Amazônia tem novo vigia
ambiental que vai fornecer dados mensais do desmatamento, por meio de imagens de
satélite
Manaus, setembro de 2.006 - Se a Amazônia acabar de fato, não há de ser por
falta de vigilância. Uma organização de pesquisas de Belém lança hoje o primeiro
sistema independente para monitorar o desmatamento em tempo real, por meio de
imagens de satélite. A idéia é ter informações sobre a devastação da floresta
disponíveis na internet e atualizadas todo mês --não só para diagnosticar a
situação da floresta mas também para prever desmatamentos futuros.
O SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), como foi batizada a ferramenta, é uma
criação de uma equipe do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o
Imazon. Ele deve permitir o cálculo mensal da área devastada na região Norte,
uma cifra que o governo brasileiro hoje só divulga uma vez por ano --o último
dado oficial, referente a 2004-2005, saiu na terça-feira passada, confirmando
uma queda prevista de 31,5% na taxa de destruição.
"Assim como a inflação, que tem vários índices, esperamos ter o dado mensal do
desmatamento como um indicador a mais", compara Adalberto Veríssimo, pesquisador
do Imazon e um dos criadores do SAD.
A analogia é mais do que justificada. Afinal, o que os números do desmatamento
divulgados anualmente pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)
medem é a perda de um ativo econômico, cujo valor --em forma de seu estoque de
carbono, vital para a regulação do clima-- agora começa a ser reconhecido pelo
governo.
Foi justamente para monitorar as emissões de carbono causadas pelo desmatamento
que o SAD foi concebido, com uma doação de R$ 200 mil da Fundação Packard. "Nós
precisávamos de um sistema independente de acompanhamento, porque os dados do
Deter não tinham muita regularidade", diz Carlos Souza Jr., que desenvolveu a
metodologia de processamento de imagens do sistema do Imazon.
O Deter é o sistema de detecção do desmatamento em tempo real do governo, criado
pelo Inpe a pedido do Ministério do Meio Ambiente. Ele usa imagens dos satélites
americanos Modis para monitorar a floresta e guiar a fiscalização do Ibama sobre
desmates ilegais.
O Deter foi criado em 2004 com a promessa de ter dados atualizados de
desmatamento na internet todo mês, mas isso nunca aconteceu. O sistema também
tem baixa resolução --ele foi feito para ser ágil e não preciso, e só consegue
"enxergar" desmatamentos acima de 20 hectares devido a uma limitação do Modis.
Por isso o Inpe não o utiliza para calcular a área total desmatada, embora o
governo o tenha utilizado para avaliar tendências de desmatamento.
Cego que vê
O novo sistema do Imazon usa as mesmas imagens que o Deter, mas processadas de
outra forma. Isso amplia sua capacidade de detecção para desmatamentos acima de
5 hectares. O SAD também permite estimar, pela visualização de pequenos
desmatamentos, onde o corte raso da floresta tende a acontecer --e fazer
alertas.
O primeiro teste do SAD foi feito em Mato Grosso. Até o fim do ano, toda a
Amazônia deve ser coberta. Hoje, o Imazon e a ONG mato-grossense ICV divulgam um
boletim com uma análise da situação do Estado em 2004-2005 e em 2005-2006. O
número do SAD para este biênio é de 6.086 km2 desflorestados, algo próximo dos
5.450 km2 medidos pelo Deter.
O boletim "Transparência
Florestal Mato Grosso" está na internet (www.imazon.org.br).
Outro lado
O coordenador de Monitoramento Ambiental da Amazônia no Inpe, Dalton Valeriano,
elogiou o novo sistema do Imazon.
"É mais do que bem-vindo um levantamento paralelo de desmatamento. Será uma
oportunidade para aprimorarmos o Deter."
Apesar de as imagens de satélite serem atualizadas a cada duas semanas, hoje o
Deter ainda usa identificação visual, para garantir que os fiscais do Ibama não
dêem de cara com um alarme falso. Isso torna o processamento mais demorado.
Valeriano reconhece que há problema nas atualizações mensais do Deter na
internet (www.obt.inpe.br/deter). "Isso é falha nossa. O Deter é feito para
servir ao Ibama, e a demanda por dados dele é maior do que eu imaginava". O Inpe
promete resolver o problema.
Fonte:
Cláudio Ângelo, editor de Ciência
da Folha de S. Paulo