
"O grito", de Edward Munch
Fazendeiros e políticos expulsam Greenpeace,
organizações e jornalistas de Juína (MT) e impõem "terra sem lei" na região
Juína (MT), Brasil, 22 de Agosto de 2007 — Greenpeace e Opan pedem investigação
contra fazendeiros e políticos que expulsaram as organizações, além de
jornalistas franceses, de Juína, no Mato Grosso.
O Greenpeace e a organização indigenista Opan (Operação Amazônia Nativa) pediram
hoje ao Ministério Público Federal a apuração dos graves incidentes ocorridos há
dois dias em Juína, no Mato Grosso, que resultaram na expulsão, por fazendeiros,
de um grupo de representantes da Opan, ativistas do Greenpeace e dois
jornalistas franceses. Entre os ambientalistas estava o coordenador do
Greenpeace na Amazônia, Paulo Adario.
Cópias de duas horas de imagens em vídeo documentando ameaças, ofensas e o
processo de expulsão do grupo foram entregues agora à tarde ao Procurador
Federal da República em Mato Grosso, Mário Lúcio Avelar. Pela manhã, Adario fez
um pronunciamento sobre o assunto durante reunião especial do Conselho Nacional
de Meio Ambiente (Conama) que se realiza em Cuiabá, e pediu providências das
autoridades estaduais e federais.
Ontem, durante a abertura da reunião, o
governador Blairo Maggi anunciou que irá pedir a presença do Exército para
enfrentar a grilagem e garantir a ordem no noroeste do estado, onde está Juína.
O governo do estado havia sido informado no dia anterior que o Greenpeace, a
Opan e jornalistas estavam praticamente mantidos como reféns num hotel da
cidade, cercados por quase uma centena de fazendeiros.
“Ao mesmo tempo em que o governo celebra e assume o mérito pela queda das taxas
de desmatamento na Amazônia, o episódio em Juína mostra que sua presença ou é
rala ou ainda está muito longe daqui”, disse Paulo Adário, coordenador da
campanha da Amazônia do Greenpeace, que fazia parte do grupo. “É inaceitável que
fazendeiros, com o apoio de autoridades locais, cerceiem a liberdade que todo
cidadão tem de ir e vir e revoguem a Lei de Imprensa, cassando o direito de
jornalistas exercerem sua profissão com segurança”.
O grupo do Greenpeace, da Opan e os jornalistas franceses foram expulsos por
fazendeiros na segunda-feira pela manhã (20/08), depois de ser mantido durante
toda a noite sob vigilância em um hotel da cidade. O grupo de nove pessoas
estava de passagem por Juína e seguia em direção à terra indígena Enawene-Nawe.
O objetivo da viagem era documentar áreas recém-desmatadas, além de mostrar a
convivência de um povo indígena que vive de agricultura e pesca com a floresta e
seu papel em preservar a biodiversidade.
No final da tarde de domingo, fazendeiros abordaram integrantes das duas
organizações no hotel onde estavam hospedados, querendo saber quem eram e o que
estavam fazendo em Juína. A área onde está localizada a terra indígena está em
disputa entre os Enawene Nawe e os fazendeiros e expressa o conflito da expansão
agrícola sobre áreas protegidas e territórios de povos indígenas.
Os índios reivindicam a reintegração de parte do território tradicional que
teria ficado de fora da demarcação e que contém uma área de pesca cerimonial,
fundamental nos rituais sagrados dos Enawene. Os fazendeiros, por sua vez,
alegam que a terra é deles e estão dispostos a lutar para mantê-las. Eles se
mostraram muito irritados quando souberam que jornalistas integravam o grupo que
estava no hotel.
Na manhã seguinte, o local foi cercado por dezenas de fazendeiros e o presidente
da Câmara Municipal, vereador Francisco Pedroso, o Chicão (DEM), que exigiam
esclarecimento sobre os objetivos dos visitantes. O grupo foi levado à Câmara
Municipal, onde uma sessão especial foi rapidamente organizada.
Estavam
presentes o prefeito da cidade, Hilton Campos (PR), o presidente da Câmara, o
presidente da OAB, o presidente da Associação dos Produtores Rurais da região do
Rio Preto(Aprurp), Aderval Bento, vários vereadores e mais de 50 fazendeiros. E
também a polícia.
Durante seis horas, os fazendeiros e repetiram que a entrada
do grupo na terra Enawene Nawe não seria permitida e que seria “perigoso”
insistir na viagem. Esmurrando a mesa, o prefeito de Juína, Hilton Campos,
afirmou que não iria permitir a ida do grupo para o Rio Preto, sendo aplaudido
fervorosamente pelos colegas fazendeiros.
Para evitar maiores conflitos, a viagem foi cancelada. O grupo, então, se
dirigiu ao local de encontro com os Enawene, uma ponte sobre o Rio Preto, a 60
km de distância, para dar a eles combustível e comida para a volta. A viagem foi
feita sob escolta policial, para garantir a segurança dos jornalistas, da Opan e
do Greenpeace. Mas nem isso evitou que os fazendeiros, que acompanharam a viagem
de ida e volta em 8 oito caminhonetes lotadas, continuassem intimidando e
ameaçando o grupo.
O grupo se refugiou no hotel de onde não pôde sair nem para
comer. Uma viatura da Polícia Militar ficou na área, para impedir qualquer
tentativa de invasão, mas não conseguiu impedir que um fotógrafo fosse agredido.
Os fazendeiros fizeram uma vigília na frente do hotel durante toda a noite.
De manhã cedo, 30 caminhonetes lotadas de fazendeiros, com faróis acessos a
buzinando sem parar, insultando e ameaçando o grupo, escoltaram o grupo, que
estava protegido por duas viaturas policiais, até o aeroporto.Foram advertidos a
decolar imediatamente, ou o avião seria queimado. No momento, todos se encontram
em segurança em Cuiabá.
Fonte: Greenpeace -
www.greenpeace.org.br