Abate "humanitário"
Instrutores de ONG internacional visitam frigoríficos do país
para ensinar técnicas de abate "humanitário"
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Foto: Marlene Bergamo/Folha
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Funcionários
do frigorífico Aurora, em Chapecó (SC), observam instrutores da ONG
WSPA durante orientação de técnicas de abate "humanitário" em suínos
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Chapecó (SC),
setembro de 2.009 - Tão logo põe a cabeça para fora do túnel escuro e apertado
que o conduz rumo ao amplo salão iluminado, o jovem adulto S., de cinco meses,
encara seu destino. Tem só cinco segundos antes que dois eletrodos despejem em
seu cérebro 1,3 ampère de eletricidade. Ele ficará inconsciente. O tempo é
curto, mas S. pode ver, logo abaixo, uma esteira rolante que leva os corpos de
seis outros adultos, jovens como ele. Da altura do coração de cada um, verte um
grosso jorro de sangue. S. é o próximo da fila.
A massa de ruídos supera os 110 decibéis. São gritos dos animais que estão atrás
na fila, barulhos de grossas correntes metálicas movimentando-se em carrossel,
de jatos de fogo subindo, de máquinas a pleno vapor.
Quando o corpo rosado de S., aproximados 115 kg, pernas dianteiras esticadas
-resultado da contração muscular provocada pela corrente elétrica-, desaba na
esteira rolante, encontra o operador de sangria. O homem de olhos azuis, todo de
branco como um cirurgião, empunha faca afiadíssima. Um golpe e todos os vasos do
coração estão seccionados. Leva um segundo.
O suíno ainda pedala -é o chamado movimento clônico. Não grita mais. Pupilas
dilatadas, S. olha para o nada.
O instrutor José Rodolfo Panin Ciocca toca na córnea do animal. Ele não reage.
"Está insensibilizado, estão vendo?", diz Ciocca, que é zootecnista, a uma
plateia atenta de 20 homens e mulheres. Para se certificar, aperta o focinho em
forma de tomada e dá beliscões na orelha -sem resposta do corpo que sangra.
Todos os dias, o frigorífico Aurora, em Chapecó, no oeste catarinense, abate
4.500 suínos, que, em poucas horas, se transformam em quilômetros de linguiças e
salsichas, toneladas de fatias de bacon, presuntos, mortadelas, costelas
defumadas, pertences de feijoada -384 toneladas diárias de produtos
industrializados. E carcaças inteiras, voltadas principalmente para a
exportação.
O rico mercado europeu é o alvo mais cobiçado. O Brasil nunca foi habilitado
para vender carne para a Comunidade Europeia. Ora o argumento era a sanidade da
carne. Ora, o preço. Ora, o jeito como os animais são tratados.
Mas isso pode mudar. No dia 20 de outubro, chega a Santa Catarina uma equipe de
auditores europeus. Objetivo: avaliar como é produzida a carne suína por aqui e,
quem sabe, dar ao país o diploma nunca antes alcançado: exportador para a
Europa. O frigorífico Aurora, que representará toda a suinocultura brasileira,
precisa chegar ao tal "Dia D" dominando toda a teoria e a prática exigidas pelos
examinadores.
O instrutor José Rodolfo Panin Ciocca, de que se falou acima, trabalha para a
Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla inglesa), ONG de 28 anos e
presente em 156 países. Desde o início do mês, uma força-tarefa de veterinários
e zootecnistas especialistas em bem-estar animal a soldo da WSPA (entre os quais
Ciocca) está dentro das fábricas.
A proverbial desconfiança que sempre existiu entre as entidades de proteção e a
indústria de proteína animal rompeu-se graças a um convênio firmado há um ano
entre a entidade e o Ministério da Agricultura. Com o aval do ministério e o
interesse nos mercados externos, ficou mais fácil para a WSPA entrar em
territórios antes vetados, como eram os abatedouros e os frigoríficos.
"Todos os anos o Brasil abate 40 milhões de bovinos, 30 milhões de suínos e de 4
a 5 bilhões de frangos. São números gigantescos, que poderão ser duplicados,
triplicados ou quadruplicados em pouco tempo. E isso só depende de conquistarmos
novos mercados. Porque tecnologia para produzir nós já temos. Mão de obra, terra
e água também", diz o veterinário Nelmon Oliveira da Costa, diretor do
Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Ministério da
Agricultura.
"Na virada do século 19 para o 20, firmaram-se os padrões quanto à qualidade
sanitária da carne. Depois, vieram os requisitos quanto à qualidade
organoléptica [cor, sabor, odor, textura].
Agora é a vez da valorização da "qualidade ética da carne", que inclui o
bem-estar dos animais, desde a criação até o abate, além da sustentabilidade
ambiental", diz Eliana Renuncio Bodanese, 38, assessora técnica corporativa da
cooperativa Aurora. "Não está escrito em lugar nenhum que um animal tenha de
sofrer para morrer", afirma ela.
Até o fim do mês que vem, 60 trabalhadores líderes de equipes da Aurora, dos
abatedouros de suínos e de aves, receberão treinamento da WSPA. Depois, eles
retransmitirão essas práticas a seus subordinados. No total, 700 frigoríficos de
Santa Catarina, do Paraná, do Rio Grande do Sul e de São Paulo receberão a
equipe da WSPA para treinamento.
A veterinária
Charli Ludtke, 33, coordenadora do projeto de abate humanitário pela WSPA, já
escutou um sem-número de vezes a pergunta: "Para que dar bem-estar ao animal que
vai morrer?". "Sempre respondo: "Se você soubesse que vai morrer hoje, você
preferiria morrer sob tortura, agonizando, ou calmamente, sem dor?". A obviedade
da resposta é o que nos anima a prosseguir."
Fonte: Folha de
São Paulo
