
Livro reúne dois grandes programas de pesquisa para ajudar na
elaboração de políticas de conservação da Amazônia
São Paulo, março de 2.009
– Integrar diferentes
abordagens de uma comunidade de pesquisa das áreas de ciências
sociais e naturais dedicada às interações entre população e meio
ambiente é a proposta do livro Amazônia: Natureza e Sociedade em
Transformação, coletânea de 11 textos de diversos autores que
discutem tais interações na maior floresta tropical do planeta.
O lançamento ocorreu
em 24/3, na Livraria da Vila, na capital paulista. Trata-se do
segundo livro da coleção “Ciências Ambientais” da Editora da
Universidade de São Paulo (Edusp) – o primeiro, Dimensões Humanas
da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, de Wanderley Messias da
Costa, Bertha Becker e Diógenes Salas Alves, ganhou o prêmio Jabuti
em 2008.
“O livro
navega por temas de diferentes domínios disciplinares, sempre com o
foco na natureza e na sociedade em transformação, do ponto de vista
de profissionais como economistas, demógrafos, biólogos, geógrafos,
antropólogos e ambientalistas, que mostram suas experiências de
pesquisa e as implicações destas para o futuro da Amazônia”, disse
um dos organizadores da obra, Mateus Batistella, pesquisador da
Embrapa Monitoramento por Satélite, à Agência FAPESP.
A comunidade
científica interdisciplinar que assina a obra, explica Batistella,
que também é professor do Programa de Doutorado em Ambiente e
Sociedade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), reúne
experiências no âmbito do Experimento de Grande Escala de
Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), programa concebido em 1997
para o estudo integrado sobre a região, por meio de sete componentes
temáticos de pesquisa.
A obra discorre sobre
o sétimo componente, nomeado “Dimensões físicas e humanas do uso e
cobertura das terras na Amazônia: Uma síntese multiescalar”.
“Para integrar
pesquisadores do Brasil e do exterior em torno desse tema fizemos
dois workshops em 2006 e 2007, um em Belém e outro em Manaus, quando
nasceu a idéia do livro. A obra apresenta, por exemplo, a evolução
da comunidade científica nacional em torno do LBA, em temas como as
modificações no uso da terra, ordenamento do território e acesso a
recursos naturais”, disse Batistella.
O organizador destaca
que o livro, apesar de ser muito abrangente, não pretende ser
conclusivo. “Pelo contrário, a idéia é abrir o debate acadêmico em
um momento de transformações importantes na Amazônia, devido a
fenômenos recentes relacionados ao rápido processo de urbanização da
floresta, que possui um conjunto grande de serviços ambientais
capazes de promover até mesmo a regulação do clima no país”,
destacou.
O livro está dividido
em três partes principais. A primeira aborda a questão das
“Dimensões Humanas” no LBA a partir de experiências como o uso e a
cobertura da terra e a relação entre ciência e sociedade para o
enfrentamento dos problemas ambientais relacionados com a Amazônia.
A segunda parte
discute trajetórias, cenários e modelos para a Amazônia a partir de
diferentes enfoques metodológicos, mostrando como vários
pesquisadores do LBA têm procurado relacionar as interações humanas
e ambientais na região.
A terceira parte do
livro, por sua vez, trata do crescente interesse dos pesquisadores
nos aspectos institucionais como fator de compreensão dessas
interações, ao passo que a ciência e a tecnologia se voltam cada vez
mais para os novos desafios da Amazônia.
Homem no ambiente
Batistella é
responsável pela tradução para o português de outro livro,
Ecossistemas Florestais: Interação Homem-Ambiente, que também
será lançado nesta terça-feira (24/3), em São Paulo. A obra reúne os
resultados de outro projeto de pesquisa multidisciplinar e de longa
duração, desenvolvido em mais de dez países pelo Centro para o
Estudo de Instituições, População e Mudanças Ambientais (Cipec, na
sigla em inglês).
O projeto, coordenado
pelo antropólogo Emilio Moran, professor do Centro Antropológico
para Treinamento e Pesquisa em Mudanças Ambientais Globais da
Universidade de Indiana, e pela cientista política Elinor Ostrom,
diretora-fundadora do Centro para o Estudo da Diversidade
Institucional da Universidade do Estado do Arizona – ambas nos
Estados Unidos –, aponta mudanças no uso e na cobertura da terra em
regiões de florestas como vetores das alterações ambientais globais.
“O livro traz uma
síntese do trabalho de dezenas de pesquisadores vinculados ao Cipec,
em que a questão básica em pauta é a razão pela qual as florestas
estão diminuindo em alguns países, enquanto em outros elas estão até
se regenerando, mesmo com a presença de alta densidade humana”,
disse Batistella. A edição foi realizada em conjunto pela Editora
Senac e pela Edusp.
Para responder a essa
questão, o livro oferece diferentes enfoques e abrange desde
questões mais técnicas, com estudos sobre processamento de imagens e
mapeamento de uso da terra, até institucionais e econômicas.
“Não há uma resposta
única que explique as interações entre o homem e o meio ambiente nas
áreas que eram ou ainda são cobertas por floresta, mas temos uma
somatória de razões multidimensionais”, disse.
Segundo Batistella,
os estudos apresentados na publicação – cuja edição original
norte-americana foi apoiada pela National Science Foundation (NSF) –
“buscaram não apenas tratar das dimensões visíveis do problema, mas
também olhar para um conjunto relativamente amplo de domínios
disciplinares”, incluindo, além da Amazônia, trabalhos realizados em
florestas da América Central, dos Estados Unidos e em países da Ásia
e da África.
Além de ter acesso a
fundamentos conceituais sobre análises de interações homem-ambiente
em ecossistemas florestais, assim como a aspectos metodológicos e
aplicações por meio de estudos comparativos em várias regiões do
mundo, os leitores do livro irão encontrar subsídios para entender
melhor os diferentes tipos de alteração que as áreas de florestas
podem sofrer ao longo dos anos.
“Essas duas obras vêm
a calhar em um momento muito importante no Brasil na área da gestão
ambiental – principalmente no que diz respeito ao poder Legislativo,
que atualmente trava um debate importante sobre a mudança do Código
Florestal Brasileiro. Por trazer conhecimentos atuais sobre o tema,
os dois livros poderão orientar políticas públicas ou, ao menos,
promover o debate que dará origem a elas”, apontou Batistella.
Os livros
serão lançados a partir das 18h30, na
Livraria da Vila,
em São Paulo, com palestra dos autores.
Mais
informações:
www.edusp.com.br
Fonte: Thiago Romero,
da Agência FAPESP