Megaresort ameaça a "Duna
Dourada", um dos principais pontos turísticos do Rio Grande do Norte
Ministério Público
investiga se empreendimento de 35 mil casas no Rio Grande do Norte irá ainda
afetar infra-estrutura local
Previsão é que obras
tenham início em março; jogador Ronaldo e ator Antonio Banderas fazem propaganda
do condomínio na Espanha
Natal (RN), janeiro de 2.008 - A "Duna Dourada", um dos principais pontos
turísticos do Rio Grande do Norte, está ameaçada pela construção de um
megaresort, com 35 mil casas, perto de Natal. A denúncia é do Ministério
Público.
O "Grand Natal Golf", iniciativa de uma empresa espanhola, é considerado pelo
governo federal o maior projeto imobiliário-turístico do país. Seus números são
comparáveis aos de uma grande cidade: dentro de cerca de dez anos, serão
aproximadamente 35 mil casas, que poderão abrigar até 166 mil pessoas. Natal,
por exemplo, tem 750 mil moradores, segundo o IBGE.
A Promotoria do Rio Grande do Norte investiga se o empreendimento irá trazer,
além do desaparecimento da duna, o esgotamento da infra-estrutura local e o
acirramento das diferenças sociais.
A obra já ganhou a licença prévia do Idema, o órgão ambiental estadual, e as
obras estão previstas para março.
Na Espanha, a reserva de casas por parte dos interessados já começou. As vendas
têm como garotos-propaganda o jogador de futebol Ronaldo e o ator espanhol
Antonio Banderas. O público-alvo é europeu, e o slogan é "deixe-se seduzir pela
magia brasileira".
Mas, para a promotora Ethel Ribeiro, da cidade de Extremoz, que sediará parte do
empreendimento - outra parte fica em Ceará-Mirim-, há a possibilidade de que a
"Duna Dourada", que está na área onde será feito o megaresort, possa
desaparecer. Por não ser vegetada, ela pode ter, legalmente, 20% de sua área
construída. Mas uma edificação pode, por exemplo, bloquear os ventos.
"Estamos tentando discutir isso agora, porque quando a obra começa fica muito
difícil de parar."
Caso a duna seja afetada, diz, haverá também uma perda da fauna e da flora, além
do risco de estragar um cenário que hoje é considerado paradisíaco.
Os empreendedores afirmam que a duna continuará "intocada" (leia texto ao lado).
O Idema diz que criou uma comissão especial para acompanhar a maneira como essas
formações se transformarão com obras como essa.
A promotora também diz que é preciso avaliar bem como serão criadas as condições
sanitárias e sociais para prover a população que passará a viver,
gradativamente, ali.
Ela diz suspeitar que não haja escolas, hospitais ou policiais para lidar com
esse crescimento, que poderá também sobrecarregar o saneamento básico da área,
que hoje já é considerado ruim -apenas 33% de Natal tem rede de esgoto.
Outra possibilidade, afirma, é que as obras não consigam absorver o fluxo
migratório da população.
Para o governo estadual, no entanto, a expectativa é inversa, que haverá
benefícios e que é "progresso". Segundo o secretário de Turismo, Fernando
Fernandes, a obra deve gerar ao menos 100 mil postos de trabalho na área
hoteleira e da construção civil, e, assim, desenvolver a região ao norte de
Natal.
Com o "boom" turístico no Rio Grande do Norte, o Ministério Público investiga
suspeita de que vereadores de Natal teriam sido beneficiados por empreiteiras
para favorecê-las durante a votação do Plano Diretor da cidade, em 2007. A
investigação não foi concluída.
Fonte:
Folha de São Paulo