Guerra surda no licenciamento
ambiental das hidrelétricas do Madeira
Brasília, maio de 2.007 -
Avaliação de impacto ambiental do projeto de instalação das duas usinas
hidrelétricas no principal afluente do Rio Amazonas vem sendo objeto de disputa
dentro do governo federal. Recente decisão do Ibama pedindo mais informações
para decidir sobre a licença enfureceu dirigentes do Ministério de Minas e
Energia, de Furnas e da Odebrecht, que há meses pressionam o órgão pela
concessão da licença. Impactos da obra podem afetar a Bolívia e o Peru e alterar
de forma significativa a dinâmica socioambiental de grande parte da Bacia
Amazônica.
Há pelo menos três meses, uma verdadeira batalha entre ministérios começou
dentro do governo federal. O Ministério de Minas e Energia (MME) e sua tropa – a
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Empresa de Pesquisa Energética
(EPE) – vinham pressionando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama), por todos os meios disponíveis e com o
apoio explícito da grande imprensa, pela concessão da licença ambiental dos
aproveitamentos hidrelétricos de Jirau e Santo Antônio.
O próprio ministro Silas Rondeau
mais de uma vez declarou publicamente que já estaria “tudo certo” para a emissão
da licença ambiental, tendo inclusive mencionado datas para seu anúncio oficial.
Mas não era bem isso. Sabia que a posição da equipe técnica do Ibama e de
funcionários graduados do Ministério de Meio Ambiente (MMA) não autorizava
adotar posição tão otimista. Por isso, a questão foi parar no “colo” do
presidente da República, como ele próprio afirmou durante reunião do Conselho
Político do governo, há duas semanas. O problema: os bagres do Rio Madeira. Mas
não só.
Impactos continentais
A Bacia Hidrográfica do Rio Madeira representa 23% de toda a Bacia Amazônica,
contribuindo com cerca de 15% do volume de água despejado continuamente pelo Rio
Amazonas no Oceano Atlântico. Por ter suas cabeceiras situadas aos pés dos
Andes, na Bolívia e no Peru, região de relevo geologicamente recente e em
processo milenar de erosão, tem uma característica bastante peculiar que é a
grande quantidade de sedimentos que carrega. Segundo o Estudo de Impacto
Ambiental (EIA-Rima) dos projetos hidrelétricos, “o Madeira é um rio
extremamente barrento durante a maior parte do ano, sendo sua carga de
sedimentos transportados estimada entre 500 e 600 milhões de toneladas/ano na
foz (Martinelli et al., 1989), constituindo-se no principal contribuinte (mais
de 50%) da carga de sedimentos transportada pelo rio Amazonas”. E é justamente
por esses aspectos, pela importância que o Madeira tem para a conformação das
características físico-químicas do Rio Amazonas, que a análise da viabilidade
ambiental da obra é bastante complexa. Alterações em suas condições naturais
podem significar impactos de ordem ambiental, econômica e social milhares de
quilômetros rio abaixo.
Mas, como é de praxe no licenciamento ambiental de grandes obras, o EIA
subestimou ou minimizou a possibilidade de ocorrência desses impactos. Pelo
menos foi essa a conclusão a que chegaram os pareceristas do Ibama e um grupo de
especialistas contratado pelo Ministério Público do Estado de Rondônia (MPE-RO)
para avaliar a qualidade e as conclusões dos estudos entregues por Furnas e
Odebrecht.
Segundo avaliação feita por um dos integrantes do grupo, Bruce Forsberg,
pós-doutorado em Ecologia de Sistemas e professor do Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia (Inpa), os estudos teriam se utilizado de uma metodologia
equivocada para avaliar a área alagada, o que poderia ter subestimado o
resultado final de seu cálculo. De acordo com o cientista, ela pode ser na
realidade o dobro do apontado pelos empreendedores – passando de 270 para 530
quilômetros quadrados no caso da usina de Santo Antônio. E não pára por aí. A
região é, há muitos anos, alvo de intensa exploração clandestina de ouro, e por
essa razão já existem nas águas do Madeira e de seus afluentes grandes
quantidades de mercúrio acumulado, apontando para o perigo de o represamento
potencializar a contaminação humana por modificar as condições químicas da água.
E isso poderia gerar um grande problema de saúde pública. Só que o EIA não fez
qualquer projeção sobre esse aspecto.
