Medidas anti-crise deixam fatores ambientais
de lado, dizem especialistas

Brasília, abril de 2.009 - As medidas do governo brasileiro para tentar amortecer os impactos da
crise financeira internacional na economia interna, ao contrário de países como
Estados Unidos e Inglaterra, não consideram fatores ambientais na tomada de
decisões e estão entre as “menos verdes” do planeta. De acordo com o diretor de
políticas públicas da organização não-governamental Greenpeace, Sérgio Leitão, o
governo está perdendo a oportunidade de fortalecer o desenvolvimento sustentável
e estimular a chamada economia verde.
“As medidas anticrise estão sendo tomadas de forma totalmente desvinculada de
critérios ambientais. O governo poderia fazer o 'casamento do ótimo com o bom' –
ao mesmo tempo em que estimula o emprego também estimula uma economia moderna,
do século 21, que é aquela com baixo consumo de eletricidade e gerando pouco
dióxido de carbono,”, apontou.
O professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília
(UnB), Eduardo Viola, pondera que a maioria dos pacotes de socorro financeiro
mundo afora tem elementos para “favorecer a transição para economias de baixo
carbono”, o que não é o caso do Brasil.
Segundo Leitão, em países como Estados Unidos e Inglaterra a crise tem sido uma
oportunidade para experiências como a exigência de carros menos poluentes para
indústrias que receberam socorro financeiro e estímulo à criação de empregos
verdes – adotadas pelo presidente norte-americano Barack Obama e pelo primeiro
ministro inglês, Gordon Brown.
“Aqui no Brasil só se olha um lado da crise – o econômico – sem olhar o lado da
oportunidade, de se resolver o problema do emprego e da economia do ponto de
vista da geração de menos poluentes”, comparou.
Um dos maiores exemplos da ausência de contrapartida ambiental nas medidas de
socorro à economia, segundo os especialistas, é o programa habitacional lançado
no último dia 25, que prevê a construção de 1 milhão de casas, mas sem
referências à utilização de tecnologias verdes nos projetos.
“O governo poderia ter feito uma série de exigências de que as casas que serão
construídas tivessem coletores de luz solar, que ela é muito mais econômica do
ponto de vista da eletricidade. Se o governo desse uma contribuição do ponto de
vista da produção massiva, o custo [dessa tecnologia] iria cair de forma
significativa”, avaliou Leitão.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, chegou a anunciar a inclusão do
sistema de aquecimento solar de água para as casas do pacote habitacional. No
entanto, a informação não foi confirmada pela Caixa Econômica Federal. De acordo
com a assessoria do Ministério do Meio Ambiente, o aval para o projeto ainda
depende da área econômica do governo. Procurada pela reportagem, a Caixa
informou apenas que os detalhes da participação do banco na execução e
financiamento dos projetos serão anunciados esta semana, mas não confirmou a
inclusão de subsídios para instalação de placas de energia solar.
De acordo com Viola, o programa também poderia prever a utilização de técnicas
de construção sustentáveis. “As casas poderiam ter um padrão de edificação
verde, o chamado greenbuild, por exemplo, com tetos com camadas de grama, que
tornam o ambiente mais fresco”, apontou.
As medidas adotadas para fortalecer a indústria automobilística também poderiam
incluir ações compensatórias do ponto de vista ambiental. A redução do Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI), por exemplo, poderia ter sido
condicionada à maior rapidez no desenvolvimento e na produção de motores
adaptados a diesel menos poluente.
“O pacote para o setor teria que ter tido um componente no sentido de favorecer
o transporte público. Os congestionamentos são grandes problemas hoje. Por causa
das horas parados no trânsito, a eficiência do quilômetro rodado é muito baixa o
que torna as emissões de carbono muito altas, principalmente em ônibus e
caminhões movidos a diesel”, acrescentou Viola.
Apesar da “oportunidade perdida” pela ausência de critérios ambientais nos
pacotes, Viola acredita que o Brasil ainda poderá reverter a demanda por
investimentos verdes. “Até porque o pacote [de medidas anticrise] só representou
1,5% do PIB [Produto Interno Bruto], nos Estados Unidos foi 7% e na China chegou
a 13%. Esse é um processo muito longo, há bastante tempo para recuperar.”
Fonte:
Luana Lourenço,
Repórter da Agência Brasil