. Então quando chove acho o máximo cair a água olhar aqui e imaginar qual que é a história dessa molécula que é a água que está aqui nessa gotinha.

A pergunta que nós estamos muito preocupados é o que vai acontecer com a chuvas no centro-oeste, sul e sudeste do Brasil se alterar a cobertura vegetal da Amazônia; praticamente metade da chuva que ocorre na Amazônia vem de vapotranspiração local e qual vai ser o impacto que isso vai ter na história que as moléculas de vapor d'água vão contar, se ela saiu do oceano ou saiu da evaporação da floresta.

Esse processo é fundamental que é a forma como aquele vapor da água que saiu lá de baixo da superfície chegou aqui na nuvem e foi cuspido lá a 1.500, 2.000, 3.000, 5.000 metros de altitude."

Prof. Dr. Pedro Leite da Silva Dias
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP)

O regime de chuvas na Região Amazônica é, também, alvo de estudos de outros cientistas no mundo. Cerca de 30 pesquisadores do Laboratório Misto Internacional Franco-Brasileiro Observatório das Mudanças Climáticas (LMI-OCE) participaram do projeto Clim-Amazon para conhecer o regime de chuvas na Bacia do Rio Amazonas nos últimos 10 milhões de anos.

O estudo, dura quatro anos e é financiado exclusivamente pela União Europeia (€ 2 milhões), com o objetivo de observar os sedimentos encontrados no leito e no fundo de várias partes do Rio Amazonas, desde a nascente nos Andes até a foz no Oceano Atlântico. Os sedimentos se deslocam, entre outras formas, pela força da chuva que alimenta o rio. Os dados coletados pela observação dos sedimentos poderão indicar se houve variação climática no período.

– Será que o regime de chuva na Bacia Amazônica permaneceu constante nos últimos 10 milhões de anos ou será que houve mudanças? – questiona Roberto Ventura Santos, diretor de geologia e recursos minerais do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e professor do Laboratório de Geocronologia da Universidade de Brasília (UnB), em recente matéria publicada na agência brasileira de notícias ABr.

O pressuposto do trabalho é que a natureza não é constante e se desenvolve em ciclos. As características dos sedimentos (físicas, geoquímicas e isotópicas) revelam de onde eles vieram e quando. “A hipótese é que ocorreram variações climáticas e essas variações modificaram não só a quantidade, mas também a localização de onde vieram os sedimentos”, explica Ventura Santos.

Fonte: Correio da Manhã - Brasil das Águas

O regime de chuvas na Amazônia regula o clima no país

13 de maio de 2.011 - Boa parte das chuvas na parte mais populosa do país, o Sudeste, se explica pela presença da floresta amazônica, a milhares de quilômetros de distância.

Além de contribuir com o aquecimento global, os desmatamentos na Amazônia alteram as chuvas não só no Norte, mas no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

O caboclo amazonense tem um ditado: ‘a floresta faz chover’ e faz mesmo. O professor Manzi explica que as árvores liberam compostos orgânicos. Em contato com o ar, eles se cristalizam e fazem o vapor d'água das nuvens virar chuva.

“Então passa a ter uma simbiose da floresta que precisa da chuva ajuda na formação das nuvens que produzem chuva”, diz o pesquisador do Inpa, Antônio Ocimar Manzi.

A floresta não deixa por menos: os cientistas explicam que um metro quadrado de vegetação joga na atmosfera de seis a sete vezes mais água do que um metro quadrado de oceano. A água toda em cima da floresta não fica parada. Ela faz chover também no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

Segundo os cientistas, cerca de dez trilhões de metros cúbicos de água evaporadas no Oceano Atlântico chega à Amazônia. Parte vira chuva, o resto se junta com a grande umidade produzida pela vegetação e segue para a Cordilheira dos Andes, onde bate e volta em direção ao Sudeste. Essas correntes de ar extremamente úmidas são chamadas de rios voadores.

Os rios se formam de três a quatro vezes por mês, entre novembro e abril. O aguaceiro vive nos noticiários, como foi o caso na região serrana do Rio, no começo do ano.

O aviador e ambientalista britânico, Gerard Moss, criou um projeto que complementa os estudos dos meteorologistas sobre a influência dos rios voadores no clima do Brasil e na América do Sul.

O piloto transformou um monomotor em laboratório para coletar amostras. O coletor fica na janela e captura a umidade do ar que é condensada em gotas d`água ao passar por um tubo de vidro cercado de gelo seco.

Cientistas de várias instituições participam do projeto, e analisam as amostras dos rios voadores. Eles querem saber como é que as nuvens formadas pela floresta e as que vêm dos oceanos influenciam na produção dessas massas de ar úmido. O conhecimento pode tornar a previsão do tempo mais precisa.

“Dentro do corredor conseguimos anotar uma vazão, como se fosse uma vazão de um rio normal, de três mil metros cúbicos por segundo. Significa que você tem o rio do tamanho do rio São Francisco, que passou por São Paulo”, diz Gérard Moss.

Os modelos climáticos em geral mostram que a destruição da floresta diminuiria a quantidade de chuva na Amazônia, e afetaria o clima em boa parte do Brasil. “Mas não existe só esse resultado. Para Amazônia tem muita incerteza ainda. Há outros modelos do mesmo nível desses que projetam diminuição de chuvas, que também projetam aumento de chuva no futuro. São cenários possíveis, a gente não sabe o que está correto”, explica Manzi.

Podemos usar o tempo a nosso favor e adiar o aquecimento global, já que ele é uma mudança contínua que vai acontecendo e não um evento súbito como um terremoto. Mas para apostar no tempo é preciso manter a floresta em pé.

“Essa visão de futuro que todos nós queremos construir conjuntamente é uma visão de colocar o Brasil como o país da sustentabilidade. O futuro do planeta tem que passar pela sustentabilidade.”, diz o pesquisador do Inpe, Carlos Nobre.

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Fonte: Jornal da Globo