O crescimento urbano, o caos da cidade e a megalomania arquitetônica

 

 

 

O filósofo e antropólogo francês Olivier Mongin (foto) lança o livro "A Condição Urbana", sobre o futuro das cidades e alerta para o perigo da megalomania arquitetônica.

São Paulo, novembro de 2.009 - Aos 58 anos, o filósofo e antropólogo francês Olivier Mongin, diretor da conceituada revista Esprit, resolveu assumir a crítica do urbanismo contemporâneo, escrevendo um livro em defesa do espírito da urbe.

Ele esteve em São Paulo para uma palestra e o lançamento de A Condição Urbana - A Cidade na Era da Globalização (Estação Liberdade, tradução de Letícia Martins de Andrade, 344 páginas, R$ 49).

Assustado com o crescimento desordenado das cidades, Mongin alerta para a necessidade de uma "cultura urbana dos limites", reforçando a recomendação da professora de urbanismo Françoise Choay - ela defende que urbanização não é sinônimo de cidade e que a experiência de um lugar passa necessariamente por uma antropologia do corpo.

Em entrevista ao Estado, Mongin falou dessa urgência de aceitar a experiência urbana como corporal para reinventar o prazer de sentar nas praças, hoje tomadas por projetos arquitetônicos megalomaníacos.

Edificar, diz o pensador, é governar, não administrar, mas essa lição foi esquecida por quem projeta prédios na tela do computador. A nova cultura urbana, diz, marca uma ruptura com o urbanismo dos anos 1950 a 1970, que se confrontou com a moradia de massa e levou à construção de blocos e cidades de concreto. Hoje, segundo Mongin, deseja-se, antes de tudo, reencontrar o sentido do lugar, da experiência urbana, o que conduz à necessidade de uma luta pelos lugares "onde o espírito do urbano ainda faz sentido".

Falar isso num momento em que os governantes brasileiros estão contaminados pelo discurso da "global city", da cidade globalizada - especialmente o Rio de Janeiro como futura sede da Olimpíada - é quase um ato de subversão.

Sem medo de parecer subversivo, Mongin prossegue em sua crítica. De olho nos prédios do centro deteriorado de São Paulo, lembra que sua recuperação depende apenas de vontade política de seus governantes.

Citando o arquiteto Bruno Fortier, ele diz que qualquer governo que tente recolocar no centro a cidade terá de fazer reviver a natureza como o fez um dos seus ídolos, o falecido arquiteto colombiano Rogelio Salmona (1929-2007). Faltou dizer que Salmona, antes de tudo, livrou-se dos traços incômodos de um cosmopolitismo artificial que coloca o projeto arquitetônico - de estrelas como Frank Gehry, Santiago Calatrava e Rem Koolhaas - em primeiro plano.

Ele costumava dizer que a boa arquitetura está destinada a virar ruína. Já a má arquitetura nem isso vira. Simplesmente desaparece. Salmona, que trabalhou com Le Corbusier, livrou-se da visão eurocêntrica, desenvolvendo uma arquitetura que não desprezou o saber artesanal dos colombianos e usou de modo criativo materiais tradicionais como o tijolo aparente, dialogando sempre com a natureza local, como a de Bogotá, cidade que tomou forma - e jeito - graças à salvadora intervenção do arquiteto.

Curiosamente, Salmona não é citado no livro de Mongin, mas o francês promete para breve um ensaio sobre ele, que colocou a arquitetura colombiana no mapa ao valorizar a cultura e as tradições de seu país.

Os arquitetos que mais lhe interessam, revela Mongin, não são os que consideram o objeto arquitetônico único, autônomo, mas profissionais como Salmona, que permaneceu por toda a vida avesso à privatização dos espaços públicos.

O filósofo nem por isso menospreza nomes como o de Frank Gehry, que construiu em Bilbao um museu na deteriorada zona portuária da cidade do país basco espanhol. Mesmo o espanhol Santiago Calatrava, cuja obra arquitetônica ele define como "escultórica", não é alvo de suas críticas no livro.

O que ele lamenta é a perda do sentido da polis grega e da república cívica do Renascimento italiano, ou até mesmo das cidades recriadas pelos escritores - a Paris do surrealista Raymond Queneau, por exemplo - que não se resumem a construções e monumentos, mas sugerem cheiros, barulhos, vida pulsante, olhares sedutores, corpos que se cruzam. Mongin tem, enfim, nostalgia das experiência urbana multidimensional das cidades em que engenheiros-urbanistas dialogavam com artistas.

Não sem razão ele cita Louis Aragon, Julien Gracq e Michel Butor sempre que fala nos vínculos que os habitantes da urbe guardam com o corpo unificado da cidade. "Veja, vivemos hoje tempos difíceis, em que é quase impossível captar a essência da cidade como antigamente, porque a globalização nos obriga a pensar em termos de território e não na cidade do flâneur de Baudelaire, aquele que podia se confundir com a multidão e mudar o espaço público."

Essa Paris, segundo ele, desapareceu. Não é mais a capital do século 19 amada pelos poetas, mas uma cidade para ser analisada por sociólogos. Como homenagem póstuma a Claude Lévi-Strauss, recentemente falecido, Mongin lembra que o antropólogo foi um dos primeiros a falar em megacidades ao tratar, em Tristes Trópicos, das metrópoles marcadas pela ausência de relações humanas, "cidades-mundo" monstruosas, hoje em avançado processo de decomposição.

Ele cita um dado preocupante quando fala de megalópoles: quase três dezenas delas no ano 2015 serão de países menos desenvolvidos, obrigando urbanistas a pensar numa alternativa urgente para a metropolização, que obriga a cidades a se adaptar, a perder, enfim, sua feição original.

A cidade informe pode ser o futuro que nos espera, avisa Mongin, fornecendo outro dado espantoso: o crescimento demográfico traz com ele uma migração em massa para os centros urbanos, provocando com isso o enfraquecimento do Estado como poder integrador e disciplinar. Se há 20 anos 10% da população mundial vivia em cidades, hoje esse número chega a 55%.

Mais de 3 bilhões de pessoas estão na zona urbana. Como a globalização afeta diretamente os territórios, a fragmentação das cidades pede contra-ataques políticos, uma reconfiguração territorial que não passe apenas pelas teorias do holandês Rem Koolhaas, que cunhou o termo "cidade genérica" para definir a urbe fractal, aquela que repete o mesmo módulo estrutural de uma metrópole forjada em computador, contra o ideal da cidade européia.

"Koolhaas é irônico quando se refere aos defensores da cidade européia como modelo, mas o que podemos esperar das megacidades não-européias, além de certa anarquia política e insegurança, se não pensarmos em termos de reconfiguração, se ficarmos indiferentes diante da privatização do espaço público?", pergunta Mongin. "Não nos esqueçamos que os condomínios fechados, uma invenção americana, nos levou à paranóia, ao medo, à segregação, a uma cidade de caráter mórbido onde o convívio virou utopia".

A resposta continua depois de sua visita a Paraisópolis: "Lá, a linha de demarcação social é clara, brutal, e revela quanto a cidade sofreu com os efeitos de sua devastação". A favela paulistana é o exemplo que faltava. "Não dá para criar cidades felizes com projetos arquitetônicos esculturais e esquecer o básico, o espaço coletivo", observa, lembrando que a utopia urbana depende de uma única palavra: democracia.

Fonte: Antonio Gonçalves Filho, do Estadão.