Funai abre Conferência sem a
participação de organizações indígenas
Brasília, abril de 2.006 - Seria possível imaginar uma conferência de Direitos
Humanos sem a participação do Movimento Nacional de Direitos Humanos ou uma
Conferência Nacional do Meio Ambiente sem a participação das organizações
ambientalistas?
Pois na noite desta quarta-feira, dia 12/04, em Brasília, foi iniciada a 1ª
Conferência Nacional dos Povos Indígenas sem a participação das duas principais
organizações dos povos indígenas no Brasil, a Coiab (Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e a Apoinme (Articulação dos
Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), que se recusaram a
enviar representantes.
As duas organizações decidiram não enviar representantes depois que os
participantes do Acampamento Terra Livre divulgaram uma moção de repúdio na qual
não reconhecem "nesta Conferência legitimidade para propor uma política
indigenista que venha tão somente reforçar a tutela e o órgão tutor ou ainda
aproveitar este espaço para legitimar o encaminhamento de questões cruciais para
os povos indígenas por meio de projetos de lei avulsos e que não tramitem no
Congresso no âmbito do Estatuto dos Povos Indígenas que ali se encontra" (leia
mais).
Por outro lado, a Funai afirma que as diretrizes que orientarão o Governo
Federal em sua política indigenista serão retiradas dos debates feitos nos
próximos oito dias na Conferência. Temas polêmicos serão discutidos como a
mineração em terras indígenas, tutela, educação, criação de um parlamento
indígena, saúde (mesmo tendo sido realizada recentemente a 4ª Conferência
Nacional de Saúde Indígena) e a criação da Comissão Nacional de Política
Indigenista (CNPI).
Criada no último dia 22 de março por meio de decreto do presidente da República,
a CNPI tem entre as suas funções: acompanhar e colaborar na organização e
realização da 1ª Conferência Nacional de Política Indigenista; além de propor
diretrizes, instrumentos, normas e prioridades da política nacional indigenista,
bem como estratégias de acompanhamento, monitoramento e avaliação das ações
desenvolvidas pelos órgãos da administração pública federal, relacionadas com a
área indigenista.
Um decreto real?
"Eu estarei como um presidente, digamos, como a rainha da Inglaterra, os índios
é que estarão decidindo esses assuntos", declarou Mércio Pereira Gomes,
presidente da Funai em entrevista à Agência Radiobrás, no dia 7 de abril.
Segundo o decreto, os representantes da Comissão seriam indicados em reuniões
das organizações e povos indígenas localizados em cada uma das respectivas áreas
geográficas descritas, convocadas e coordenadas pelas organizações indígenas
regionais, as quais deverão registrar em ata a escolha dos seus representantes.
As organizações e os povos indígenas responsáveis pela realização das reuniões
regionais deveriam encaminhar ao ministro da Justiça, em até 45 dias, a
indicação dos seus representantes, titulares e suplentes.
No entanto, contrariando o decreto presidencial, o presidente da Funai, Mércio
Pereira Gomes, anunciou em seu discurso de abertura que os representantes da
CNPI serão escolhidos durante a Conferência. “Aqui serão eleitos
democraticamente os 20 delegados que farão parte da Comissão Nacional de
Política Indigenista”.
Fonte: Cristiano Navarro,
jornalista do
CIMI - Conselho
Indigenista Missionário
