Tribo indígena norte-americana luta nos tribunais pelo que acredita ser
a herança de seus ancestrais
Yuma, Arizona, agosto de 2.007 - Mike Jackson, líder dos índios quechan,
olhou para além do cassino de sua tribo e da moderna Yuma, apontando para a
região plana arenosa e para a cadeia montanhosa cor de ferrugem de Gila,
brilhando ao longe.
"Eles vieram dali", ele disse, descrevendo como seus ancestrais seguiram o curso
sinuoso do Rio Colorado e percorreram centenas de quilômetros do que atualmente
é o oeste do Arizona e o sudeste da Califórnia. "Há muita história importante
aqui, tanto para os quechans quanto para os Estados Unidos."
E se dependesse dele, tal história determinaria o futuro deste canto do Oeste,
uma das áreas que crescem mais rapidamente no país e um local onde empresas
estão cada vez mais se deparando com líderes nativo-americanos tradicionalistas,
mas poderosos, como Jackson.
Como presidente dos quechans ao longo da última década, ele está liderando um
novo tipo de guerra indígena, desta vez nos tribunais. Os campos de batalha são
áreas ancestrais como os círculos religiosos, cemitérios e topos das montanhas
por todo o Oeste, que os índios consideram sagrados e que são protegidos por
leis ambientais e de preservação histórica federais. Após batalhas menores
bem-sucedidas, Jackson está enfrentando um projeto maior, argumentando que a
construção de uma refinaria planejada no Arizona, no valor de US$ 4 bilhões,
destruiria locais sagrados de sua tribo.
O que torna este caso diferente das lutas mais tradicionais entre índios e
empreendedores é que a refinaria não está em uma reserva quechan nem é vizinha
dela. Na verdade, a refinaria está planejada para uma área a cerca de 65 km ao
leste, no outro lado de Yuma e da cadeia montanhosa de Gila. Mas Jackson e os
advogados da tribo argumentam que antes que terras possam ser transferidas para
a empresa que construirá a refinaria, a Arizona Clean Fuels, ou que a construção
possa começar, um exaustivo levantamento arqueológico e cultural deve ser
realizado.
Os quechans não são uma tribo grande. Também conhecidos como índios yuma (eles
preferem o nome quechan, que significa "aqueles que descendem"), seu número é de
cerca de 3.300. A reserva deles na divisa da Califórnia com o Arizona tem cerca
de 18 mil hectares, uma pequena fração do tamanho das terras que o governo
federal destinou há mais de um século para nações mais conhecidas como os
apaches e navajos.
Jackson já deteve dois projetos planejados - um depósito de lixo nuclear e uma
mina de ouro de US$ 50 milhões no lado californiano da fronteira - ambos também
distantes da reserva quechan. Neste ano, ele ajudou a barrar em um tribunal de
apelação federal a nomeação de um funcionário do governo Bush, que era favorável
à mina.
Como a própria terra, a luta em torno de refinaria reflete um emaranhado de
culturas e séculos de rancor entre os índios e os recém-chegados. Jackson diz
que se trata de respeito pela cultura quechan e uma nova disposição por parte
dos índios de resistir à ordem local após séculos sem poderem se manifestar.
Líderes políticos e empresariais de Yuma argumentam que se trata apenas do
interesse de Jackson pelas terras, uma tentativa dúbia da tribo de bloquear
projetos de desenvolvimento muito necessários e reafirmar a reivindicação por um
território perdido há muito tempo. Além disso, disse Glenn McGinnis,
executivo-chefe da Arizona Clean Fuels, um levantamento preliminar não encontrou
evidência de ruínas perto do local, que por décadas foi propriedade privada de
fazendeiros locais e posteriormente foi comprada pelo governo federal para
obtenção dos direitos à água.
Seria Mike Jackson um 'Hugo Chávez local'?
De qualquer forma, McGinnis disse estar comprometido em proteger qualquer
vestígio sagrado que surgir assim que a construção tiver início. Mas realizar
agora o levantamento mais amplo que Jackson e os quechans desejam não apenas
adiaria o projeto em meses, mas também custaria cerca de US$ 250 mil, que a
Arizona Clean Fuels seria obrigada a pagar.
A disputa vai além do dinheiro. Ela também trouxe à tona o ressentimento diante
do novo poder da tribo. David Treanor, vice-presidente da Arizona Clean Fuels,
chamou a posição dos quechans de "imperialismo psicológico" e comparou Jackson a
Hugo Chávez, o líder de esquerda da Venezuela.
Casey Prochaska, presidente da Junta de Supervisores do Condado de Yuma, disse:
"Minha avó provavelmente atravessou esta território em uma carroça. O país não
parou porque eles cruzaram estas terras".
Na verdade, a refinaria nem é mesmo a questão principal para alguns líderes
empresariais. "É uma questão de quão longe a esfera de influência deles
chegará", disse Ken Rosevear, diretor executivo da Câmara de Comércio do Condado
de Yuma. "Ela chegará a Phoenix? A Las Vegas? A todo o Oeste?"