Outro ponto crítico da obra é sua capacidade de influenciar negativamente a
dinâmica natural de transporte de sedimentos do rio, o que pode trazer problemas
de diversas ordens, como o comprometimento da vida útil do aproveitamento
hidrelétrico pelo acúmulo de areia no lago da barragem, o aumento da erosão das
margens da futura represa e do próprio rio. O próprio EIA confirma que “o
assoreamento dos reservatórios pode trazer algumas conseqüências importantes ao
meio ambiente e à economicidade dos empreendimentos. O material depositado pode
alcançar o circuito hidráulico de geração, criando dificuldades operativas e
comprometendo a durabilidade dos equipamentos.”
Para Philip Fearnside, renomado ecólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia (Inpa) e profundo conhecedor da dinâmica natural da Bacia Amazônica, o
empreendimento pode afetar a principal fonte do peixe pirarucu para Porto Velho,
pois a retenção dos sedimentos pode implicar na "desnutrição" de vários lagos de
várzea a montante. Em seu parecer feito ao Ministério Público Estadual de
Rondônia, ele afirma que “nem a Reserva Extrativista Cuniã nem qualquer outra
Unidade de Conservação a jusante das represas foi considerada no EIA-RIMA (...).
[São necessários] estudos para estimar as mudanças sobre o suprimento de
sedimentos e nutrientes aos lagos de várzea.”
Mas talvez a questão que mais vem causando polêmica – e que aponta para a
dimensão regional das possíveis conseqüências socioambientais do projeto – é o
impacto que o barramento do rio poderia causar sobre a reprodução dos grandes
peixes migradores, que saem do Baixo Amazonas para se reproduzir nas cabeceiras
do Madeira, na Bolívia e no Peru. Segundo Ronaldo Barthem, do Museu Emílio
Goeldi, e Michael Gouding, do Inpa, ambos especialistas em peixes amazônicos, a
construção da usina pode afetar a pesca na foz do Amazonas, milhares de
quilômetros abaixo. “O bloqueio do rio não impede apenas a subida dos peixes
migradores. A reprodução dos peixes pode ser comprometida quando houver algum
impedimento que limite a descida dos ovos e larvas para os trechos a jusante.
(...) Se a produção de ovos/larvas for proporcional à vazão do rio ou descarga
de sedimentos, o rio Madeira teria uma importância quase igualitária com o
Amazonas e uma interrupção da descida de jovens peixes poderia agravar
dramaticamente o efeito da sobrepesca no crescimento desses estoques no
estuário. A pesca no estuário tem uma importância social e econômica muito
grande, sendo um dos poucos lugares que se mantém uma exportação regular de
pescados amazônicos".
Por questões como essas, o Ibama anunciou ao MME, logo no início do ano, que
dificilmente seria possível avaliar a viabilidade ambiental das usinas, pois
informações básicas sobre a dinâmica da bacia não haviam sido apresentadas.
Algumas, talvez, ainda nem existam. A partir daí, começou uma verdadeira
via-crucis interna no governo federal, que terminou no gabinete da Presidência
da República. Instigado pela Casa Civil, o presidente Lula não se conformava com
a possibilidade de que a obra não fosse autorizada. E pode-se imaginar o porquê:
vedetes da área de energia do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Santo
Antônio e Jirau poderiam produzir juntas 6.450 MW, 14% de toda a energia nova
que o País pretende gerar até 2015. Embora os estudos de viabilidade econômica
ainda não tenham sido aprovados, sabe-se que sua construção consumiria, no
mínimo, R$ 20 bilhões.
Uma obra com essas dimensões, na visão do MME e da Casa Civil, não poderia ser
simplesmente rejeitada. Teria de haver alguma solução. Por essa razão, começaram
a desqualificar a equipe técnica do Ibama, afirmando ser excessivamente
“cautelosa” e inexperiente. Com base nesse argumento, adiaram a publicação da
decisão de não conceder a licença e foram consultar especialistas de fora do
governo, acreditando que poderiam reverter a posição técnica do órgão ambiental.
A situação gerou desgastes entre os ministérios, pois enquanto MME e Casa Civil
desqualificavam a análise técnica realizada, o MMA defendia o Ibama.
