A política do IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU

S
ergio Abranches*

São Paulo, abril de 2.007 - A leitura política da segunda parte do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas é certamente mais negativa do que a ciência que ele contém. O relatório divulgado é uma versão política, feita em menos de 100 horas, de evidências científicas resultantes de anos de trabalhos de milhares de cientistas.

O fato de o segundo relatório do IPCC sobre os impactos da mudança climática global, adaptações e vulnerabilidades observados ser o mais grave já produzido é resultado apenas de investimento de capital científico ao longo dos anos no estudo do principal desafio global do século 21.

Representa um consenso avassalador e um alerta que chega a ser sóbrio diante do volume de evidências, especialmente das adaptações ecológicas ao aquecimento. Ele se sustenta a despeito e apesar das canetadas diplomáticas.

As dimensões políticas do relatório desse relatório são graves. Foram três dias e noites de tensas negociações entre diplomatas e cientistas. Uma leitura penosa, demorada e dificilmente justificável de um produto da ciência por censores políticos, que muitas vezes representavam apenas a visão minoritária de governos cuja legitimidade para decidir o que a humanidade pode ou não saber é no mínimo discutível.

Qual a legitimidade da monarquia absolutista dos Saud que deve sua longa vida ao petróleo, para determinar não só o que o povo da Arábia Saudita pode saber, mas todos os povos do mundo? Por que representantes do governo Bush devem ter direito de veto sobre a opinião científica, se a maioria da população do EUA se mostra mais consciente e mais preocupada com a mudança global? Um governo na última metade de seu segundo mandato, que sofre pesada investigação parlamentar por ter censurado relatórios de seus cientistas sobre o aquecimento global.

Repetiu-se em Bruxelas, em versão muito piorada, a queda de braço entre cientistas e políticos que havia sido denunciada por vários participantes da reunião de Paris, em fevereiro. Nas duas ocasiões, os cientistas foram forçados a aceitar uma versão mais aguada e “cautelosa”, não para atender a interesses sinceros por maior eficácia na ação para mitigar a mudança climática e adaptar mais rapidamente as áreas mais vulneráveis a ela. Mas para fazer valer o interesse estreito e de curto prazo de governos específicos.

Está claro que esse modelo já passou de seus limites de eficácia. Nem a convenção do clima, nem o IPCC, serão instrumento à altura do desafio apontado pelos cientistas, se não forem radicalmente transformados, para assegurar a independência científica e definir limites precisos à interferência política nos resultados dos trabalhos técnicos científicos.

A atitude de muitas delegações, entre elas as do EUA e da China é um indicador preciso de que a política do clima está muito aquém da demanda por ação governamental suscitada pela evidência científica disponível.

A julgar-se por essa investida diplomática para impedir a plena divulgação das conclusões científicas, a disposição para adotar políticas de mitigação e adaptação com a extensão e intensidade recomendadas é, esta sim, desalentadora.

A outra dimensão política grave do relatório é que ele aponta para um sistema sociopolítico de maior estresse e conflito, por causa do aumento da escassez de água e alimentos, das desigualdades entre regiões e dentro dos países, causadas pela mudança climática.

Indica um forçamento físico sobre os sistemas políticos que representará um enorme teste para a democracia e a paz. Creio que essas duas dimensões do contexto do relatório sobre mudança climática refletem um quadro político que inspira muito mais pessimismo e apreensão do que as evidências científicas em si.

Porque com essa atitude política, as previsões se tornarão uma profecia auto-realizável, um resultado inevitável da omissão política e de ações brutalmente insuficientes para evitar a catástrofe.

* É cientista político e diretor do site O Eco

Fonte:
Estadão