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O crescimento urbano, o caos da cidade e a megalomania arquitetônica
O filósofo e antropólogo francês Olivier Mongin
(foto) lança o livro "A Condição Urbana", sobre o futuro das cidades e alerta
para o perigo da megalomania arquitetônica. Ele esteve em São Paulo para uma palestra e o lançamento de A Condição Urbana - A Cidade na Era da Globalização (Estação Liberdade, tradução de Letícia Martins de Andrade, 344 páginas, R$ 49). Assustado com o crescimento desordenado das cidades, Mongin alerta para a necessidade de uma "cultura urbana dos limites", reforçando a recomendação da professora de urbanismo Françoise Choay - ela defende que urbanização não é sinônimo de cidade e que a experiência de um lugar passa necessariamente por uma antropologia do corpo.
Em entrevista ao Estado, Mongin
falou dessa urgência de aceitar a experiência urbana como corporal para
reinventar o prazer de sentar nas praças, hoje tomadas por projetos
arquitetônicos megalomaníacos.
Falar isso num momento em que os
governantes brasileiros estão contaminados pelo discurso da "global city", da
cidade globalizada - especialmente o Rio de Janeiro como futura sede da
Olimpíada - é quase um ato de subversão. Citando o arquiteto Bruno Fortier, ele diz que qualquer governo que tente recolocar no centro a cidade terá de fazer reviver a natureza como o fez um dos seus ídolos, o falecido arquiteto colombiano Rogelio Salmona (1929-2007). Faltou dizer que Salmona, antes de tudo, livrou-se dos traços incômodos de um cosmopolitismo artificial que coloca o projeto arquitetônico - de estrelas como Frank Gehry, Santiago Calatrava e Rem Koolhaas - em primeiro plano.
Ele costumava dizer que a boa
arquitetura está destinada a virar ruína. Já a má arquitetura nem isso vira.
Simplesmente desaparece. Salmona, que trabalhou com Le Corbusier, livrou-se da
visão eurocêntrica, desenvolvendo uma arquitetura que não desprezou o saber
artesanal dos colombianos e usou de modo criativo materiais tradicionais como o
tijolo aparente, dialogando sempre com a natureza local, como a de Bogotá,
cidade que tomou forma - e jeito - graças à salvadora intervenção do arquiteto.
Os arquitetos que mais lhe
interessam, revela Mongin, não são os que consideram o objeto arquitetônico
único, autônomo, mas profissionais como Salmona, que permaneceu por toda a vida
avesso à privatização dos espaços públicos.
O que ele lamenta é a perda do
sentido da polis grega e da república cívica do Renascimento italiano, ou até
mesmo das cidades recriadas pelos escritores - a Paris do surrealista Raymond
Queneau, por exemplo - que não se resumem a construções e monumentos, mas
sugerem cheiros, barulhos, vida pulsante, olhares sedutores, corpos que se
cruzam. Mongin tem, enfim, nostalgia das experiência urbana multidimensional das
cidades em que engenheiros-urbanistas dialogavam com artistas.
Essa Paris, segundo ele,
desapareceu. Não é mais a capital do século 19 amada pelos poetas, mas uma
cidade para ser analisada por sociólogos. Como homenagem póstuma a Claude
Lévi-Strauss, recentemente falecido, Mongin lembra que o antropólogo foi um dos
primeiros a falar em megacidades ao tratar, em Tristes Trópicos, das metrópoles
marcadas pela ausência de relações humanas, "cidades-mundo" monstruosas, hoje em
avançado processo de decomposição. A cidade informe pode ser o futuro que nos espera, avisa Mongin, fornecendo outro dado espantoso: o crescimento demográfico traz com ele uma migração em massa para os centros urbanos, provocando com isso o enfraquecimento do Estado como poder integrador e disciplinar. Se há 20 anos 10% da população mundial vivia em cidades, hoje esse número chega a 55%.
Mais de 3 bilhões de pessoas
estão na zona urbana. Como a globalização afeta diretamente os territórios, a
fragmentação das cidades pede contra-ataques políticos, uma reconfiguração
territorial que não passe apenas pelas teorias do holandês Rem Koolhaas, que
cunhou o termo "cidade genérica" para definir a urbe fractal, aquela que repete
o mesmo módulo estrutural de uma metrópole forjada em computador, contra o ideal
da cidade européia. A resposta continua depois de sua visita a Paraisópolis: "Lá, a linha de demarcação social é clara, brutal, e revela quanto a cidade sofreu com os efeitos de sua devastação". A favela paulistana é o exemplo que faltava. "Não dá para criar cidades felizes com projetos arquitetônicos esculturais e esquecer o básico, o espaço coletivo", observa, lembrando que a utopia urbana depende de uma única palavra: democracia. Fonte: Antonio Gonçalves Filho, do Estadão.
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