O primeiro especialista consultado pelo MME, Carlos E. M. Tucci, no entanto,
reafirmou boa parte dos argumentos do Ibama. Ressaltando a falta de informações
sobre aspectos cruciais, como os impactos a jusante e a possibilidade de
inundação do território boliviano, concluiu: “Considerando que a magnitude dos
empreendimentos hidrelétricos do Rio Madeira, que envolvem investimentos
superiores a R$ 20 bilhões e um dos principais fatores de risco ambiental e a
funcionalidade operacional é a gestão dos sedimentos, onde existem importantes
incertezas de estimativas, é recomendável que seja criado um painel de
especialistas mundiais para que se tenha certeza que o melhor conhecimento
existente está sendo utilizado, além de dar maior independência quanto aos
potenciais questionamentos internacionais sobre a influência do empreendimento
no território boliviano e aos impactos ambientais sobre um importante rio da
Amazônia”.
Mesmo com esse parecer, a pressão sobre o Ibama não foi amenizada e o ministro
Silas Rondeau continuava afirmando que a licença sairia em questão de dias. Como
o MMA não retrocedia em seu posicionamento, a Casa Civil passou a pedir a cabeça
do diretor de Licenciamento Ambiental do Ibama, Luiz Felipe Kunz Júnior. No
final de março, no entanto, o diretor expediu despacho em que afirmou ser
impossível, no momento, emitir a licença prévia da obra. Ele, porém, não aceitou
na íntegra o parecer de sua equipe técnica, por julgar que não seria necessária
a realização de um novo EIA, como sugerido.
Estranhamente, o parecer veio a
público apenas na semana passada, um mês depois de pronto, porque vazou para um
site de notícias. Para a Casa Civil, foi a gota d´agua. Desde a divulgação do
documento, as críticas à atuação do Ibama aumentaram em razão exponencial.
Fazendo coro ao presidente da República, o ministro Silas Rondeau fez
declarações duras, dizendo que o País teria de apelar para a energia nuclear ou
termoelétricas caso as usinas no Madeira não saíssem. Comentaristas econômicos
dos grandes jornais deploraram o posicionamento do Ibama, apontando os possíveis
impactos na aceleração do crescimento nacional. Mas ninguém comentou o conteúdo
da decisão.
Ontem, 3 de maio, em Uberlândia, (MG), o presidente Lula em discurso reforçou as
declarações de Rondeau sobre apelar para a energia nuclear caso persistam os
obstáculos às hidrelétricas.
O problema é o projeto?
As dúvidas quanto à viabilidade ambiental e mesmo econômica do projeto vêm
crescendo ultimamente. De acordo com Artur Moret, doutor em Planejamento
Energético e professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir), o EIA foi
feito às pressas e as usinas do Madeira refletem uma opção deliberada do governo
Lula por grandes obras. Moret é um dos coordenadores do movimento Viva o Rio
Madeira Vivo e foi um dos pesquisadores convocados pelo MPE-RO, cujas análises,
segundo Moret, envolveram pesquisas de campo, ao contrário daquelas encomendadas
pelo MME, feitas apenas sobre fontes secundárias. Moret também aponta
ambigüidade de um dado importante: o EIA ora falaria em 3 mil, ora em 15 mil
pessoas atingidas pelos projetos.
Enquanto não se decide se novos estudos serão feitos, a pressão sobre o Ibama
continua. Com a recente reformulação do MMA, Luiz Felipe Kunz Júnior será
exonerado. A presidência da autarquia vem sendo disputada por partidos da base
aliada do governo, com incentivo da Casa Civil. O MME continua anunciando que o
leilão das hidrelétricas será em junho, embora Kunz garanta que a análise do
estudo vai continuar, que não há prazo para a concessão da licença e tampouco
uma posição predefinida do Ibama sobre o assunto.
A decisão final sobre o licenciamento das hidrelétricas do Madeira será um ponto
de inflexão na política ambiental do governo Lula. Se MMA e Ibama conseguirem
garantir que uma avaliação ambiental adequada seja feita à luz do princípio da
precaução, mesmo que isso implique na modificação estrutural do projeto ou na
sua eventual rejeição, então a matriz ambiental do PAC começará a ser
preenchida. Caso o poderoso lobby das construtoras grite mais alto e imponha à
sociedade um projeto qualquer, apenas por que ele existe, e sem levar em
consideração a magnitude dos impactos previstos no mais importante rio da Bacia
Amazônica, pode-se até imaginar que o País venha a crescer, mas não se
desenvolver.
Fonte: Por Raul Silva Telles do Valle,
do ISA - Instituto Socioambiental
