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A Amazônia Perdida
Texto de José Ribamar Bessa Freire, em resposta a artigo de Hélio Jaguaribe
"No puede Oviedo decir cosa chica ni grande, porque no fué digno de lo ver ni de
lo entender" (Bartolomé de Las Casas, Historia de las Indias, T. V, p.116).
Manaus, 25 de fevereiro de 2.007 -
Nessa segunda-feira de carnaval, milhões de foliões, despreocupados com os
destinos da pátria, caíram irresponsavelmente no samba, enquanto um compenetrado
patriota permanecia “alerta e vigilante”. Seu nome: Hélio Jaguaribe, o HJ. Ele
não sambou. Ficou de prontidão, como sentinela da nacionalidade na guarita do
Rei Momo.
Graças ao seu plantão cívico/carnavalesco “descobriu”, entre um uísque e outro,
“estarrecido”, que estão roubando a Amazônia do Brasil. Escreveu, então, um
artigo denunciando os que, na sua visão miopesca, são os “larápios”, com dicas de
como recuperar o patrimônio subtraído.
"A perda da Amazônia", publicado segunda-feira na Folha de São Paulo, identifica
o tamanho do roubo. De saída, apresenta o inventário hiper-conhecido das
riquezas da região: a maior floresta tropical, a maior bacia hidrográfica e a
maior biodiversidade do mundo, reservas gigantescas de ferro, bauxita,
cassiterita, urânio, diamante e outros minerais. Todas essas riquezas – segundo
HJ – estão passando por um processo de "acelerada desnacionalização".
Quem são os agentes desse processo? Como atuam? É preciso ter muita coragem para
dar nome aos bois. Jaguaribe tem. Para ele, o Brasil está perdendo a Amazônia
porque foram feitas - quem diria! - "insensatas concessões de áreas gigantescas
a uma ínfima população de algo como 200 mil índios", que se tornaram donos de
"cerca de 13% do território nacional". Desassombrado, ele acusa os índios sem
medo de pegar, em represália, uma flechada na bunda, envenenada com curare.
O dedão dos gringos
Parece de um primarismo atroz, mas é isso mesmo que você leu: a culpa é dos
índios. Segundo HJ, eles são demograficamente inexpressivos, não possuem armas,
nem exércitos, mas são política e economicamente fortes, porque abocanham 13% do
território nacional, têm uma "lucrativa profissão com contas em Nova York e
telefone celular", além de poderosos aliados: as Ongs, as Igrejas e os
norte-americanos.
Na Amazônia, mais de cem Ongs – diz Jaguaribe – escondem atividades reprováveis
"sob a aparência de pesquisas científicas". Já a Igreja Católica "atua como
ingênua protetora dos indígenas", facilitando "indesejáveis penetrações
estrangeiras". Quanto às igrejas protestantes, seus "pastores improvisados são
concomitantemente empresários por conta própria ou a serviço de grandes
companhias".
HJ generaliza com extrema facilidade, sem citar fontes. Não hesita em recorrer a
desgastados chavões da direita nacionalistóide, quando revela as estratégias
para decepar a Amazônia e criar dentro dela várias pátrias: "O objetivo que se
tem em vista é o de criar condições para a formação de ´nações indígenas´ e
proclamar, subsequentemente, sua independência com o apoio americano". Portanto,
embora não diga em que consiste esse "apoio americano", fica claro que por trás
de tudo está o dedão dos Estados Unidos.
Diante de acusação tão grave, os leitores esperavam que HJ fosse conseqüente e
propusesse medidas para afirmar a soberania nacional, tais como: a criação de
mecanismos para fiscalizar as Ongs e as Igrejas, a modernização do Exército
brasileiro, a organização e mobilização popular contra o imperialismo americano,
a expulsão das multinacionais que desrespeitam as leis brasileiras, o protesto
do Brasil na ONU, um pedido de esclarecimento ao Governo Bush e, se necessário,
o rompimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos.
Mas nenhuma medida dessas foi pensada por HJ. Ele é bonzinho com os americanos e
com os empresários, com quem fala fino. A bronca dele é com os índios, com quem
engrossa a voz. No Brasil de HJ, não há lugar para o que ele denomina de
"culturas paleolíticas ou mesolíticas no âmbito de um país moderno". Por isso, a
única solução que apresenta é anular as "concessões gigantescas" de terras
indígenas e reduzi-las "a proporções incomparavelmente mais restritas". Se HJ
teme efetivamente a perda da Amazônia com "apoio americano" e, apesar disso, faz
carinho aos gringos, é porque nem ele mesmo acredita no que diz. Ou então não é
o patriota que pretende ser.
Sua proposta, na realidade, pretende liberar as terras indígenas para o
agro-negócio. Jaguaribe se entrega quando, entusiasmado, faz seus cálculos: "O
dendê, nativo da Amazônia e nela facilmente cultivável, constitui uma das
maiores reservas potenciais de biodiesel. Em apenas 7 milhões de hectares, numa
região com 5 milhões de km², é possível produzir 8 milhões de barris de
biodiesel por dia, correspondentes à totalidade da produção de petróleo da
Arábia Saudita". Ou seja, sem índios, é possível transformar a Amazônia num
gigantesco dendezal. Fica claro que a defesa da Amazônia aqui é apenas um
pretexto para justificar a ocupação das terras indígenas.
