Famílias
Guarani Kaiowá são despejadas da aldeia Laranjeira Nhanderu
Sem ter para
onde ir, comunidade acampa na beira da BR-163, em frente à terra de onde foram
despejados

Rio Brilhante (MS), 11 de setembro de 2.009 - Nesta sexta-feira (11), as 36
famílias Guarani Kaiowá da aldeia Laranjeira Nhanderu, no município de Rio
Brilhante, Mato Grosso do Sul, tiveram que sair da terra em que viviam há cerca
de 2 anos em cumprimento a uma ordem de reintegração de posse determinada pelo
Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3).
De acordo com João Zanela, do Conselho Missionário Indigenista (Cimi) do Mato
Grosso do Sul, a saída dos indígenas começou por volta das 6 horas da manhã
desta sexta-feira. Como não têm para onde ir, os cerca de 130 Guarani kaiowá da
aldeia, incluindo 60 crianças e adolescentes, permanecem agora acampados em
frente à área desocupada, à beira da BR-163, rodovia de tráfego intenso de
caminhões em direção ao sul do país.
O indigenista relatou que a saída dos Guarani Kaiowá foi espontânea e aconteceu
antes mesmo da chegada da Polícia Federal ao local. Um oficial de Justiça e
agentes da PF de Dourados acompanhariam o despejo.
“A saída cumpriu o que havia sido prometido à PF, que os indígenas sairiam
pacificamente”, afirmou Rogério Batalha, assessor jurídico do Cimi-MS. Segundo
ele, apesar de ter sido pacífica, a saída dos Guarani Kaiowá “foi de muita
tristeza e muita desolação”.
O assessor jurídico, que acompanhou o processo de retirada, contou que na aldeia
Laranjeira Nhanderu as famílias viviam em casas de sapé rodeadas por mata e não
atrapalhavam a produção da fazenda da qual a área faz parte.
“Saíram de um local onde tinham toda estrutura para sobreviver, com boas casas,
e agora estão na beira de uma estrada muito movimentada, correndo riscos de
atropelamento, em barracos de lona, onde não existe nenhuma fonte de água”,
relata Batalha.
Para ele, esta é uma “situação lamentável, vergonhosa para o Brasil”. Batalha
disse que “a única expectativa é que a demarcação das terras indígenas no estado
saia de uma vez por todas”.
Processo de
despejo
Os Guarani Kaiowá chegaram à área no final de 2007 e reivindicam 3.666 hectares
como sendo terra tradicional de seus antepassados. No final de 2008 foi expedida
a ordem de reintegração de posse pela Justiça Federal de Dourados.
Em maio deste ano, chegou a ser determinada a saída das famílias da área. Mas no
dia 26, após a análise de um pedido de agravo, a Desembargadora do Tribunal
Regional Federal da 3ª Região, Marli Ferreira, suspendeu a ordem de reintegração
de posse e deu mais 90 dias para a comunidade permanecer na área.
Nesse período, a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão responsável, deveria
ter realizado estudos para identificar se a área ocupada era território
tradicional Guarani. No entanto, os estudos não foram realizados e o prazo dado
pela desembargadora terminou no dia 26 de agosto. Em consequência, a PF
determinou que os indígenas deixassem a área até esta sexta-feira (11).
Paralisia do
Governo
Em dezembro de 2007, um termo de ajustamento de conduta foi firmado pela Funai,
Ministério Público Federal e Ministério da Justiça determinou o início dos
estudos antropológicos para identificar os territórios Guarani Kaiowá.
Através de seis portarias a Funai deveria enviar de seis grupos de trabalho
identificar 36 terras indígenas em 26 municípios da região de Dourados. No
entanto, devido às pressões de ruralistas, parlamentares e do governador do Mato
Grosso do Sul, André Puccinelli, o governo federal deixou de cumprir o
compromisso. Assim a população Gurani Kaiowá -- de cerca de 45 mil pessoas --
segue sobrevivendo confinada em cerca de 30 mil hectares sofrendo com o
assassinato de suas lideranças e altos índices de subnutrição infantil e
suicídio.
Fonte: Agência Brasil de Fato