Grande São
Paulo: cresce a ameaça aos mananciais
São
Paulo, novembro de 2.006 - Nos últimos 30 anos, 67% da expansão da mancha urbana
da Região Metropolitana de São Paulo ocorreu em áreas de proteção de mananciais
ou áreas de risco. Nesse período, submoradias distribuídas entre 2.797 favelas e
loteamentos clandestinos ocuparam irregularmente 670 km² de encostas, fundos de
vales e margens das Bacias de Guarapiranga e da Billings. Há 30 anos, em 17 de
novembro de 1976, entrava em vigor a Lei de Proteção dos Mananciais
Metropolitanos, considerada uma lei de Primeiro Mundo por ter sido elaborada com
critérios técnicos para limitar o índice de permeabilização do solo e a ocupação
das bacias. Ao longo dos anos, porém, medidas demagógicas, omissão e conivência
do poder público contribuíram para tornar a lei ineficaz.
Não existe justificativa para a ocupação predatória das áreas de mananciais. É
uma falácia falar em política social para suprir a carência de moradias. Isso é
desculpa para o desleixo dos governos, que deixaram de desenvolver políticas
habitacionais capazes de atender à demanda dos fluxos migratórios. Enquanto
áreas dotadas de boa infra-estrutura perderam população por causa da alta do
custo de vida, a periferia inflou. Os danos são irrecuperáveis: 2 milhões de
pessoas, morando em condições precárias e irregulares, comprometem o meio
ambiente e o abastecimento de água de toda a população da região metropolitana,
de cerca de 19 milhões de habitantes.
Na Região Metropolitana de Nova York, onde vivem também 19 milhões de pessoas,
ocorreu degradação semelhante, o que obrigou a metrópole a trazer água de
reservatórios localizados a 240 quilômetros. Hoje, não se permite sequer a pesca
nos mananciais formados pelos Rios Delaware e Catskill, ao norte de Nova York.
Naquela área, o índice de adensamento populacional é de 19 habitantes por km².
Na Grande São Paulo, é de 3,5 mil habitantes por km² nas margens dos mananciais.
A Lei de Proteção de Mananciais Metropolitanos foi criada, mas as prefeituras da
Região Metropolitana de São Paulo e o governo estadual não fizeram a parte que
lhes competia na aplicação da lei. Não impediram o uso e a ocupação desordenada
do solo no eixo norte-sul da região metropolitana, onde se localizam os
reservatórios. A lei conseguiu inibir um pouco a ação de empresas imobiliárias
formalizadas. Mas a falta de fiscalização deixou livre os espertalhões que,
muitas vezes em conluio com políticos que prometem anistia aos invasores em
troca de votos, lotearam - e ainda loteiam - a região, vendendo a maior parte
dos terrenos a desempregados, que formam um constante fluxo migratório
intrametropolitano, sempre em busca do menor custo para viver.
Estudo da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) revela
crescimento de 6% ao ano da população das favelas localizadas na região
metropolitana. O município de Itaquaquecetuba, por exemplo, recebeu, entre 1990
e 2000, 140 mil novos moradores vindos de municípios vizinhos. Entre 2000 e
2005, outros 65 mil foram para aquela cidade, que não tem programa habitacional
para atender a tantos. Até 2010 terá 170 mil novos habitantes.
A radiografia da região metropolitana feita pela Emplasa foi entregue aos
prefeitos dos 39 municípios da região metropolitana. Esses municípios estão
obrigados, pelo Estatuto das Cidades, a elaborar Planos Diretores até 10 de
outubro de 2007. Conforme a legislação, devem, agora, elaborar a Lei de
Zoneamento e Uso do Solo e, para facilitar a tarefa, a Emplasa desenvolveu o
mapeamento. O documento deve servir como ponto de partida para a definição do
uso e da ocupação do solo de toda a região metropolitana, integrando interesses
comuns, como a proteção das bacias.
O governo estadual destina 50% do Orçamento para os municípios da região
metropolitana, o que representará, em 2007, aproximadamente R$ 40 bilhões. Os
orçamentos de todos os municípios da Grande São Paulo somam R$ 25 bilhões. São,
ao todo, R$ 65 bilhões que, bem administrados, podem gerar soluções integradas
para a proteção dos mananciais e para a melhoria de vida da população.
Fonte: Estadão
