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Dor, revolta, reflexão, estupefação, são muitos os sentimentos, emoções que o gesto de Franselmo causou em todos os que estão atentos à profundidade dos acontecimentos que ocorrem em nosso País, mais do que nos eventos supérfluos, no verniz de fatos que são apenas rotina e que não mudam nada no contexto geral. Francisco Anselmo de Barros, tem um longo passado de lutas em defesa da Natureza e especialmente do Pantanal.
Era Jornalista,
Presidente da Fuconams (Fundação para Conservação da Natureza de Mato Grosso do
Sul), uma das primeiras entidades de defesa do meio ambiente do país,
articulador da criação e conselheiro da A.M.E. (Associação Mato-Grossense de
Ecologia), primeira entidade ambientalista do Estado de Mato Grosso, membro
fundador do Conama (Conselheiro Nacional de Meio Ambiente) e do CECA (Conselho
Estadual de Controle Ambiental). A adjetivação do gesto de Francisco Anselmo de radical não comporta muita análise, porque na "raiz'" de sua definição, radical é tudo aquilo que não admite meio termo, não admite "jogo de cintura", não admite "termos de ajustamento de conduta", como assim há de ser para muitas das questões que se nos deparam nesta vida. Não há insensatez em todos os atos radicais, só porque assim o são. Uma coisa pode não ter nada a ver com a outra, depende do que ela significa, do que afinal se está tratando. O gesto de violência contra a própria vida de Francisco Anselmo nada teve de insensato. Muito pelo contrário. Os radicais da devastação e da insustentabilidade ambiental apadrinhados pelos agentes públicos servis do poder econômico, por ignorância e má fé, é que são os insensatos, pelas óbvias razões de que não medem esforços para a contínua exploração dos recursos naturais, em nome apenas da ideologia do crescimento e do acúmulo de mais e mais dinheiro, sempre nas mãos de poucos. O gesto de Francisco Anselmo foi um acontecimento gravíssimo e não só os ambientalistas, os engajados, os que estão correndo riscos em todos os dias, precisam ficar atentos e olhar à sua volta, para os companheiros, tentar ler em seus rostos, ver os seus gestos, olhar nos seus olhos, para saber como andam as coisas no interior de cada um. E olhar para si mesmos também. Até quanto e quando poderão suportar. Cuidar dos outros e de si próprios. O momento é difícil, muito difícil. Os alertas são sucessivos, todos os dias, repetitivos até, mas os ouvidos são moucos, grita-se para uma platéia de surdos, inclusive a própria mídia dita "tradicional", encastelada e viciada no supérfluo, no que atende ao gosto das massas, essas manipuladas como massas mesmo, de pão e de pizza. Não há registro na história do país de um gesto como o de Francisco Anselmo, de uma manifestação extrema de amor à vida, à natureza, ao tudo que ela significa para os humanos e para a vida na Terra, em todas as suas formas, mostrando e alertando que se mata um pouco, todos os dias, a vida na Terra. Muitos outros gestos se viu no planeta semelhantes, mas não temos registros de como se pode chegar à defesa ambiental da forma como chegou Francisco Anselmo. Quem acompanhou a americana que morou meses em uma sequóia para impedir o corte das árvores gigantescas, pessoas que se amarraram em árvores, a luta de Chico Mendes, as ações do Greenpeace de grande risco nos mares para salvar baleias, mobilização de comunidades para salvar áreas verdes, pode entender um pouco do que aconteceu.
Como escreveu Arthur
da Távola,
Há mil e uma maneiras de crescer sem destruir e mesmo de criar empregos em
atividades de preservação e de agricultura, inclusive. Fico a imaginar a solidão
da ministra Marina Silva, diante de tudo o que a inconseqüência brasileira faz
em sua
área. Não suportou viver fora de uma sociedade sensível e espiritualizada que via esboroar-se diante dele em nome do progresso econômico a qualquer preço. Por mais que o suicídio jamais me pareça solução para qualquer mal da sociedade, considero, para o futuro do Brasil, o gesto do Francelmo de igual significado ao de Kawabata: lamentável e doloroso. Mas heróico. Os ambientalistas também são poetas panteístas. Escrevem seu amor à natureza ajudando a preservá-la. Por amor à vida".
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