O perfil de HJ
Quem é, afinal, o autor de tal proposta, em que fontes se baseia e de que lugar
está falando? Hélio Jaguaribe, com 83 anos, formou-se em direito pela PUC do Rio
de Janeiro, lecionou em três universidades norte-americanas e nas Faculdades
Integradas Cândido Mendes. Publicou no Brasil e no exterior 33 livros e dezenas
de artigos, entre os quais um sugestivamente intitulado "A história é implacável
com os estúpidos". É o que Gramsci chamaria de um "intelectual orgânico".
Como é que um moço prendado, culto e com tanto prestígio, membro da Academia
Brasileira de Letras, pode ser tão ignorante e dizer tanta besteira quando fala
de índios? Acontece que HJ nunca colocou os pés numa aldeia, não fez qualquer
pesquisa de campo, e os seus livros não trazem sequer uma palavra sobre o
assunto, até porque essa não é sua área de conhecimento. Está encantado com a
biodiversidade da Amazônia e nem sequer suspeita que grande parte dela foi
construída pelas culturas indígenas. Não tem legitimidade, nem autoridade e nem
humildade científica para tratar do tema.
Ele podia ter consultado a vasta bibliografia etnográfica para não pagar o mico
de achar que as sociedades indígenas são "culturas paleolíticas", "atrasadas" e
"obstáculos à modernidade". Escreve sobre os índios, que não pesquisou,
cometendo a proeza de não citar sequer um só dos tantos estudos existentes nesse
campo. Por isso, não entende o significado do uso da tecnologia, como o telefone
celular, e acaba sendo desrespeitoso, leviano e impreciso, quando insinua que os
índios têm conta bancária em Nova York, sem citar o nome de nenhum deles.
Baseado apenas em relatórios da Agência Brasileira de Inteligência /ABIN,
Jaguaribe desdenha as fontes etno-históricas. Dessa forma, ignora o processo
histórico, quando considera impropriamente as terras indígenas como "concessões"
feitas aos índios, como uma dádiva, e não como o reconhecimento, pela
Constituição brasileira, de um direito e de uma situação existente antes mesmo
da formação do Estado nacional. Ninguém "deu" terras aos índios. O legislador
apenas reconheceu a terra deles. Seu pai, o general Francisco Jaguaribe de
Mattos sabia muito bem disso, pois foi – quanta ironia! – cartógrafo da Comissão
Rondon.
A imprecisão e a leviandade de HJ se refletem até na forma com que ignora os
dados oficiais. No seu afã de diminuir o tamanho das terras indígenas, reduz a
população a "algo como 200 mil índios", quando uma simples consulta ao Censo de
2000 realizado pelo IBGE mostraria a existência de 734.127 indivíduos, metade
dos quais vivendo em aldeias.
Pouco se conhece da atuação empresarial e partidária de HJ. Numa entrevista a
Kumasaka e Barros, ele contou como criou, em 1953, uma empresa privada, a Cia.
Ferro e Aço de Vitória, que presidiu por uma década. Depois foi viver nos
Estados Unidos. De regresso, fundou uma empresa multinacional latinoamericana,
que comercializa equipamentos, a LATINEEQUIP. Os dois empreendimentos contaram
com recursos de bancos públicos: o primeiro com apoio de Getúlio Vargas, o
segundo, do Banespa.
Presidente de um banco de investimento, HJ diz que é obrigado a realizar outras
atividades, porque aqui no Brasil "é impossível ou quase impossível se viver do
salário de professor universitário". Na entrevista citada, ele confessa que fica
estressado com essa situação de ser "empresário o dia todo, e de noite,
intelectual". Serviu ainda ao governo Sarney, que encomendou dele o Projeto
Brasil, e ao governo Collor, do qual foi Secretário da Ciência e Tecnologia,
sendo obrigado, para isso, a renunciar aos cargos partidários que tinha no PSDB,
partido que ajudou a fundar.
Talvez seja oportuno concluir, lembrando aqui dois renomados espanhóis do século
XVI, que registraram em livro sua experiência na América. O primeiro deles,
Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdez, foi prefeito de Santo Domingo, cronista do
rei e autor da ´Historia General de las Indias´, publicada em 1547. O segundo,
Bartolomé de las Casas, padre dominicano e bispo de Chiapas, no México, escreveu
´Historia de las Indias´, em cinco tomos. Mantiveram uma longa polêmica.
Oviedo, em sua obra, escreve que os índios são burros e de fraca memória. Las
Casas não perdoa e ironiza: "Como é que Oviedo sabe disso, se não conhecia
nenhuma língua indígena, não sabia o que os índios sabiam. Esse fato deve ter
sido inspirado a ele por revelação divina". E finaliza, advertindo: "Se na capa
do livro de Oviedo estivesse escrito que seu autor havia sido conquistador,
explorador e matador de índios e ainda inimigo cruel deles, pouco crédito e
autoridade sua história teria entre os cristãos inteligentes e sensíveis".
O que poderíamos escrever na capa dos livros de Hélio Jaguaribe? Sua biografia
está no site www.netsaber.com.br/biografias. Lá, as pessoas podem registrar o
que pensam dele. Nadel Brader escreveu: "Arrogante, preconceituoso e hipócrita".
Luciana Costa registrou: "Babaca. Um cara de mentalidade paleolítica". Sem
concordar com ofensas pessoais, suspeito que ambos resumiram o que muitos
pensam. De minha parte, digo apenas que a história será implacável com quem só
escreve de noite. Desconfia, leitor (a), dos que usam teus nobres sentimentos de
nacionalidade e do teu amor ao Brasil para atacar os índios. Estão querendo te
confundir. Não estão defendendo a pátria, mas seus interesses particulares.
Fonte:
http://www.taquiprati.com.br
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