Rosevear pode estar exagerando, mas seu medo ilustra o que está em jogo. Se o
processo dos quechans for bem-sucedido, ele encorajaria os esforços de outras
tribos maiores para bloquear o desenvolvimento em territórios onde antes viveram
e oraram.
No norte do Arizona, os navajos, hopis e outros índios já conseguiram deter os
planos para a expansão de um resort de esqui a cerca de 80 km da reserva mais
próxima, após convencerem um painel de apelação federal em março de que a
utilização de água de reuso para fazer neve artificial profanaria os picos
considerados sagrados.
Enquanto isso, a tribo cheyenne do norte vem utilizando argumentos semelhantes
para impedir a exploração de metano do leito de carvão perto da reserva deles em
Montana. A extração da água dos aqüíferos subterrâneos para a extração do gás
natural prejudicaria os espíritos que habitam nas fontes e ribeirões onde os
cheyennes do norte rezam, disse Gail Small, uma membro da tribo que comanda a
Ação Nativa, um grupo ambiental que fundou após se formar no curso de Direito.
Lutando nos tribunais com o dinheiro dos cassinos
Dando mais peso ao seu argumento está a Lei de Liberdade Religiosa do Índio
Americano, aprovada pelo Congresso em 1978, que reconhece a ligação entre a
religião nativo-americana e a terra tanto da reserva quanto fora dela.
"Estamos vendo um verdadeiro renascimento das tribos, que estão se
conscientizando de seus recursos culturais e herança e reivindicando tal herança
mesmo quando está fora da reserva", disse Robert A. Williams Jr., um professor
de Direito da Universidade do Arizona que orientou as tribos em assuntos legais
envolvendo locais sagrados fora das reservas.
E graças ao crescimento das apostas nos cassinos nas reservas indígenas, muitas
tribos agora contam com dinheiro para enfrentar as empresas de recursos
naturais, interesses imobiliários e outros agentes ricos que por muito tempo
controlaram o Oeste.
"As tribos não mais precisam esperar ou contar com esforços de grupos ambientais
de fora ou escritórios de advocacia pro bono", disse Joseph P. Kalt, diretor do
Projeto de Harvard para o Desenvolvimento Econômico do Índio Americano. "Eles
não apenas são muito mais sofisticados, mas também possuem o dinheiro para
lutarem por conta própria."
Jackson não contesta que a abertura do popular Paradise Casino em sua reserva em
1996 mudou o equilíbrio de poder. "Fez toda a diferença no mundo", ele disse.
"Antes não tínhamos dinheiro para contratar advogados; não tínhamos as
ferramentas. Nós também aprendemos como jogar o jogo político na América que era
jogado contra nós no passado."
Durante o inverno, quando os turistas que fogem do frio rigoroso de outras
partes do país enchem os hotéis locais, é difícil encontrar uma vaga no
estacionamento do Paradise Casino em algumas noites, e o cassino gera cerca de
US$ 45 milhões de lucro líquido por ano para os quechans.
Jackson não é sempre contrário a novos desenvolvimentos. Os quechans estão
considerando a construção de um segundo cassino no lado californiano da
fronteira e Jackson enfrenta protestos dos anciãos tribais que argumentam que o
projeto de US$ 200 milhões também estará em solo sagrado.
Em junho, a força policial quechan prendeu membros da tribo que protestavam no
local no novo cassino. Autoridades de Yuma como Prochaska chamam isto de
hipocrisia, mas Jackson disse que não cabe a elas decidir o que é sagrado para
os índios.
Filho e neto de líderes tribais, Jackson, 60 anos, disse que no passado "o
governo nos dava fundos para sobreviver e não dava ouvidos ao nosso povo".
Agora, ele disse, líderes locais como Rosevear precisam procurá-lo. "Eles vêm,
sorriem, apertam minha mão, mas não gostam. Azar. Agora o processo é assim."
Glamis Gold, a mineradora canadense que tentou construir a mina na Califórnia,
aprendeu do modo difícil há vários anos. Após investir US$ 15 milhões, a empresa
assistiu Jackson suspender o projeto junto aos reguladores. Ele finalmente foi
morto quanto Gray Davis, na época o governador, emitiu uma ordem emergencial.
Charles A. Jeannes, um executivo da Glamis na época, disse que a empresa tentou
negociar com Jackson. "Nós dissemos para eles que discutiríamos qualquer tipo de
compensações", disse Jeannes, atualmente vice-presidente executivo da Goldcorp,
que adquiriu a Glamis em 2006. "Mas nunca chegamos a detalhes específicos porque
eles deixaram claro que não aceitariam a mina."
Jackson tem uma lembrança ligeiramente diferente. "Eles vieram e ofereceram
dinheiro, caminhões e outras coisas", ele disse. "Eu disse a eles que não
aceitaria nenhum centavo e que saíssem do meu escritório."
Na cultura quechan, sonhos são sagrados -um caminho literal para o conhecimento
e poder. Assim, talvez seja apropriado que a refinaria fosse um projeto dos
sonhos no Arizona por duas décadas, um projeto muito falado que, se concluído,
seria a primeira nova refinaria construída nos Estados Unidos em mais de 30
anos.
