Juréia (SP), paraíso ecológico
alvo dos palmiteiros e do corte ilegal
Novo modelo de gestão promete conter crimes que a estação ecológica não pôde
impedir durante 20 anos
São Paulo,
19 de agosto de 2.007 -
Um crime ambiental ocorreu nesta manhã nos arredores da Juréia, santuário de
mata atlântica no litoral sul de São Paulo. É uma repetição de quinta-feira, do
domingo passado e de outros dias dos últimos cinco anos. Índios tupis-guaranis
trabalham como “mulas”, meros transportadores para palmiteiros comercializarem
em Peruíbe e Iguape dezenas de palmitos juçara extraídos da estação ecológica.
Uma ilegalidade conhecida dos órgãos que deveriam combatê-la, como a Fundação
Florestal, a Polícia Ambiental e o Ministério Público.
No Mosaico de Unidades de Conservação Juréia-Itatins, o pomposo nome que recebeu
a estação ecológica no fim de 2006, há uma aldeia, mas os guarda-parques só vêem
um cacique. Levados em 2000 pela Fundação Nacional do Índio, desistiram do mato
ao descobrirem a vida dura. Mudaram-se para cidades do Vale do Ribeira. Porém,
continuam intocáveis, aos olhos do Ministério Público Federal. Um fiscal
estadual tem muita dificuldade em prender um índio.
A reportagem do Estado flagrou como as gangues dos palmiteiros agem. Um ônibus
de linha (outra ilegalidade perpetuada há anos) entra na estação ecológica e
apanha a mercadoria levada pelo grupo. Um índio deve estar junto para evitar o
flagrante. No centro de Peruíbe, por volta das 6h30, os passageiros desembarcam
com a carga. Um outro carro já está à espera. Ou vai tudo embora, com destino a
fábricas clandestinas, ou parte fica com os guaranis para a feira de
quinta-feira ou de domingo, o pretexto da sobrevivência adotado por eles. Mesmo
que vendam, sem dó, nem piedade, palmitos juçaras, bromélias e orquídeas da mata
atlântica. Uma palmeira de 10 metros que vai ao chão e de onde se retira o
palmito - um toco de 40 centímetros, vendido a R$ 5.
De mãos atadas, as autoridades estaduais combatem uma fração desse crime. Em
maio, a Fundação Florestal e a Polícia Ambiental multaram André Alves dos Reis
Elisio em R$ 46 mil por estar com 217 palmitos juçara. Se dependesse da Funai,
onde ele é identificado como Awá Dytspã Nimboeté, o índio é livre para praticar
o extrativismo.
Nesse cenário, a estação ecológica sobrevive como um parque de papel, uma ficção
ambiental, onde a natureza protege a si mesma. As Serras da Juréia e de Itatins,
mais o Rio Una do Prelado, formam uma barreira natural. Com poucas entradas, à
exceção do mar, só ousam adentrar na área mateiros experientes, turistas
aventureiros e moradores. Moradores?
Quando foi criada, a estação ecológica ignorou a presença humana. Caiçaras e
outros moradores tradicionais já estavam lá, mas, com o decreto de 1987,
deveriam ter sido indenizados e retirados. Muitos saíram por conta própria,
alguns permaneceram e outros moradores chegaram depois.
A vida se impôs à ordem jurídica, e o poder público levou ônibus, luz, telefone,
escola, posto de saúde, coleta de lixo. Surgiram áreas de camping, pousadas,
barracas de mosteiro e bebes e fazendas de gado. Locais como as Praias da Barra
do Una e Carambolê e a Cachoeira do Paraíso, no lado de Peruíbe, ficam apinhadas
de turistas. Coisa de 5 mil pessoas num local proibido para visitação.
Havia, em 1990, cerca de 300 casas. Hoje, estima-se sejam 350. Um crescimento
pequeno, mas de alta rotatividade. Caiçaras, sem dinheiro e sentindo-se presos à
reserva, venderam a posse para veranistas. Migraram para as cidades ou ergueram
puxadinhos no terreno ao lado e se tornaram caseiros de suas antigas casas.
Muitos imóveis foram reformados, com material contrabandeado de fora para dentro
da estação. O método para levar cimento, lajotas e tijolos é simplório: em
carros e, de preferência, à noite, quando a fiscalização da Juréia rareia.
REGENERAÇÃO
O arquiteto José Pedro de Oliveira Costa, assessor da Secretaria Estadual do
Meio Ambiente e primeiro diretor da estação, orgulha-se de dizer que, em termos
estatísticos, a mata atlântica cresceu nos originais 80 mil hectares. Antes
havia muitos mais moradores, que foram saindo antes mesmo do decreto de duas
décadas. E a floresta tropical se regenera, desde que livre da ação do predador.
A recuperação, contudo, oculta ameaça recente.
Na fronteira interiorana do mosaico, o Despraiado era estação ecológica e hoje é
Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). A nova gestão no formato de
mosaico prevê a ocupação ou a visitação humana, seja numa RDS ou num parque.
Insatisfeito, o presidente da União de Moradores da Juréia, Arnaldo Rodrigues
das Neves, dono de 1.400 hectares, defende reduzir a estação e ampliar as áreas
de uso para moradores antigos. A solução seria liberar usos como o manejo da
árvore caixeta e do palmito juçara. Acredita que assim conterá a pressão de
fora.
Nos últimos dois anos, um caminho de nordeste a sudoeste e outro de sudoeste a
nordeste vem se formando clandestinamente. A mata verdejante farejada pelo
satélite ignora que, no topo da Serra do Itatins, o desmatamento avança.
“Escutamos o barulho da motosserra e o cheiro da queimada”, lembra o sitiante
Roberto Oyaizu, dono de 84 hectares na RDS, adquiridos 13 anos atrás. “A soma
das propriedades da reserva já é menor que a área desmatada.”
As árvores altas são preservadas e a vegetação rala é decepada pelo facão.
Mateiros experientes, contratados a R$ 50 por dia, plantam banana. Quando a
planta estiver grande, a mata nativa é arrancada.
“É uma situação de desmatamento mais grave, crítica”, diz Oliveira Costa. Os
moradores da Juréia, que brigam na Justiça pelo direito de ficar ou sair com
indenizações, perceberam que deveriam fazer algo. Em 2005 e neste ano,
realizaram dois empates, nome usado pelo ambientalista Chico Mendes para o
protesto contra o corte ilegal de árvores. O Ministério Público Estadual moveu
dezenas de ações contra os invasores. São 70 pontos de desmatamento.
Em março, o secretário estadual Xico Graziano sobrevoou a região na comunidade
Vista Grande e, impressionado com a devastação, acusou o Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária. “Vou acionar o Incra e responsabilizá-lo.” O
órgão afirma que o secretário comete “equívocos”, pois a área em fase de
desapropriação não é um assentamento. “O problema do desmatamento é de
conhecimento do governo estadual e de sua competência”, afirma o Incra. No dia
24, o secretário programou uma visita à Juréia.
Fonte:
Estadão