Brasil tem contribuído na luta contra o aquecimento global, diz Marina Silva

Brasília, janeiro de 2.007 - A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, fala sobre licenciamento
ambiental e sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em entrevista à
Radiobrás.
Enchentes, secas e furacões, cada vez mais comuns, ocuparam boa parte
dos debates do Fórum Econômico Mundial, que se encerra hoje (29), em Davos, na
Suíça. Estima-se que, se o desmatamento e a poluição continuarem na proporção
atual e se o Tratado de Quioto não for seguido, a temperatura na Amazônia pode
subir entre 6 e 8 graus, e o volume de chuvas pode encolher em 20%. Em
entrevista, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, explica como o país tem
contribuído para as tentativas de contenção das mudanças climáticas.
A ministra falou à Radiobrás na última quarta-feira (24), quando comentou também
o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). Citou levantamento segundo o qual
a redução do desmatamento nos últimos dois anos evitou a liberação na atmosfera
de 128 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2), um dos principais poluentes
que agravam o efeito estufa.
Agência Brasil: Ministra, um estudo divulgado pelo Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que o Brasil sofrerá sérias mudanças
climáticas nos próximos 50 anos caso não tome graves medidas. O país está
preparado para enfrentar os efeitos do aquecimento global?
Marina Silva: Se você perguntar para a Inglaterra se eles se prepararam bem – e
eles têm dinheiro, tecnologia e massa crítica – se perguntar para os Estados
Unidos e para o Japão, para qualquer país do mundo, se eles estão preparados, a
resposta vai ser de que eles não estão. O Brasil está fazendo um esforço muito
grande, na realidade de um país em desenvolvimento, com poucos recursos, com
dificuldades do ponto de vista tecnológico em vários aspectos.
ABr: A que tipo de esforço a senhora se refere?
Marina: O Brasil acaba de dar uma grande contribuição: uma redução de 52% do
desmatamento, o que significou uma redução de 128 milhões de toneladas de CO2
nos últimos dois anos. Isso representa uma redução de 15% de tudo que teria de
ser diminuído pelos países ricos no período [segundo o Tratado de Quioto]. Logo,
um país em desenvolvimento, com graves problemas sociais, que dá essa
contribuição... Eu diria que nós estamos no caminho.
ABr: No ano passado, durante a 12ª Conferência das Partes da Convenção sobre
Mudança do Clima, em Nairóbi, no Quênia, a senhora apresentou uma proposta de
compensação financeira para os países em desenvolvimento que obtiveram redução
no desmatamento das florestas tropicais. O que mais pode ser feito para que os
países desenvolvidos diminuam a emissão de gás carbônico?
Marina: O que nós precisamos fazer é que essa agenda de compensação positiva
pela redução, que apresentamos em Nairóbi, perpasse todas as possibilidades de
redução de CO2. Oitenta por cento das emissões são oriundas do uso de
combustíveis fósseis [como o petróleo, consumido principalmente por nações
ricas] e 20% pelo uso da terra. Entra aí a parte de florestas, de agricultura,
de tudo o que tem a ver com uso da terra. Se esses 20% chegassem a zerar, se
ninguém fizesse mais nem um uso desse potencial, o que é impossível para a
humanidade e para o planeta, mesmo assim não resolveria o problema. As florestas
seriam destruídas do mesmo jeito pelo esquentamento global. Mas isso não
significa que não tenhamos que encarar esse problema e que não precisemos ter
uma agenda para a questão de outros vetores. A nossa contribuição é muito
importante, inclusive porque ela reduz também as cotas dos países desenvolvidos
no próximo período de compromisso.
ABr: Que papel cabe aos países em desenvolvimento nessa empreitada?
Marina: Nós não temos que reivindicar o direito de cometer os mesmos erros que
os países desenvolvidos fizeram. Já estamos buscando energias renováveis. O
Brasil, por exemplo, está no topo dessa contribuição em relação à energia: 81%
da matriz elétrica brasileira é renovável. Nenhum país no mundo tem isso. Isso
não significa que não tenhamos uma grande jornada pela frente. Não podemos
baixar a guarda.
ABr: Ao lado da queda do desmatamento, que a senhora citou, nos últimos quatro
anos se aprovaram marcos legais e de planejamento, como a Lei de Florestas
Públicas e o Plano Nacional de Recursos Hídricos. O que esperar da área
ambiental neste segundo governo do presidente Lula?
Marina: Eu não posso falar de cenários do mandato, porque o presidente ainda não
definiu quem formará a sua equipe. O que eu posso dizer é que as conquistas do
primeiro mandato, de uma política ambiental transversal, de colocar o meio
ambiente como parte da equação do desenvolvimento, vão continuar.
Fonte: Érica Santana,
Repórter da Agência Brasil