Ela também é uma visão que poderia ser altamente lucrativa. As margens de refino
no Sudoeste estão entre as melhores do país, enquanto a demanda por gasolina no
Arizona, Nevada e Califórnia está crescendo duas vezes mais que a média
nacional. E até Jackson e os quechans contestarem seus planos, a área de 570
hectares parecia um raro local nos Estados Unidos onde uma refinaria poderia ser
bem-vinda.
O último pomar do local desapareceu há décadas, depois que o governo federal
adquiriu as terras e comprou os direitos sobre a água. Os lares mais próximos
ficam a quilômetros de distância. Agora o silêncio é quebrado apenas pelo som da
passagem dos trens de carga e o estrondo ocasional do Campo Experimental de Yuma,
de propriedade do Exército.
'Se as terras não servem para eles, nós sabemos como protegê-las'
No início deste ano, o governo transferiu as terras de interesse da refinaria
para o distrito local de irrigação, que por sua vez as vendeu em março para a
Arizona Clean Fuels por US$ 15 milhões. É esta transferência que os quechans
estão questionando em seu processo, argumentando que os procedimentos exigidos
pela lei federal para proteção dos sítios indígenas não foram seguidos de forma
apropriada.
McGinnis, um executivo veterano do setor de refino de fala suave, disse ser
sensível às preocupações da tribo. E diferente de outras autoridades, ele evita
criticar Jackson e os quechans.
"Mas não há muito aqui", ele disse, apontando para o solo sulcado e os poucos
tocos de árvore remanescentes, esbranquiçados pelo sol. "A probabilidade de
encontrar qualquer relíquia é próxima de zero, porque a terra foi perturbada e
lavrada por muito, muito tempo. Mas traremos pesquisadores para caminhar pelo
local, eu me comprometi a fazer isto há dois anos."
Trazer peritos assim que o projeto estiver em andamento não é suficiente para
Jackson. Ele disse não ser contrário à refinaria, mas deseja que o levantamento
de toda a terra seja feito agora, antes que qualquer transferência de
propriedade seja aprovada pelos tribunais. Ainda assim, está claro que ele não
está feliz com o governo estar vendendo terras para compradores privados como a
Arizona Clean Fuels. "Se eles não tinham utilidade para elas, as devolvam para
nós", ele disse sobre a ação do governo federal. "Nós sabemos como protegê-la; é
a terra de nossos ancestrais."
Para a Arizona Clean Fuels e McGinnis, o processo dos quechans não poderia ter
surgido em momento pior. Após anos de negociações, a empresa renovou sua licença
de emissões no Estado em setembro passado. Agora, a Arizona Clean Fuels, de
propriedade de investidores individuais do Oeste dos Estados Unidos, está
buscando um investidor institucional externo com bolsos profundos o bastante
para desembolsar o US$ 1,5 bilhão para o início da construção e posteriormente
tomar um empréstimo de US$ 2,5 bilhões adicionais para concluir a refinaria em
2011. McGinnis disse que está negociando com dois grupos de investidores o
investimento inicial de US$ 1,5 bilhão. Mas o processo o está distraindo e é uma
preocupação para qualquer investidor potencial. "Nós passamos metade de nosso
tempo tratando com nossos advogados a respeito disto quando deveríamos estar
lidando com outras coisas", ele disse.
Um chute na porta fechada
O esforço da tribo para obter uma injunção preliminar foi rejeitado no tribunal
distrital federal no final de junho; agora os quechans estão apelando no
Tribunal de Apelação Federal do 9º Circuito, em San Francisco, um painel
tradicionalmente liberal que demonstrou simpatia pelas causas indígenas no
passado, incluindo o processo em torno do resort de esqui.
Ambos os lados parecem estar entrincheirados, apesar de Jackson nunca ter
visitado o terreno da refinaria e McGinnis nunca ter falado diretamente com
Jackson. "Muitas portas já foram batidas em nossa cara no passado", disse
Jackson, sentado na câmara do conselho da tribo na reserva. "Mas esse era o modo
antigo. Agora, meu pé está na porta e vou abri-la para meu povo com um chute."
McGinnis evita responder a tal desafio. Devido ao processo, ele disse não ter
pego o telefone para conversar com Jackson, mas "nossos advogados requisitaram
reuniões e me sentarei com ele em qualquer hora e lugar que ele quiser".
Isto dificilmente acontecerá tão cedo e Jackson está disposto a levar o processo
à Suprema Corte, se necessário.
Como aconteceu com a mina de ouro, ele não parece interessado em acordo
financeiro com a Arizona Clean Fuels, mas apenas na terra em si. "Somos um povo
tenaz", ele disse, citando lutas anteriores de um tipo diferente entre os
quechans e os espanhóis, os mexicanos e a cavalaria americana. "Nós ainda
estamos aqui. A cavalaria desapareceu."
Fonte: FOLHAUOL
Tradução: George El Khouri Andolfato
do The New York Times